Teoria Política

O Universo Onírico de Buñuel, o Descompasso entre Palavra e Mundo – Número 173 – 02/2021 – [10 – 16]

Yasmim Salles

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Resumo
É mais que necessário a consciência que a arte surrealista não pode ser reduzida a fórmulas explicativas semelhantes às equações matemáticas, pois a linguagem do inconsciente é complexa ao ponto de não ser possível resumi-la a ordem sistemática de uma lógica racional. Assim sendo, partiremos do princípio lacaniano de que apesar da arte produzir somente signos e significantes, o artista consegue expressar o inconsciente na obra sem deixar de jogar com as possibilidades dos sentidos. Tomaremos aqui os modos retratistas do surrealismo apresentado no filme Un Chien Andalou, especificamente, o seu conteúdo onírico e vanguarda como um ato político. Aqui, defenderemos uma interpretação interdisciplinar entre psicanálise, o saber antropológico e as representações metafóricas do inconsciente confrontando a censura em universo que não se deixa etiquetar pela palavra e a naturalização dos sentidos estéticos.

Palavras-chave:
Surrealismo, vanguarda, política, signos e arte.

Introdução
O movimento surrealista, através das suas expressões oníricas, está comprometido a nos mostrar singularidades próprias do sujeito. É claro que a arte de um modo geral trata-se de composições que ultrapassam as fronteiras da razão e é impossível separa-la de seu criador, digo, enquanto processo de criação. A criatividade burla a censura, podemos descreve-la suscintamente como algo que atravessa, algo que emerge e que consegue encontrar “furos” na barreira da consciência1 (na vigília). A partir daí, podemos afirmar que princípio da livre-expressão dado, em especial neste movimento artístico, pode ser compreendido como uma subversão do sujeito. Consideramos aqui o surrealismo e seu estímulo ao desprendimento das convenções e oposição à vigília como um ato que além de vanguardista é político.

Através da repressão os sonhos se mostram criptografados. Freud encontrou nos sonhos uma via condutora para aquilo que não temos direto acesso. Como disse Freud (1900/2006), sonhos são um período mais ameno de continuação do estado de vigília, que após o despertar é submetido a uma deformação com intuito de recalcar o desejo. A racionalidade censura questões do inconsciente, impede o sujeito de conhecer aquilo que contravém sua moral. Dito mais claramente, as relações entre o surrealismo e os sonhos são particularmente íntimas.

Un chien andalou foi um filme duplamente revolucionário: revolucionário porque introduziu pela primeira vez na história do cinema fragmentos oníricos (fragmentos do próprio Buñuel e do pintor Salvador Dalí, sendo a famosa e angustiante cena do olho cortado pela lamina proveniente de um sonho de Buñuel e a cena das formigas de um sonho de Salvador Dalí), ambas cenas absurdamente desprendidas dos valores estéticos tradicionais. É mais que necessário destacar que o filme não pode ser resumido em meras retratações oníricas, mas sim devemos pensa-lo como um manifesto original de um material trabalhado pelo inconsciente, que apesar de ter seu conteúdo deturpado, consegue expor sem o decoro estético as singularidades do sujeito.

Os surrealistas estavam interessados nos sonhos como significantes sem a preocupação em adquirir uma leitura interpretativa. O Manifesto Surrealista de Breton (1924) descreveu o surrealismo como uma “manifestação pura e real do pensamento” sem o controle da razão repressiva, sem a necessidade cumprir expectativas morais e ordinárias. Assim, o manifesto político de Buñuel está, para fins de imitar as articulações da lógica onírica, em libertar o sujeito das amarras da lógica tradicional repressora.

É fundamental destacar que uma obra não pode representar o artista que a compõe. Segundo o próprio Lacan (1998), ainda que a arte possua elementos do inconsciente de seu criador, quando um artista termina sua obra, a arte deixa de pertencê-lo e passa a ser do mundo. A psicanálise assume que, além de também ser um desbravador das questões da análise, podemos descrever o artista como uma espécie de “pescador” da realidade, aquele que através das obras captura profundezas do inconsciente. O filme Um Cão Andaluz (1928) foi e continua sendo revolucionário por romper com as expectativas dos padrões do sentido. Nele, a preocupação de Buñuel é em ser expressivo sem a necessidade de ser coerente, assim como os sonhos de fato são.

Por sua essência onírica a obra afronta a lógica tradicional, expõe através dos insights elementos caóticos típicos do psiquismo. As obras surrealistas são até hoje  acusadas de serem manifestações artísticas sem valor pelas cenas absurdas e confusas, tal qualificação assume uma perspectiva reacionária e empobrecida do que foi o movimento. O propósito da arte surreal é libertar o sujeito dos padrões, o que prontamente nos faz logo perceber a relação desta com o saber psicanalítico.


Os artistas ligados a esse movimento rejeitavam os valores e os padrões impostos pela sociedade burguesa, seguindo a exploração dadaísta de tudo o que fosse subversivo na arte. Fortemente influenciados pelas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud, os surrealistas seguiram alguns métodos para impedir o controle do consciente na ação artística, desprendendo o inconsciente (OLEQUES, 2012).

O movimento surreal é um movimento contracorrente dos paradigmas normativos. A psicanálise dialoga eloquentemente com o surrealismo, pois se revela em comunhão com o caráter revolucionário da psicanálise de ter concedido espaço de fala ao sujeito.

Segundo Freud (1908/1996), a sensibilidade artística permite a manifestação do inconsciente a partir da edificação linguística dos devaneios do artista. A arte antecede a psicanálise justamente pelo fato do inconsciente está atrelado à criação e respectivamente ao fazer artístico. Freud, sabendo que a racionalidade impede o contato com as profundezas da psiqué, defendia que a arte tinha que ser irracional, defendia a liberdade criativa. Apesar de tudo, é preciso destacar que a arte e a psicanálise são campos independentes um do outro, a esfera artística não dependente da psicanalítica, nem a psicanálise da arte. Ambos campos são independentes, mas se atravessam.

Assim como a arte, a psicanálise também possui sua autonomia, porém ambas se entrelaçam ao ponto de tornarem-se enredadas pelas expressões da linguagem. Arte é a materialização do processo criativo do artista, onde nela o inconsciente paralelamente se faz presente, dois campos distintos que dialogam um com o outro, duas esferas que se organizam independentemente, mas que em um ponto se imbricam. Tanto a arte surreal quanto a psicanálise expõem algo se encontra no plano do insuportável para o Ego. O Ego é o responsável pelas distorções para evitar conflito com o Id, entretanto mesmo depois de reprimido o desejo ainda está lá, se faz presente e sempre escapa de algum modo.

O cinema produz um sentido. Numa leitura de cunho freudiana há uma relação bastante íntima com o inconsciente e obra, relação que se mostra ainda mais forte no caso da arte surreal. Quando tratamos das produções surrealistas, é perfeitamente possível estampar questões tão profundas ao ponto de serem capazes de até de causar estranhamento a quem às produziu. O surreal é uma linguagem multifacetada e absurda que utiliza a subversão do sujeito como meio.

Podemos definir linguagem como aquilo que é adquirido e perverte a natureza da pulsão. A linguagem toma por completo o sujeito uma vez que nosso inconsciente é estruturado como linguagem. É meio a linguagem que expressamos nossas angústias, desejos e sexualidade sendo através dela que o inconsciente se expressa, embora faça manifestações de maneira simbólica é através dela que o inconsciente se expressa. Lacan nos ensina que o ser humano, por não possuir instinto, é excepcionalmente diferente dos outros animais. O que na verdade possuímos é uma força multifacetada que exige satisfação e que revela várias maneiras de “deixar sua marca” no mundo pela linguagem. O homem encontra-se entre a pulsão e a linguagem, sendo a educação promotora do afastamento entre o sujeito e sua força pulsional primitiva.

Breton (1924) desenvolveu manuscritos sobre como o surrealismo um manifesto de liberdade do inconsciente. O espírito surrealista é iconoclasta. Logo no início do manifesto de 1924 encontramos no seu discurso a negação da lógica, valores burgueses, morais, estéticos, religiosos e qualquer outro plano que se encaixe arquétipo decoroso. Trata-se de capturar elementos imagéticos da inconsciência e sem muito requinte introduzi-los ao plano material. Segue abaixo um fragmento importante  sobre a dinâmica surrealista:


Ainda vivemos sob o império da lógica, eis aí, bem entendido, onde eu queria chegar. Mas os procedimentos lógicos, em nossos dias, só se aplicam à resolução de problemas secundários. O racionalismo absoluto que continua em moda não permite considerar senão fatos dependendo estreitamente de nossa experiência. Os fins lógicos, ao contrário, nos escapam.
Inútil acrescentar que à própria experiência foram impostos limites. Ela circula num gradeado de onde é cada vez mais difícil faze-la sair. Ela se apoia, também ela, na utilidade imediata, e é guardada pelo bom senso. A pretexto de civilização e de progresso conseguiu se banir do espírito tudo que se pode tachar, com ou sem razão, de superstição, de quimera; a proscrever todo modo de busca da verdade, não conforme ao uso comum. Ao que parece, foi um puro acaso que recentemente trouxe à luz uma parte do mundo intelectual, a meu ver, a mais importante, e da qual se afetava não querer saber. Agradeça-se a isso às descobertas de Freud. Com a fé nestas descobertas desenha-se afinal uma corrente de opinião, graças à qual o explorador humano poderá levar mais longe suas investigações, pois que autorizado a não ter só em conta as realidades sumárias. Talvez esteja a imaginação a ponto de retomar seus direitos. Se as profundezas de nosso espírito escondem estranhas forças capazes de aumentar as da superfície, ou contra elas lutar vitoriosamente, há todo interesse em captá-las, capta-las primeiro, para submete-las depois, se for o caso, ao controle de nossa razão (BRETON, 1924; p.4).

Com o objetivo de burlar o “império da lógica”, técnicas de automatismo tornaram-se um artifício para libertação do artista das exigências da vigília de modo que permita o maior grau possível de espontaneidade e superação ao controle racional. Em síntese, podemos deduzir que o conteúdo político no onirismo surreal, em especial na cinematografia, está em seu entrelaçamento com a subjetividade, enfrentando ao poder normativo das instituições e tradições como um ato de ruptura e de protesto.

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Yasmim Salles

Referências

BRETON, André. Manifesto do Surrealismo. Ano: 1924; No.1. Online em <http://www.culturabrasil.org/zip/bretonpdf>. Acesso em 03 de abril de 2019. FREUD, Sigmund, “A interpretação dos sonhos”, Obras Completas, Standart Edition Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Imago, v. IV, p. 106.            . Escritores criativos e devaneio. Coleção Obras Completas de Freud, 1996; Edição standard brasileira. Volume 9. P. 133-43. Ano de publicação original: 1908.
    . Pulsões e seus destinos. Col. Obras Incompletas de Sigmund Freud. Ed. Autêntica, 2013; Trad. Pedro Heliodoro.
    . O Estranho. História de uma neurose infantil. Ano: 1919. Vol. XVII, RJ. Editora: Imago, 1969.
     . O Estranho Vol. XVII, 1919; Editora: Imago. RJ, 1977.
     . O inconsciente. Ano publicação original: 1915. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 1996. Rio de Janeiro; Editora: Imago.
     . A Interpretação dos sonhos. Ano de origem: 1990. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 1996. Rio de Janeiro; Editorial: Imago.
INSIGHT.PSICANÁLISE. Cinema e psicanálise. Associação Brasileira de Psicanálise e Insight. 2018; Online disponível em: http://insight.org.br/3101-2/ > Acesso em 27 de março de 2019.
LACAN, J. Escritos. Editora: Jorge Zahar; RJ, 1998.
     . O seminário. Livro XI: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise; RJ, Editora: Zahar.
MENDONÇA, F.       O Sonho surrealista no cinema. Recordando a parceria entre Dalí e Hitchcock.Perspectivas,2012.
PONGE, Erika. Breton e os primórdios do surrealismo. Revista contingencia, Vol.3;No2.2008.
SANTOS, Lúcia. A experiência surrealista da linguagem: Breton e a psicanálise. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica; vol.5, no.2; Rio de Janeiro Dez. 2002.
WERNER, Vitor. Associação Livre. Blog Expressões Psicanalíticas, 2013; Online em:< https://expressoespsicanaliticas.wordpress.com/ >. Acesso em 03 abril de 2019.


[1]Freud (1908/1996) descreveu a censura como uma instancia de vigília do psiquismo.

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O Pensamento Pluralista de Montaigne e a Perspectiva de Educação Escolar de Moreira e Candau – Número 172 – 01/2021 – [2 – 9]

Taísa Bezerra

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“ Cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua  terra”.
— Montaigne

” O anormal […] é no fundo um monstro cotidiano, um monstro banalizado. O anormal vai continuar sendo, por muito tempo ainda, algo como um monstro pálido”.
— (Foucault, 2001, p.71)

Resumo
Este artigo desenvolve o seu argumento em torno da seguinte questão: Em que sentido se podem identificar compatibilidades de ideias entre o pensamento pluralista de Michel de Montaigne e a análise de Antônio Flávio Moreira e Vera Candau sobre a educação escolar e as suas culturas de referência? O que movimenta essa investigação parte da produção de um trabalho para a disciplina de Prática e pesquisa em ensino, onde foram realizados laboratórios ao longo de um semestre. O fenômeno aqui é discutido a partir da perspectiva teórica e análises bibliográficas que apontam possíveis compatibilidades de ideias entre o ensaio “Dos Canibais”, de Montaigne e o artigo “Educação escolar e cultura/s: construindo caminhos”, de Antônio Flávio Moreira e Vera Candau.  Em linhas gerais, a discussão aponta que é preciso desenvolver uma educação escolar que realize, como Montaigne propõe na citada obra, uma relativização do “outro”, de sua cultura, visão de mundo e práticas. Culturas são plurais e irredutíveis a comparações valorativas. Será um grande passo rumo à construção de uma educação democrática se a escola básica admitir, efetivamente, esta proposta em seu cotidiano pedagógico.

Palavras-chave: Montaigne, pluralismo, educação escolar, cultura.

Introdução
A Sociologia escolar muito tem nos ajudado a pensar como trabalhar a cultura como eixo central curricular. Entendemos aqui a sala de aula como espaço de lutas, disputas e conflitos e por isso, compreendemos todas as tensões e barreiras que se vivencia na mesma.  Tendo essa perspectiva, como entender as diferentes referências socioculturais que habitam uma sala de aula? Frente à questão, penso que visão pluralista de Montaigne em Dos Canibais poderia nos ajudar a refletir sobre a educação escolar nos tempos contemporâneos.

Montaigne ilustra bem a associação entre um subjetivismo e a abertura para o outro, o diferente. Tanto que, no período colonial europeu, Montaigne pode em vários endereços de seus Ensaios e antes mesmo da criação do termo “etnocentrismo”, fazer críticas agudas aos seus contemporâneos (Birchal, 2012). Entendemos Montaigne como pluralista tendo em vista que o mesmo nos mostra a diversidade de costumes e de experiências humanas em seus diferentes contextos. A oposição com o Outro cria uma identidade por oposição, homogeneizando esse “outro” e apagando as diferenças. Montaigne, ao contrário, mostra as variações nos costumes e suas diferentes possibilidades de forma que, na consideração das culturas, não se trata de estabelecer uma alteridade, o que seria meramente dicotômico, mas uma pluralidade de culturas (Marcondes, 2012).

Nesse sentido, analisaremos o ensaio “Dos canibais”, onde podemos encontrar um pensador crítico que caminha com o leitor diante a descoberta do “novo mundo”. Com a descoberta do novo mundo, o pensamento europeu sofre um impacto ao dissolver sua ideia de unidade humana. Nossa proposta aqui consiste em analisarmos como o pensamento trabalhado por Montaigne pode nos ajudar a identificarmos a possibilidade da descoberta do “novo mundo” também na sala de aula. Como nós profissionais da educação atuamos e o que temos trabalhado sobre essas perspectivas das diferenças e das produções multiculturais?

Moreira e Candau, para além de receitas de bolo, nos ajudam como profissionais a entendermos o espaço que vivemos como atuamos e como refletimos sobre esses mundos. Fazendo leituras do cotidiano, podemos construir e transformar diversas realidades. Nosso objetivo se concentra em entendermos como que o ensaio “Dos Canibais” nos ajuda em seus elementos a entendermos o espaço escolar que vivemos e como Moreira e Candau nos ajudam a produzirmos ferramentas para construirmos espaços onde as desigualdades, a violência e o ódio não possuam mais vez.

Para isso, dividiremos o artigo em três partes. A primeira apresentará a visão pluralista de Montaigne em todas as suas formas. Em um segundo momento iremos falar sobre as relações entre escola e cultura em uma perspectiva histórica para finalmente conversamos com Moreira e Candau sobre contextos e estratégias contemporâneas dessas questões e então trabalharmos nas considerações finais “O novo mundo”, por Montaigne, e o novo mundo da sala de aula.

“Dos canibais”: a escrita de mundos plurais
Compreendemos aqui que a visão pluralista de Montaigne decorre muito da forma de sua escrita. Montaigne se notabiliza como o precursor do ensaio como gênero literário no Ocidente: uma espécie de relato argumentativo de si e do cotidiano de caráter pouco sistemático. A linguagem ensaística se apresenta como uma colcha de retalhos tecida à semelhança de uma grande encenação, na qual o palco é a vida comum. Tal linguagem se choca com os rigores de uma Filosofia ainda significativamente norteada pela visão aristotélica. No campo filosófico, o ensaísta se encontra, assim, como um “estrangeiro”, externo às barreiras do que está posto. Desta maneira, o ensaísta tem relativa liberdade para “falar a língua do outro”, ao trabalhar a escrita de si, produzindo assim imagens, cores e intensidades plurais.

O pensamento pluralista de Montaigne tem um de seus importantes pilares na chamada “literatura das navegações” (Marcondes, 2012): as produções acerca dos eventos históricos da descoberta do novo mundo. Dos Canibais desenha uma importante, e talvez até seminal no espaço ocidental, análise da diversidade cultural em sentido relativista. Iremos a partir daqui, retomar a importância desse ensaio e suas características, para entendermos como há uma orientação pluralista em seus escritos, que se baseia no reconhecimento da diferença, do direito à mesma e da necessidade de reconhecimento da pluralidade dos mundos culturais.

Em seu ensaio “Apologia de Raymond Sebond (Ensaios, II, 12) Montaigne promove em sua escrita uma aproximação as ideias do ceticismo antigo, Pirrônico. Ceticismo esse que através da suspensão dos juízos, faz a crítica ao estatuto da razão e das crenças. Nesse ensaio conseguimos enxergar uma crítica direta diante ao mundo vivido e diante das vias de argumentação pelas quais os dogmáticos interpelam os céticos. Desse modo, Montaigne absorve as categorias dessa filosofia pelo que ela representa como uma opção ética.  Abre a possibilidade para que os sujeitos não se adequem a submissões arbitrárias.  Para que [B] mantenham sua liberdade e considerem as coisas sem comprometimento e sujeição (504/206).

É importante esclarecermos aqui o porquê dessas definições. Não defendemos aqui que Montaigne passa do ceticismo ao relativismo como um movimento filosófico. Montaigne em todos os ensaios é cético ao seu modo. Concordamos que seu ceticismo é compatível com um subjetivismo. O sujeito como instância de julgamento. (Birchal, 2007).  Em um Relativismo total, teríamos uma aceitação dos costumes, do que já está posto. Montaigne por sua vez pratica o recuo, constata a diversidade e a falta de fundamentos para o pensamento tido como único. Por isso, destacamos seu caráter pluralista ao invés de relativista, pois o autor por sua vez possui critérios que não admitem justificação para todos os costumes.

Sendo assim conceito da pluralidade dos mundos para Montaigne parte de sua constante crítica diante as limitações da razão humana, o que caminha para as aproximações de seus escritos com a tradição do ceticismo filosófico apresentada. Ou seja, se o projeto de conhecimento das coisas em si mesmas é falho, devemos assim aceitar a pluralidade das mesmas.  Dito isso, numa primeira aproximação ao texto Dos canibais, no qual nos propomos a analisar, o que nos salta os olhos é o processo de conhecimento “do outro” onde a partir de suas observações, Montaigne concebe novas concepções de mundo. Dois deles iremos trabalhar melhor: o conceito de “bárbaro” e de “selvagem”. (…) Acho que não há nessa nação nada de bárbaro ou de selvagem, pelo que me contaram, a não ser que cada um chama de barbárie o que não é praticado em sua terra (…)” (Montaigne, 2002, p. 205).

Em Dos Canibais, Montaigne nos mostra uma visão objetiva daqueles povos. A questão bastante levantada por interpretes, parte do princípio se o próprio pensador conseguiria enxergar o outro em sua originalidade e diferença, sem preconceitos de sua situação.  (Birchal, 2007). Acompanhando o movimento do ensaio, descobrimos que o que Montaigne desconstrói a “barbárie” e a “civilização” afirmada pelos europeus. Trata-se então muito mais da quebra diante ao que se pensa saber sobre “barbárie” e “selvageria” e o que se é passado sobre “o civilizado”. Cultura é algo relativo e não temos como pensá-la em termos hierárquicos.Eles são selvagens assim como chamamos de selvagens os frutos que a natureza por si mesma e por sua marcha habitual produziu (Montaigne, 2002)”.

Aqui, Montaigne relata que os ditos selvagens, estariam mais perto da esfera da natureza, o que retira do adjetivo o seu teor pejorativo como era analisado. O mesmo faz com o termo “bárbaro”. “(…) Portanto, esses povos parecem bárbaros por terem recebido bem pouca preparação de espírito”. Novamente, Montaigne parte para a aproximação dos hábitos desse povo para/com a dinâmica da natureza, como compreensão de seus costumes e ritos. Não há critério nenhum na natureza humana que autorize a tratar os nativos americanos como “bárbaros” e os europeus como “civilizados”, nem o contrário. Ou seja, não há como hierarquizar os povos de acordo com as suas visões de mundo e práticas. 

Podemos analisar no ensaio também a perspectiva que Montaigne constrói diante a relação entre prática social/cultura. No caso do ensaio que estamos trabalhando as práticas sociais e as culturas caminham conjuntamente como categorias essenciais para a compreensão da organização daquelas sociedades. Ou seja, para entendermos o que se foi produzido diante as sociedades antigas e modernas, se faz necessário entendermos as práticas sociais de cada grupo, e a formação de suas identidades a partir das experiências, modos de agir pensar e sentir.  Aqui, a atitude do autor vai além da “tolerância”, não se trata de tolerar o que se é tido como intolerável e sim reconhecer os costumes dos indígenas como crenças comuns e legítimas daquela sociedade e impassíveis de serem postas lado a lado com os costumes europeus num juízo de valor.

Como característica da escrita ensaística de Montaigne, Dos Canibais não afirma certezas indiscutíveis, mas deixa caminhos entreabertos. Ainda assim, fica claro no texto que os nativos americanos possuem seus próprios ritos, crenças e formas de agir e não há como julgá-las como “bárbaras” nem como “civilizadas”. Esta proposição não é pouco impactante no pensamento social. Séculos antes de Lévi-Strauss, Montaigne, mesmo que de modo assistemático, lança as primeiras bases do relativismo cultural, que caracterizaria a disciplina de Antropologia no século XX e seria influente no imaginário social nas últimas décadas.

Pensando em nossas realidades escolares, como podemos transpor a ideia pluralista de Montaigne para o ambiente da sala de aula? Se tomarmos como perspectiva do que Candau e Moreira chamam como a “centralidade da cultura”, podemos observar como a cultura tem emergido como um eixo importante de análise e atuação na esfera escolar. É nesse sentido que discutiremos possíveis articulações entre as ideias de Montaigne sobre a pluralidade cultural e algumas das proposições de Moreira e Candau acerca da educação escolar.

O espaço escolar e as culturas: perspectivas plurais
Nosso ponto de vista é que o pensamento de Montaigne tem eco em parte nos estudos culturais em educação desenvolvidos atualmente. Embora o autor francês tenda a não ser lembrado pelos pesquisadores contemporâneos, há algo das suas ideias que tem chegado ao pensamento educacional. Em especial, o relativismo cultural e o ceticismo valorativo presentes em Dos Canibais são identificáveis na conhecida proposta pedagógica multicultural de Antônio Flávio Moreira e Vera Maria Candau, dois expoentes da pesquisa educacional brasileira.

Moreira e Candau enfatizam a necessidade de que a escola se torne um espaço plural. Para os autores, os saberes a ensinar, as práticas de ensino e os instrumentos de avaliação tendem a ser espaços “monoculturais”, marcados por uma visão unitária e excludente de cultura. A cultura escolar nada mais seria do que uma reprodução da cultura das classes hegemônicas, que desacreditaria todos os outros referenciais culturais. No cenário da escola popular, os alunos vindos das classes socioeconômicas populares e de grupos socioculturais minoritários tendem a passar por um gradativo processo de exclusão, como num “circulo vicioso”.

A cultura escolar (administração, conhecimento e ensino) desvaloriza os seus saberes e experiências como decisivos à aprendizagem e à socialização, os alunos são estigmatizados, se rebelam violentamente contra o cânone, são penalizados e podem até desistir da educação básica e dos seus possíveis benefícios individuais e coletivos. Não soa familiar este quadro? Não seria ele outra encenação do teatro dos “civilizados” e “bárbaros” em que os primeiros se julgam superiores aos últimos? O paralelo entre a imagem evocada em Dos Canibais e a cultura escolar típica é, pois, bastante possível. 

Diante desse quadro, Moreira e Candau acenam a uma perspectiva multicultural do processo educativo, que dê espaço, voz e interlocução às diversas culturas na construção do espaço escolar, sobretudo na sala de aula. Para os autores, a perspectiva sobre multiculturalismo trabalhada se baseia na ideia emancipatória do conceito. Aqui, pensar multiculturalismo é pensar para além do reconhecimento das diferenças e diversidades e reconhecer as relações de poder que habitam em ambientes onde há uma enorme variabilidade de culturas em um mesmo espaço. A escola é um desses espaços. A prática pedagógica multicultural nesse contexto, para os autores representa dar voz a narrativas que não são priorizadas. E quais são as características desses espaços escolares que tratamos? Temos a ideia desses espaços como zonas de conflito, tensões e disputas. Se lidarmos com essa dimensão que habita nas escolas onde a diferença e pluralidade são questões silenciadas, concordamos com os autores de que precisamos como profissionais produzirmos uma perspectiva que valorize e leve em conta a riqueza decorrente da existência de diferentes culturas no espaço escolar.

A transformação curricular passa então a ser fundamental no eixo de argumentação dos nossos autores. Quais olhares e leituras têm sido privilegiadas? Cabe a nós, profissionais da educação, também a partir da análise dessas questões, questionarmos como os temas trabalhados tem sido construídos historicamente, quais são as ideologias dominantes e como podemos a partir disso fazer com que os alunos possam questionar suas próprias experiências. Nesse contexto, surge o crítico cultural. Para os autores, os críticos culturais serão os intelectuais que vão assumir o papel de concretizarem o movimento de “desnaturalização” das coisas. Ou seja, tudo pode e deve ser passível de transformação. Podemos subverter a ordem vigente.

