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Tomar a potência, desinflar o poder – Número 8 – 05/2011 – [22-27]

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Começo a escrever na noite de sexta-feira anterior à Marcha da Liberdade marcada para a avenida Paulista, 28 de maio – dia que no futuro talvez seja nome de rua. Provavelmente só vou terminar de manhã, logo antes de partir para a referida marcha. Aliás, bem disse alguém por aí: não se deveria dizer “marcha”, mas alguma outra coisa, porque a liberdade não marcha, ela dança. (Voltaremos a isso.) Sábias palavras.

É bem sabido que a Marcha da Liberdade foi convocada em reação à violência policial com que os aparelhos de poder receberam a Marcha da Maconha, no mesmo lugar, na última semana. Não estive nessa marcha, primeiro porque estava trabalhando. Mas também porque, não sendo consumidor da erva, deixo a quem de direito fazer valer sua voz e fico de fora, apoiando a iniciativa pelo seu valor democrático. E digo valor democrático com toda a ênfase que seja necessária: faz parte do conceito de democracia que possa haver manifestações pela legalização de coisas ilegais. A democracia é o regime onde as coisas se fazem às claras. No meu modo de ver, e não estou tentando insinuar nenhum tipo de comparação com a maconha, isso vale até para o neonazismo (a não ser quando parte para a agressão) e outras coisas revoltantes: antes ver acontecendo à nossa frente, a tempo de reagir, do que ser surpreendido quando ele toma a sociedade como um todo de assalto. Continue Lendo

Resenha de ‘Subcultura e mudança’, de Candido Mendes – Número 5 – 05/2011 – [12-15]

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Em memorável texto, publicado nos idos da década de 1950, o filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto, exortou os que se dispusessem a interpretar o país de forma não usual a adotar do que designou como o “ponto de vista do infinito”. O texto em questão — Ideologia e Desenvolvimento Nacional, editado pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) em 1956 —, uma obra-prima de clarividência e estilo, criticava hábitos intelectuais fincados na estrita finitude das coisas. Tal circunscrição, marcada pela obsessão com o imediato, caracterizava, para ele, o ponto de vista do finito, presente na fragmentação da experiência e na adoção de protocolos mentais meramente descritivos e, por essa via, cativos daquilo que se está a observar. Continuar Lendo

A história de Gerhard Shnobble: Incidentais Egípcios – Número 2 – 04/2011 – [4-6]

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Não é preciso crer na revolução das essências para acreditar no revolucionário. Ainda me aproximo muito mais da revolução da imagem, do que das substâncias. Não me importo com o suposto organismo das sociedades, não me afeto pela descrição do reagente químico que faz das sociedades algo outro, melhor ou pior. Mas não é por hipocrisia. Mas por um sentido um pouco mais fino de ceticismo. Não preciso crer no invisível. Ou não preciso crer no que é menor do que um pigmento para ver a possibilidade de mudança. Afinal, não há razões para se tomar aquilo que não se vê como invisível, mas tão somente como aquilo que não se vê.

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O velho Galileu nos ensinou a revolução, e antes mesmo das grandes distinções tolas entre ciências do homem e ciências da natureza, e antes da sucessiva colonização das ciências do homem pelas ciências da natureza, fenômeno esse que nos dá a expectativa de ver explosões de transformação nas sociedades, pela palavra quis dizer que podemos imaginar alguma coisa com movimento e ter movimento nessa imagem. O destino da imaginação de Galileu era bastante pretensioso, e ele sabia que ver não é apenas ver, mas que ver é uma expectativa de movimento; a imagem do sol imóvel contraposto a translação dos planetas, por ser uma boa imagem, por si move. A percepção de que uma imagem que se move é uma grande coisa, é efetivamente uma grande coisa, mas melhor ainda é chamá-la, enquanto fenômeno, de revolução. Continue Lendo

(Volume 7) Pensamento Soberano, Abismo do Fundamento e Formas da Irresolução, por Renato Lessa

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A obra de Fernando Gil, para além de sua originalidade ímpar – e vale, aqui, a deriva pleonástica – possui a marca da atenção a diversas ordens de problemas e questões. Desde La Logique du Nom, de 1972, na qual se impõe um tema que estará presente por toda a obra ulterior – o da “pressuposição da referência” – e das próprias Aproximações Antropológicas (1961), aos últimos textos publicados – o pungente e belo ensaio O Hospital e a Lei Moral e o notável texto Exemplos Musicais (ambos em 2005), há uma miríade de temas que poderiam ser reunidos em uma configuração maior, a de estabelecer uma forma própria de exercício de uma filosofia do conhecimento3. Um exercício que, embora atento ao caracter necessariamente individual da evidência, jamais descurou da consideração do que vai pelo mundo da vida.

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(Volume 6) Da interpretação à ciência: por uma história filosófica do conhecimento político no Brasil, por Renato Lessa

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A partir da década de 1970, o Brasil, do ponto de vista dos que produzem, aprendem ou, simplesmente, consomem conhecimento político sistemático, deixou de ser interpretado e passou a ser explicado por enunciados com pretensão à demonstração. Entre a interpretação e a explicação, o passo pretendido é gigantesco. Por certo, a legião de autores que, desde a implantação do Estado Nacional brasileiro, nos idos de 1822, buscou interpretar o que se passava no país possuía pretensões à explicação, posto que não constituída por nefelibatas puros. Da mesma forma, poderá ser dito que qualquer pretensão explicativa, por mais ingênua que possa ser a candura de sua auto-apreciação, jamais fugirá dos limites e das possibilidades estabelecidos por modalidades de interpretação. A distinção, pois, entre interpretação e explicação é, no limite, insustentável em termos conceituais. Se assim o é para o plano das definições categoriais, o mesmo não se dá no plano da afirmação de campos cognitivos.

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(Volume 5) Uma História da Dúvida, por Renato Lessa

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Em 1634, na cidade de Loudun, na França, o padre Grandier foi acusado de infestar um convento e suas pobres freiras com legiões de demônios. O processo ao qual foi submetido foi genialmente descrito por Aldous Huxley em The Devils of Loudun, em uma história que mesclava demonologia, fideísmo e devoção religiosa. O episódio, além de revelar a presença de um enorme interesse popular e erudito a sobre o tema da possessão demoníaca, em um século no qual muitos supõem ser marcado pela força do esprit laïque, suscitou um instigante problema de ordem cognitiva. Com base em que critérios, questões dessa natureza – possessões demoníacas – poderiam ser julgadas?

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(Volume 4) A quoi sert la répresentation? ou les formes de la distinction, por Renato Lessa

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Une voix courante entre les politologues d’orientation institutionnaliste assure la santé et, pourquoi ne pas le dire, la vertu des mécanismes institutionnels qui configurent la démocratie au Brésil. La régularité électorale, la consolidation d’un système pluriel de partis politiques, fragmentaire mais fonctionnel, une logique législatif possédant de la rationalité en dépit de sa phénoménologie parfois bizarre et douteuse, et une corrélation puissante entre la compétitivité politique-électorale et l’acceptation universelle des règles du jeu, toutes ces dimensions, dans un mot, définiraient un ensemble d’évidences à propos de la consolidation, de la normalité et du plein fonctionnement des institutions politiques du pays.

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Cesar Kiraly

Professor de Estética e Teoria Política no Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense.