Duas das principais cidades brasileiras – São Paulo e Rio de Janeiro – viram emergir no início do mês de junho passado mobilização crescente em torno do preço das passagens dos transportes públicos urbanos. A polícia de São Paulo, coerente com suas tradições corporativas, reprimiu brutalmente manifestações na capital paulista conduzidas pelo Movimento Passe Livre. Trata-se da polícia que abriga orgulhosamente as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar – a Rota -, uma das mais sombrias instituições do regime de 1964. A corporação conta, ainda, em seu currículo o massacre do Carandiru, além de inúmeros marcadores de violência contra a população pobre. A polícia carioca, sem qualquer dificuldade, mas sem a competência operacional de sua co-irmã, seguiu o exemplo de brutalidade, e dispensou bordoadas e jatos de gás aos “desordeiros”. Conduzidas por governos de cariz conservador, tais coporações, com imensa facilidade e júbilo, sempre que podem, passam ao ato e acabam por fazer o que fazem de melhor. Continue Lendo
As jornadas de junho e a hora da política – Número 103 – 06/2013 – [106-109]
Nos últimos 20 anos o bordão “é a economia, estúpido” foi repetido ad infinitum como explicação para as mais diversas formas de decisão e manifestação política. Afora o mau gosto da expressão que insulta o interlocutor, subjaz ao bordão a tese de que a racionalidade humana não faz outra coisa senão calcular as possibilidades de ganho econômico e aquisição material. Assim, se a economia vai bem, tudo vai bem, sociedade e sistema político inclusos. Quando vai mal, tudo vai mal. Muitos políticos, jornalistas e marqueteiros – para não falar dos próprios economistas – acreditaram piamente nesta tese. Em boa medida orientaram-se por ela, fazendo da gestão do crescimento econômico e das variáveis a ele atreladas – o PIB, o emprego, os juros, o câmbio – o objetivo supremo da atividade política. Mesmo a política social sofreu com a colonização das técnicas economicistas, que impuseram o predomínio de intervenções focalizadas sobre políticas universalistas e estruturantes. Continue Lendo
Os ‘achismos’ de Joaquim Barbosa, à luz da ciência política – Número 101 – 06/2013 – [86-92]
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, assumiu, há algum tempo, posição de destaque na vida política nacional. É um dos protagonistas do crescente processo de judicialização da política no país, que compreende, entre outros efeitos, a cada vez mais recorrente e generalizada intervenção do STF nos demais Poderes. Muito já se criticou sua superexposição midiática e também é alvo de queixas o modo desrespeitoso com que confronta seus colegas do Supremo. Trajado com a fantasia de paladino da moralidade e algoz de políticos governistas, tornou-se ídolo da grande imprensa e de boa parte da classe média e alta conservadora, sendo apontado, inclusive, como o seu presidenciável dos sonhos. Continue Lendo
A Jangada – Número 92 – 03/2013 – [23-25]
Talvez jamais tenha sido tão apropriada a metáfora da jangada de pedra do Saramago a se despregar a partir dos Pirineus, rumando brutal na direção dos Açores. Lá se ia a península feita de embarcação. É improvável, entretanto, que a Europa mande suas betoneiras em fila para cimentar a jangada ao continente, como ocorreu no romance do escritor português. Pedro Orce, a essa altura já estaria a sentir o chão tremer. Há rumores de que no Chiado e no Castelo de São Jorge já é possível sentir trepidação similar. Mas desta vez nem Joana Carda riscou o chão, nem os cães de Cerbère ladraram, nem Joaquim Sassa atirou uma pedra pesadíssima ao mar. É de uma ilhota mediterrânea que vêm os indícios de que a jangada partirá. Continue Lendo
Viveremos e Venceremos! Quando a razão populista visitou Caracas – Número 88 – 03/2013 – [08-18]
Quem nunca leu um livro e passou pela mágica experiência de reconhecer nele um espelho para o mundo ? O delicioso momento em que o universo irredutível, caótico e amorfo é amarrado por uma cadeia causal que o domestica e torna cristalino, simples e previsível. Que alívio sentimos nesse instante em que um conjunto infinito de significados e possibilidades se reduzem a uma explicação cabal. Infelizmente, ele dura pouco, sendo sucedido por um sentimento de torpor provocado pelo desabamento acachapante da realidade, que passa a parecer ainda mais insondável. Em seguida, voltamos a sentir, a princípio ainda com mais intensidade, a dor da ignorância, da incompreensão e da dúvida, que volta a dar o tom de nossas comezinhas reflexões. Continue Lendo
Isto não é uma análise do mensalão – Número 82 – 12/2012 – [312-319]
No momento em que toda sociedade brasileira acompanha ativamente o desenrolar dos acontecimentos políticos, fica evidente que não basta apenas estar com a leitura dos jornais em dia para entender o que está ocorrendo. No volume de informações que é veiculado todos os dias é necessário identificar os ingredientes.
Herbert de Souza
Prólogo
Alexis de Tocqueville gostava de comparar a política, em sua forma de apresentação pública, com o teatro. Mas não apenas isso. O teatro, para o escritor francês, é onde se revelará os princípios democráticos dos povos, o começo da democracia e a decadência da aristocracia. Os usos e costumes dos povos democráticos são mais afeitos às paixões dos espetáculos. No dizer de Tocqueville, o lugar onde a platéia é capaz de impor suas leis aos camarotes, porque “querem que falem deles mesmos” (2004, p. 94). Continue Lendo
Partidos: para quê? – Número 75 – 10/2012 – [263-273]
A política e o sistema representativo nem sempre se organizaram em termos partidários e a própria existência de partidos, inclusive, foi por muito tempo vista como perniciosa para a unidade nacional e para a busca do “bem comum” (Manin, 1997). Hoje, no entanto, apesar da aparente perda de credibilidade e fragilização dos partidos como instituições mediadoras (Dalton e Wattenberg, 2000), eles seguem como elementos centrais no jogo político. Strøm e Müller (1999) chegam a afirmar que os partidos políticos são as organizações mais importantes na política moderna, sendo poucos os Estados que os dispensam em seus sistemas políticos. O motivo para isso seria o fato de os partidos desempenharem funções que são valiosas para muitos atores políticos. Continue Lendo