Assim como em “Dos canibais”, Candau e Moreira nos mostram como praticamos e atualizamos o gesto da exclusão do diferente no espaço escolar:

“(…) a demarcação entre “nós” e “os outros” é uma prática social permanente que se manifesta pelo não reconhecimento dos que consideramos não somente diferentes, mas, em muitos casos, “inferiores”, por diferentes características identitárias e comportamentos (…)” (MOREIRA E CANDAU, 2003, p. 163)

Nessa perspectiva, como os conteúdos de ensino, as práticas pedagógicas e as avaliações das aprendizagens poderiam contemplar a visão pluralista que defendemos? Defendemos assim como Moreira e Candau que essas práticas só podem ser construídas diante a coletividade, ou seja, é através das ações conjuntas, do apoio mútuo e continuado que os profissionais da educação poderão construir novas formas de saberes, dentro de espaços tão excludentes. E se aqui destacamos que é preciso trabalharmos coletivamente, é preciso que esse trabalho aconteça também com o apoio para além dos muros da escola. Ora, se a escola é um espaço propriamente integrado aos tecidos da sociedade, é preciso que as instituições também contribuam para que os projetos possam ser concretizados, como as secretarias, que é o exemplo que os autores relatam:

(…) E aí insistimos na construção de um projeto pedagógico que seja da escola e seja da Secretaria também, um projeto claro, porque o projeto pedagógico ele pensa a escola, ele pensa no todo, na sociedade. Ela tem querer uma instituição que tem o objetivo no futuro.(…)(MOREIRA E CANDAU, 2003, p. 165 – 166)

Precisamos também, ao que se refere às avaliações, procurar metodologias que potencializem as formas de expressividade do alunado. Se retomarmos a ideia de que a escrita dos ensaios de Montaigne é a escrita de si, do próprio pensador ponderando e refletindo sobre suas ideias e formulações, podemos destacar o quanto essa escrita de si mesmo o transforma e modifica. Para Moreira e Candau, expressar-se, dizer sua palavra é uma ferramenta libertadora, que faz com que a experiência do outro se aproxime da nossa. É preciso, sem dúvida, desenvolver uma educação escolar que realize, como Montaigne propõe em Dos Canibais, uma relativização do “outro”, de sua cultura, visão de mundo e prática. Culturas são plurais e irredutíveis a comparações valorativas. Será um grande passo rumo à construção de uma educação democrática se a escola básica admitir, efetivamente, esta proposta em seu cotidiano pedagógico.

Considerações Finais
Precisamos dar voz as diferentes narrativas. Sabemos que o caminho é longo e difícil, todavia, concordamos com a dimensão transformadora do professor como agente ativo de todo o processo que buscamos. Valorizarmos nossa formação, nos engajarmos coletivamente, disseminar o pensamento crítico e propor interações reflexivas são algumas das muitas alternativas que podemos buscar para construirmos uma escola plural. A escola nesse sentido, tem um papel muito claro, o de cumprir com a sua função crítica e democrática. Pensarmos em uma educação multicultural é pensar em construir espaços educativos que sejam plurais. Em tempos nos quais a diferença parece mais despertar conflito, violência e ódio, a defesa de práticas pedagógicas multiculturais se faz necessária A diversidade é uma riqueza e deveria ser tratada como tal pela escola.

O “novo mundo” de Montaigne e o “novo mundo” da sala de aula se aproximam dadas as semelhanças. Tal qual o novo mundo relatado por Montaigne em seu ensaio, ainda não sabemos lidar com as diferenças. Podemos tomar Montaigne como Antoine Compagnon o caracteriza, como um dos primeiros críticos ao colonialismo (Compagnon, 2015) ou até nas palavras de Jean Starobinski, como o ensaio “dos canibais” sendo um “manifesto anticolonialista”. O que mostramos no presente artigo foi que para além dessas caracterizações do Montaigne como ensaísta e o que produziu o ensaio “dos canibais”, Montaigne é um pluralista, pois seu pensamento nos faz exercer o movimento de desconstrução do pensamento hegemônico.  Entender esse movimento, é conceber a ideia de que se conseguimos enxergar as pluralidades de culturas, conseguimos por consequência transformar o pensamento de uma época. O que nos fez aproximar um autor do século VI e autores brasileiros contemporâneos foi a partir da observação de que ainda praticamos na vida pública a discriminação e o preconceito. E o que nos faz pensar em alternativas, é termos em vista que ao enxergarmos o processo podemos transformar e modificar essas visões únicas e dogmáticas sobre a vida. Por isso defendemos uma escola multicultural, para que possamos assim fazer das diferenças uma ferramenta que impulsiona e que não segrega.

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Taísa Bezerra

Referências
COMPAGNON, Antoine, (2015). Uma temporada com Montaigne. São Paulo: Martins fontes.
MONTAIGNE, Michel, (2002). Os ensaios. São Paulo: Martins fontes.
MOREIRA, Antonio Flavio Barbosa  and  CANDAU, Vera Maria. Educação escolar e cultura(s): construindo caminhos. Rev. Bras. Educ. [online]. 2003, n.23,
TOURNON, André. Montaigne. São Paulo, Discurso Editorial, 2004.
MARCONDES, Danilo. Montaigne, a descoberta do Novo Mundo e o ceticismo moderno. Kriterion [online]. 2012, vol.53, n.126.
SOUZA FILHO, Danilo Marcondes. A tradição cética, os argumentos limitativos do conhecimento e a questão da linguagem. Departamento de Filosofia (PUC-RJ). Conferência em 1997.
STAROBINSKI, Jean. Montaigne em Movimento. (1993) São Paulo, Companhia das letras.
BIRCHAL, Telma. (2007).  O eu nos Ensaios de Montaigne. Belo Horizonte: Editora UFMG.

