Papéis Avulsos

(Volume 10) O suicídio como forma de ação política e social no ceticismo de Montaigne e Hume

Neste artigo, abordamos o tema da morte explorando as dimensões política e social do suicídio nas filosofias céticas de Michel de Montaigne e David Hume. Não pretendemos identificar os condicionantes naturais, sociais e psicológicos do suicídio, mas investigar a centralidade da morte na definição dos limites da soberania, bem como examinar o sentido cético do suicídio como ato de resistência política.

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(Volume 9) A Imagem e a Cor no Tratado de Hume: elementos de ontologia política

Existe um conflito entre as filosofias políticas. Isso, para dizer pouco. Posicionemos, pois, as pedras no tabuleiro. Há filosofias políticas da norma e filosofias da regra. As filosofias da norma contam com filosofia da história, na qual se encontram resolvidas, ou dissolvidas, as inexorabilidades das realizações no tempo. As filosofias da regra contam com a ideia de responsabilidade e concepções não finalistas, mas deterministas, de natureza humana. No vocabulário da regra temos a instituição como seu correlato no tempo, sob mediação da crença. No vocabulário da norma temos a constituição que enforma a finalidade temporal da autarkeia. Acredito ter delimitado bem as peças brancas  e as pedras pretas. Agora, precisaremos de alguns nomes-próprios para as oposições.

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(Volume 8) Metafísicas do Olho: Variações I

Neste artigo procederemos a três movimentos, de algo que pode ser literariamente descrito como Variações: (1) narrativa sobre a arqueologia na obra de Michel Foucault. Porque aquilo que desejamos dizer adiante demanda certa ambientação que apenas uma forte filosofia dos discursos, dos arquivos e dos fragmentos é capaz de produzir, (2) corporificação do discurso com a metáfora do olho (a possível opacidade de um olho sem fundo, ou sem intimidade) e (3) a estruturação da idéia de opacidade da dor do outro. Desejamos mostrar que existe uma explícita complementaridade entre a identificação da fragmentação dos discursos, a identificação do esvaziamento dos olhos e a identificação da opacidade diante da dor do outro. Aproximaremos essas três identificações filosóficas com um imperativo moral cético: é na identificação da fragmentação dos discursos que percebemos e nos desviamos da opacidade do fundo do olho e opacidade da dor do outro. Porque se a opacidade da dor do outro é algo que se impõe pela necessidade, ela bem se diferencia da prática ativa de tornar a dor do outro uma dor opaca. Pela identificação da fragmentação dos discursos não só reconhecemos a opacidade, como instauramos, outrossim, outros regimes nos quais a opacidade possa se tornar sinônimo de intimidade expressiva, e não de abandono moral. No segundo movimento apresentaremos variações sobre um conto de Hoffmann e no terceiro movimento: variações sobre Regarding the Pain of Others de Susan Sontag. Um dos primeiros ensaios sistemáticos sobre uma teoria social da imagem fotográfica. Os fortes vínculos entre a arqueologia filosófica de Foucault e nosso interesse neste conto fantástico de Hoffman e nas análises de Sontag sobre a fotografia aparecerão na narrativa, e decorrem da estrutura das Variações.

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(Volume 7) Pensamento Soberano, Abismo do Fundamento e Formas da Irresolução, por Renato Lessa

A obra de Fernando Gil, para além de sua originalidade ímpar – e vale, aqui, a deriva pleonástica – possui a marca da atenção a diversas ordens de problemas e questões. Desde La Logique du Nom, de 1972, na qual se impõe um tema que estará presente por toda a obra ulterior – o da “pressuposição da referência” – e das próprias Aproximações Antropológicas (1961), aos últimos textos publicados – o pungente e belo ensaio O Hospital e a Lei Moral e o notável texto Exemplos Musicais (ambos em 2005), há uma miríade de temas que poderiam ser reunidos em uma configuração maior, a de estabelecer uma forma própria de exercício de uma filosofia do conhecimento3. Um exercício que, embora atento ao caracter necessariamente individual da evidência, jamais descurou da consideração do que vai pelo mundo da vida.

