Author Archives: André Rodrigues

About André Rodrigues

Mestre em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro – IUPERJ, atualmente é doutorando em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos – IESP/UERJ. Participou do Laboratório de Estudos em Teoria Política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, é membro do Labarotário de Estudos Hum(e)anos da Universidade Federal Fluminense e pesquisador associado do Instituto de Estudos da Religião – ISER. Coordena pesquisas na área de segurança pública, análise da violência e filosofia política.

Retóricas agudas: violência urbana e corrosão do humano – Número 135 – 07/2015 – [57-62]

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Preâmbulo

Custo a aderir a qualquer leitura sobre as conversas nas redes sociais, postagens, compartilhamentos e outras formas de manifestação nesses espaços virtuais[1] como algo promissor; dada a forma, em geral, irrefletida e bidimensional de tais publicações. Acontece que, mesmo muito vacilante em relação a esse movimento, aventuro-me nesse breviário a ter como base uma troca de mensagens que travei recentemente em minha página virtual. Faço isso como uma forma de purgar uma espécie de toxidade que permaneceu depois da discussão ferrenha. Um envenenamento pelo contato com a agudeza[2] retórica que envolve formas de argumentação que não têm nenhum constrangimento em se afastar das prerrogativas do reconhecimento da humanidade do outro. Continue Lendo

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Belchior ou o elogio dos comuns – Número 118 – 02/2014 – [19-23]

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Certos comportamentos coletivos são sintomas das tensões entre algumas virtudes e misérias da vida moderna no ocidente. A celeuma em torno do “sumiço” do cantor Belchior é um bom caso para pensarmos sobre essa questão. O lugar que a vida do homem e da mulher comuns ocupa na cultura ocidental é o ponto em discussão. Continue Lendo

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Sobre labirintos e espelhos: Montaigne, Borges, Vieira e o real como mistério – Número 102 – 06/2013 – [93-105]

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De tanto descrevermos como as coisas são
Todas as coisas deixaram de ser.
Restou a opacidade plena.

Na oficina do engenho
As ferramentas acumulam poeira.
A paisagem perdeu sua vertiginosa mobilidade

E todos os pontos
Observam imóveis seus devidos lugares
Nas coordenadas e abscissas.

E como nada mais era inventado
Nada se dava a ver
Aos olhos que buscavam o que é.

Ao se falar de uma cadeira
Eram encontrados os mesmos atributos
De um homem bom ou do melhor governo

Caiu sobre todas as coisas
O véu branco
Da semelhança absoluta.

Interrogada aquela pedra,
Não houve resposta
E ela sequer ficou no caminho.

(Pedro Raggio)

Qué es la vida? Un frenesí.
Qué es la vida? Una ilusión,
Una sombra, una ficción,
Y el mayor bien es pequeño;
Que toda la vida es sueño,
Y los sueños, sueños son.

(Calderón)

Procurarei, neste breve texto, identificar afinidades entre os Ensaios de Michel de Montaigne, as Ficções de Jorge Luis Borges e os Sermões do Padre Antônio Vieira, em vista de alguns elementos que compreendem a forma filosófica do ceticismo. Desde já, deixo claro que a busca por estas afinidades não se refere à tentativa de filiação destes três escritores à filosofia cética. Pretendo, antes, estabelecer pontos de contato que indiquem que estes autores compartilham alguns traços que fazem parte da forma filosófica. Não avento o deslocamento de Vieira e Borges de suas já sedimentadas incorporações, respectivamente, pelas letras seiscentistas e pela literatura fantástica do século XX, ainda que considere estas disposições artificiais. Continue Lendo

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A Jangada – Número 92 – 03/2013 – [23-25]

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Talvez jamais tenha sido tão apropriada a metáfora da jangada de pedra do Saramago a se despregar a partir dos Pirineus, rumando brutal na direção dos Açores. Lá se ia a península feita de embarcação. É improvável, entretanto, que a Europa mande suas betoneiras em fila para cimentar a jangada ao continente, como ocorreu no romance do escritor português. Pedro Orce, a essa altura já estaria a sentir o chão tremer. Há rumores de que no Chiado e no Castelo de São Jorge já é possível sentir trepidação similar. Mas desta vez nem Joana Carda riscou o chão, nem os cães de Cerbère ladraram, nem Joaquim Sassa atirou uma pedra pesadíssima ao mar. É de uma ilhota mediterrânea que vêm os indícios de que a jangada partirá. Continue Lendo

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Murê – Número 84 – 12/2012 – [322-323]

