Crítica da Cultura

O mito bandeirante e a escalada da intransigência no mundo virtual – Número 18 – 07/2011 – [67-69]

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Pedra fundamental na construção da identidade paulista, o imaginário acerca do mito bandeirante é um dos responsáveis, inclusive por sua perenidade, pela demarcação de uma pretensa singularidade. A noção, dotada de uma veracidade histórica, atribui às bandeiras paulistas o protagonismo da conquista e formação do território, bem como, de sua ocupação e povoamento. O espírito aventureiro, a oposição ao poder estatal da metrópole, formaria aquilo que conjugaria o acaso e a disciplina na abertura de caminhos virgens. Assim, para alguns estudiosos e intérpretes, como no caso clássico de Cassiano Ricardo, o movimento das bandeiras foi capaz de fazer nascer, em terras brasileiras, um espírito americano em contraposição aos maléficos aspectos que formam o arcabouço cultural ibérico. Continue Lendo

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Tudo bem em Jerusalém; o mal é ocidental: Ensaio sobre o imaginário ocidental em correspondência a um relampejo etnográfico – Número 14 – 06/2011 – [44-56]

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1. Jerusalém é uma cidade metafórica. Experimentar seu cotidiano é um desafio permanente de localização entre histórias milenares, passados míticos, micropolíticas afetivas e geopolítica global. Não apenas nossos caminhos nela se balizam por buscas voluntariosas, por promessas ouvidas no ultramar ou por peregrinações religiosas, mas nesta cidade nossas experiências são perpassadas por fenômenos densos, díspares e em doses colossais como raro se vê. Apesar dos impactos simbólicos repetitivos ao se caminhar pelas ruas, a digestão emocional do que se sente é lenta, e mais lenta é a compreensão intelectual do que se passa. Ao menos para o neófito observador que lhes escreve. A experiência em Jerusalém é especialmente metafórica, me parece. E, se toda metáfora é também uma metonímia, uma representação do todo pela parte, aqui o todo expressa sua irredutibilidade às partes… em toda parte. Continue Lendo

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Como se forma a cultura pública? – Número 11 – 06/2011 – [34-35]

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Em fins do ano de 1788, um padre radical francês envolvido com o processo revolucionário então em curso em seu país – o abade Emannuel Joseph Sieyèz (1748-1836) – escreveu uma pequena obra prima. A obra, editada em janeiro de 1789, denominava-se Qu’est ce qu’est le Tiers État? (O que é o Terceiro Estado?). Tratava-se de uma refutação aberta aos valores e procedimentos da cultura política do Antigo Regime, sustentada na divisão da sociedade francesa em três “estados”. O primeiro e o segundo dos quais ocupados pelo clero e pela nobreza. O restante – o Terceiro Estado – continha a maioria demográfica dos franceses. Maioria demográfica, minoria política, em rigorosa distinção para com os demais estados, minorias demográficas e maiorias políticas. Continuar Lendo

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A primavera árabe e as lembranças de 1848 – Número 9 – 05/2011 – [28-30]

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As revoltas populares em países do Norte da África e do Oriente Médio vem sendo chamadas por muitos de “primavera árabe”. A onda de protestos e enfrentamentos iniciada na Tunísia no mês de janeiro já teve reflexos em pelo menos mais 13 países da região. Dois presidentes que ocupavam os cargos há décadas foram derrubados, um país está sendo bombardeado por uma coalizão internacional liderada pela OTAN, milhares de pessoas foram mortas, presas ou deslocadas e os conflitos ainda parecem longe do fim.

A idéia da primavera é uma metáfora expressiva para descrever estes acontecimentos, se tomarmos como referência as zonas temperadas do globo, em que as quatro estações do ano são bem definidas.  A primavera traduz-se no despertar da natureza após os rigores do inverno. É a vida que volta a brotar da terra adormecida. A primavera árabe, despertar de povos submetidos a governos de caráter autoritário, não é de modo algum um movimento com sentido único, deve ser reconhecida a pluralidade de questões que estão colocadas nos diferentes focos de insatisfação. O que há em comum nas diversas manifestações? Homens e mulheres que exigem “reformas políticas” e, sobretudo, melhores condições de vida. Continue Lendo

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Bin Laden e o amesquinhamento de uma nação – Número 6 – 05/2011 – [16-17]

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Osama bin Laden, o líder máximo da Al Qaeda e autor intelectual dos atentados de 11 de setembro, que vitimaram cerca de três mil pessoas, foi assassinado no dia 1º de maio de 2011, numa ação promovida por forças estadunidenses e supervisionada diretamente pelo mandatário máximo dos EUA – o Presidente Barack Obama. Bin Laden foi morto numa casa localizada na cidade de Abbottabad, onde morava havia cinco anos, a cerca de uma hora da capital paquistanesa, Islamabad. Apesar de não ter sido divulgada nenhuma fotografia de Bin Laden, sua identidade teria sido confirmada por exames de DNA. Segundo as Forças Armadas estadunidenses, após a execução, seu corpo foi lavado e envolto em lençol branco, de acordo com os ritos islâmicos. Posteriormente, o corpo foi lançado no Mar da Arábia – o que contraria os ritos islâmicos – para evitar que o túmulo pudesse se tornar em objeto de culto de simpatizantes. Continue Lendo

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Intolerância – Número 3 – 04/2011 – [7-8]

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Há duas semanas o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) vem ocupando as páginas de discussão e redes de relacionamento na internet, motivo de indignação para boa parte da opinião pública. Isso porque, Bolsonaro é pródigo em declarações preconceituosas e homofógicas, figura já conhecida no cenário nacional que chega a sua sexta legislatura. O que de novo, no entanto, está acontecendo?

No caso recente, o deputado participou de um programa de TV, respondendo a questões que eram formuladas previamente por cidadãos nas ruas, incluindo, ao final, uma pergunta feita pela cantora Preta Gil sobre a possibilidade do casamento entre brancos e negros. Bolsonaro respondeu a todas transparecendo o que de pior pode existir no convívio democrático. Foi racista, preconceituoso, antidemocrático, para não dizer desonesto com a história do país no momento em que dirige críticas descontextualizadas ao passado da Presidenta Dilma. Em sua resposta a cantora, ele se disse livre de “promiscuidades” quando negou a possibilidade de um filho seu se casar com uma mulher negra. Continue Lendo

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