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(Volume 6) Da interpretação à ciência: por uma história filosófica do conhecimento político no Brasil, por Renato Lessa

A partir da década de 1970, o Brasil, do ponto de vista dos que produzem, aprendem ou, simplesmente, consomem conhecimento político sistemático, deixou de ser interpretado e passou a ser explicado por enunciados com pretensão à demonstração. Entre a interpretação e a explicação, o passo pretendido é gigantesco. Por certo, a legião de autores que, desde a implantação do Estado Nacional brasileiro, nos idos de 1822, buscou interpretar o que se passava no país possuía pretensões à explicação, posto que não constituída por nefelibatas puros. Da mesma forma, poderá ser dito que qualquer pretensão explicativa, por mais ingênua que possa ser a candura de sua auto-apreciação, jamais fugirá dos limites e das possibilidades estabelecidos por modalidades de interpretação. A distinção, pois, entre interpretação e explicação é, no limite, insustentável em termos conceituais. Se assim o é para o plano das definições categoriais, o mesmo não se dá no plano da afirmação de campos cognitivos.

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(Volume 5) Uma História da Dúvida, por Renato Lessa

Em 1634, na cidade de Loudun, na França, o padre Grandier foi acusado de infestar um convento e suas pobres freiras com legiões de demônios. O processo ao qual foi submetido foi genialmente descrito por Aldous Huxley em The Devils of Loudun, em uma história que mesclava demonologia, fideísmo e devoção religiosa. O episódio, além de revelar a presença de um enorme interesse popular e erudito a sobre o tema da possessão demoníaca, em um século no qual muitos supõem ser marcado pela força do esprit laïque, suscitou um instigante problema de ordem cognitiva. Com base em que critérios, questões dessa natureza – possessões demoníacas – poderiam ser julgadas?

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(Volume 4) A quoi sert la répresentation? ou les formes de la distinction, por Renato Lessa

Une voix courante entre les politologues d’orientation institutionnaliste assure la santé et, pourquoi ne pas le dire, la vertu des mécanismes institutionnels qui configurent la démocratie au Brésil. La régularité électorale, la consolidation d’un système pluriel de partis politiques, fragmentaire mais fonctionnel, une logique législatif possédant de la rationalité en dépit de sa phénoménologie parfois bizarre et douteuse, et une corrélation puissante entre la compétitivité politique-électorale et l’acceptation universelle des règles du jeu, toutes ces dimensions, dans un mot, définiraient un ensemble d’évidences à propos de la consolidation, de la normalité et du plein fonctionnement des institutions politiques du pays.

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(Volume 3) O Silêncio e sua Representação, por Renato Lessa

Auschwitz, em sua máxima expressão – a do aniquilamento completo de suas vítimas -, pode ser imaginado como um experimento de vitória total do silêncio e como supressão definitiva das vozes humanas. O silêncio impõe-se, ao fim de tudo, em sua máxima compactação, precedido tão-somente da inutilidade e finitude dos sons humanos. Tal como um coro em desespero, as derradeiras vozes terminam por condensar-se no definitivo operador do silêncio – a morte – e nele se dissolvem.

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(Volume 2) Montaigne’s and Bayle’s Variations: The Philosophical Form of Scepticism in Politics, por Renato Lessa

It is impossible to exaggerate the importance of Richard Popkin in any reassessment of the role of scepticism in the configuration of modern philosophy. The fecundity of Popkin’s enterprise may be detected in the vast proliferation of questions that he has prompted. In fact, when re-established as a major philosophy, queries about scepticism may arise that are conventionally applied to philosophical traditions whose relevance has always been acknowledged as undisputed. A far from exhaustive listing might well include queries about the morality of scepticism, its anthropology, its attitude towards science, the possibilities of a sceptical aesthetics and, for the purposes of these reflections, its modes of perceiving politics and social life.

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