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Murê era uma corruptela de “Samurai” (“Samura”, “Murai”, “Murê”). Ele recebeu esse apelido quando levou um tombo e abriu o queixo. Depois de umas semanas com os fios pretos dos pontos que pareciam uma barbicha rala, nosso colega muído e de  olhos puxados havia sido alçado à condição de samurai da turma. Murê, no início, não gostou de ser chamado desse jeito, sobretudo, porque o apelido lembrava o dia do acidente, no qual ele abriu o berreiro e, como se já não bastasse o dolorido do tombo, ainda ficou com fama de chorão. Nosso samurai era um chorão! Abusado como dizem que todo nanico é, Murê tratava logo de desembainhar carradas de xingamentos a quem o chamasse de Samura, Murai, Murê. Continue Lendo

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Vinte Anos da Barbárie – Número 74 – 10/2012 – [259-262]

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O sentido de que os seres humanos são capazes de algum tipo de vida superior é parte dos fundamentos de nossa crença de que são objetos adequados de respeito, de que sua vida e integridade são sagradas ou gozam de imunidade e não devem ser atacadas.

(Charles Taylor, As fontes do self, p. 41)

No dia 02 de outubro de 2012 fez vinte anos que cento e onze detentos do presídio Carandiru foram assassinados por policiais. A ação policial decorreu da resposta do governo paulista a uma rebelião de presos. A história é conhecida, retratada em músicas (como em “Diário de um detento” do grupo Racionais MC’s) e pelo cinema. Até hoje não houve condenações pelas mortes ocorridas em Carandiru. Continue Lendo

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O Pequeno e o Grande na “Segunda Consideração Intempestiva” de Friedrich Nietzsche – Número 70 – 09/2012 – [220-228]

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Eu bem sabia que a nossa visão é um ato
poético do olhar.
Assim aquele dia eu vi a tarde desaberta
nas margens do rio.
Como um pássaro desaberto em cima de uma pedra
na beira do rio.
Depois eu quisera também que a minha palavra
fosse desaberta na margem do rio.
Eu queria mesmo que as minhas palavras
fizessem parte do chão como os lagartos
fazem.
Eu queria que minhas palavras de joelhos
no chão pudessem ouvir as origens da terra.

(Manoel de Barros, em “Menino do Mato”)

I

A epígrafe com que abro este ensaio estabelece o aspecto central da argumentação que pretendo desenvolver e que consiste em contrapor a uma voz que brada, que se funda em termos grandiloquentes, uma voz que fala baixo, que se dirige às coisas pequenas. No texto de Nietzsche a que este ensaio se dedica a palavra “intempestiva” não possui apenas o significado de “extemporânea”, ela conota também uma intensidade. O modo brusco pelo qual suas considerações se desenvolvem se opõe claramente ao racionalismo moderno, mas também se destina ao desprezo pelo medíocre e pelo pequeno. Ao estabelecer o contraste, invocando um texto cuja linguagem se aproxima da fala do homem comum, pretendo dar realce às passagens do texto de Nietzsche nas quais a fala grandiloquente expressa o desprezo pelo médio, pelo pequeno. Esse contraste possibilita que três questões sejam exploradas. Em primeiro lugar, não existe relação necessária entre o rompimento com o modo moderno (ou melhor, do século XIX) de lidar com a história e o discurso grandiloquente. Essa fala que despreza o pequeno e se dirige ao grandioso possui, em segundo lugar, consequências que, se no campo da estética são sedutoras, ou mesmo, legítimas, no que diz respeito à política são terríveis. Por último, a meta e o discurso grandioso resultam, em alguma medida, numa contradição em relação à crítica da modernidade por conter e ser movida por uma noção subjacente de progresso. Continue Lendo

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Compreensão e Polícia – Número 48 – 02/2012 – [10-14]

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Hannah Arendt, buscando ferramentas para pensar o totalitarismo, lança mão de uma operação filosófica que tem como corolário a própria preservação das condições de pensamento: a compreensão . De maneira distinta das questões de método, nas quais a adequação ao objeto é o tema fundamental, Arendt procura uma possibilidade de reflexão que resguarde o sujeito do pensamento e a própria atividade de pensar. Em outras palavras, ela está preocupada com o pensamento como atividade vital, dadas as práticas de aniquilação da vida com as quais se confronta. Continue Lendo

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A Chave dos Profetas – Número 45 – 12/2011 – [178-181]

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O padre Antônio Vieira é um dos principais pensadores (senão o maior deles) que escreveram em língua portuguesa. Suas obras possuem imensa fortuna crítica. A própria grandeza de seu trabalho, no entanto, talvez contribua para um certo desconhecimento de seus textos por parte do público leitor da “flor do Lácio”. Isso se deve, acredito eu, mais ao volume de sua obra (incontáveis sermões e infinitas cartas) do que à distância temporal que nos separa do jesuíta. Continue Lendo

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