Crítica da Cultura

Retóricas agudas: violência urbana e corrosão do humano – Número 135 – 07/2015 – [57-62]

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Preâmbulo

Custo a aderir a qualquer leitura sobre as conversas nas redes sociais, postagens, compartilhamentos e outras formas de manifestação nesses espaços virtuais[1] como algo promissor; dada a forma, em geral, irrefletida e bidimensional de tais publicações. Acontece que, mesmo muito vacilante em relação a esse movimento, aventuro-me nesse breviário a ter como base uma troca de mensagens que travei recentemente em minha página virtual. Faço isso como uma forma de purgar uma espécie de toxidade que permaneceu depois da discussão ferrenha. Um envenenamento pelo contato com a agudeza[2] retórica que envolve formas de argumentação que não têm nenhum constrangimento em se afastar das prerrogativas do reconhecimento da humanidade do outro. Continue Lendo

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Quimeras – Número 89 – 03/2013

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O contemporâneo em Chico Buarque: notas sobre o autor e a política – Número 41 – 11/2011 – [156-161]

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Difícil e delicada é a tarefa de delimitar as conseqüências políticas da arte. Se os determinismos produzem toda sorte de simplificações, que mais ofuscam do que expõem a complexidade das obras, interpretar a produção artística para além de qualquer condicionante histórico ou sociológico resta também insuficiente. A presença do tempo e da vida nos engenhos humanos impõe-se de modo inafastável, mesmo quando escapa à própria consciência do autor. Continue Lendo

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O episódio ou nada: notícias do complexo do Alemão – Número 29 – 09/2011 – [108-112]

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Na terça-feira, 6 de setembro, eu não havia assistido ao noticiário e nem lido os jornais. Lá pelas tantas da tarde, uma repórter de uma grande emissora de televisão me telefonou querendo marcar uma entrevista sobre os confrontos no complexo do Alemão e o descrédito das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) diante da população. Eu, sem saber do que ela estava falando e estranhando a correlação que o tema da conversa propunha, decidi recusar a entrevista (até porque havia dado uma entrevista para a mesma emissora semanas atrás e considerei tanto os jornalistas quanto o tratamento dado ao material que coletaram se não desrespeitoso, no mínimo, inconveniente). Continue Lendo

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Erros de amigos – Número 26 – 08/2011 – [97-99]

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Há muito tempo descobri a sombra fresca que vem da amizade com quem já morreu. Coisas maravilhosas vêm dos autores mortos. A mais elementar (e acolhedora), creio, é que a morte lhes confere algo de distante e torna possível encontrar alguém que, embora humano, parece não partilhar da humanidade. Esta, que responde ao mesmo tempo pela aproximação e pelo invariável desgosto que toda amizade sempre promove, só é neutralizada pela morte. Continue Lendo

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A corrupção como poluição: uma reflexão sobre o caso brasileiro – Número 25 – 08/2011 – [93-96]

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Faxina. […] 6. Serviço de limpeza ou de condução de rancho nas casernas. 7. P. ext. Limpeza geral. 8. Fig. Estrago, destruição. 9. Fig. Desfalque.
Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa

Certa vez disseram que corrupção era como poluição, e não foi nenhum ativista de causas ambientais. A metáfora é precisa. Frequentemente definida pelas enciclopédias escolares como a ação do homem no meio ambiente que altera a situação anterior, poluição é, então, alguma coisa fora do lugar adequado. Exemplo simples: carbono, ao entrar na atmosfera, torna o ar mais denso e contribui para o efeito estufa. O mesmo carbono, fixado em um jequitibá, por exemplo, não causa qualquer dano. Poluição é, portanto, uma substância que não está no seu devido lugar, devido à ação humana. Do mesmo modo, paixões e interesses, no universo político, fora de seu devido lugar se tornam agentes maléficos do Estado. Quando as diversas vontades dos diferentes segmentos da sociedade encontram espaço público para se manifestar, tudo fica em seu lugar. Em comum, existe a crença de que, em sua situação ideal, a natureza e a coisa pública possuem tudo em seus devidos lugares: o carbono fixado, as paixões e interesses institucionalizados. Continue Lendo

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Saramago, as letras e a opinião pública – Número 24 – 08/2011 – [90-92]

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Único escritor lusófono a receber um Prêmio Nobel de Literatura, Saramago foi um dos grandes nomes das letras portuguesas, mas sua celebridade esteve sempre envolta em polêmica. Jamais foi uma unanimidade, o que não é mau. Pois, uma vez que toda unanimidade é burra, como dizia Nelson Rodrigues, a falta dela representa uma vantagem do debate público português. A morte de Saramago, ocorrida há um ano, foi cercada de pompa, circunstância e polêmica; foi, nesse sentido, fiel a sua vida. Militante comunista, intelectual franco e crítico da sociedade portuguesa, ateu inveterado, Saramago acumulou pertenças controversas que justificam certos desentendimentos e a coleção de desafetos. Continue Lendo

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A “chacina de Realengo” entre a normalização espetacularizada e o espetáculo normalizador – Número 22 – 08/2011 – [82-86]

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“O monstro é, paradoxalmente – apesar da posição-limite que ocupa, embora seja ao mesmo tempo o impossível e o proibido –, um princípio de inteligibilidade. No entanto, esse princípio de inteligibilidade é propriamente tautológico, pois é precisamente uma propriedade do monstro afirmar-se como monstro, explicar em si mesmo todos os desvios que podem derivar dele, mas ser em si mesmo ininteligível. Portanto, é essa inteligibilidade tautológica, esse princípio de explicação que só remete a si mesmo, que vamos encontrar bem no fundo das análises da anomalia” (Foucault, Michel. Os anormais. São Paulo: Ed. WMF, 2010, p.48).

Estudando as práticas de saber e de poder envolvidas nos costumes penais da França a partir de fins do século XVIII, o historiador e filósofo Michel Foucault classificou a associação entre o emergente saber psiquiátrico e o sistema jurídico pós-Revolução Francesa como um regime de “normalização”. Naquele contexto, tratar-se-ia, para Foucault, de um sofisticado arranjo entre saber científico e poder judiciário, a partir do qual se estabelecia uma linha demarcatória entre o normal e o patológico. Com tal arranjo, a defesa da sociedade contra certos “crimes bárbaros” se apoiaria na própria construção da categoria do monstro, do anormal, como algo em grande medida alheio ao social – um lado de fora da sociedade que, assim, atribuir-se-ia o trabalho de normalizar o desviante tal como uma civilização se dispõe a colonizar um povo bárbaro. Nesse sentido, o anormal, longe de ser pensado e tratado em sua relação intrínseca com o “normal”, seria visto como manifestação de algo monstruoso, e poderia apenas explicar a si mesmo. No circuito de inteligibilidade tautológica de que fala Foucault, o monstro é compreendido como um princípio de explicação, mas permanece, paradoxalmente, isolado e ininteligível – dele apenas se infere sua própria opacidade. Continuar Lendo

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História dos Conselhos – Número 20 – 07/2011 – [76-79]

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Por um lapso, uma moça pensa em correr para a própria vida. O que a faz parar? O que faz alguém, ao contrário, correr das próprias idéias? A adaptação pode ser uma primeira resposta. Mas qualquer adaptação requer pelo menos duas coisas: necessidade e treinamento. Passar a vida disfarçada é algo que se impôs sobre a moça mediante muitas dificuldades e demandou muito ensaio, muitos conselhos. Isto não significa, entretanto, que ela não possa saber que a adaptação, embora por vezes tenha sido uma necessidade, não é necessária, mas contingente. Continue Lendo

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