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A Morte é uma Flor: Diane Sbardelotto – Número 169 – 11/2018 – [75-78]

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1. A dúvida dela era sobre como começar. Ainda não pudera verificar. Sabia que como título de livro não fora Celan que pensara em A Morte é uma Flor. Ela pensava nisso atenta à forma como lhe parecia único. O mais belo título jamais pensado teria sido estabelecido eivado de apocrifia. Seriam os poemas que ele não publicou ou julgou que era o caso de não fazê-lo. A morte retirara a liberdade de ter segredos reveláveis. A morte permitiu que desabrochassem sua intimidade. A memória parecia a enganar. Pode ser que A morte é uma Flor fosse o início de um poema por Celan esquecido e pela morte lembrado. Continue Lendo

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Âmbar: Felipe Fernandes – Número 167 – 09/2018 – [68-71]

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Release

Nesta sua individual à Galeria IBEU, Felipe Fernandes apresenta 30 quadros em que desloca a sua pesquisa aos pequenos formatos. São telas diminutas obtidas em saldo de armarinho ou como presentes em que o artista prepara abstratamente cenas que não chegam a acontecer, pelo menos nunca como ação evidente. Ele privilegia um clima alegre como nas colagens de Matisse, mas prevê momentos de boicote ao submundo, completamente, leve e festivo. Para obter tal efeito desenvolve diversas formas de moldura às abstrações. A pintura que desenvolve é fusionada à delicadas pétalas de papel, pedaços de fita crepe e imprevistas camadas de cola conferidoras de brilho à tinta. O drama das quase figuras começa e é interrompido antes de iniciar a narrativa.

Parede

Na ordem das escolhas do Felipe Fernandes, nos pequenos quadros da presente série, percebemos a bonita tensão sugerida por Lukács entre o destino e o tempo. A vida pela magia do destino tende a imergir de tal sorte no tempo que consegue até mesmo suspendê-lo. Donde o tempo passa e não sentimos a sua duração. A parte do tempo, ao seguirmos que está passando, ou nos deixa ocupados com as medições ou angustiados com o término: se cedo demais. A composição de Âmbar, na felicidade que sugere, mesmo em seus momentos sombrios, é claramente atinente ao destino. Mas a ação não se realiza, a cena é preparada, emoldurada até, e lindamente não começa. Nem mesmo os quase personagens se derramam em drama. A recompensa é que a pintura se fusiona à delicadas pétalas de papel, pedaços de fita crepe e imprevistas camadas de cola que trazem brilho. O destino, devora-nos e não sentimos. Se de acontecimento interrompido, deixa revelar a delicadeza dos reparos com que o tempo continua. Continue Lendo

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Os Ajudantes II: Sara Ramo – Número 165 – 07/2018 – [62-64]

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1. Poderia então ser fornecida, num prólogo, a estrutura dos lugares escuros. Nela nunca se é e sempre se está. Isso pode ser melhor entendido nos seguintes termos: um ajudante não é solícito ou perigoso, ele estásolícito ou perigoso. O traje mostra bem o espírito do trânsito entre a solicitude e a periculosidade. Nos lugares escuros é imperioso portar uma fantasia, todos a usam, não importa qual seja, não importa quem seja. Neles se imagina sob intensas variações aquilo que se percebe habitualmente. Em suma, tudo é familiar e tudo é diferente. Continue Lendo

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Os Ajudantes: Sara Ramo – Número 163 – 05/2018 – [52-58]

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Eram seus olhos. Com eles, não via muito longe. E, no entanto, dizia que seus olhos eram os melhores que havia, o fanfarrão.

Robert Walser

[…] o vento soprava tão forte que apagou seus olhos. Ele quis acendê-los de novo, mas não tinha fósforos. Aí, começou a chorar […], porque não tinha mais como encontrar o caminho de casa.  

Robert Walser

§ Este texto, essa crítica, repete-se. Ela se faz um tanto de algumas fugas com relação ao que pode ser incômodo e por isso habita nele. Isso não pode ser compreendido tão somente de forma negativa. Pois tal disposição de ouvir nos permitiu enxergar o que seria mais relevante para um conjunto de dúvidas, bem como, refazer o caminho que expõe certa injustificável inocência de convicções implícitas em certas práticas. Escutar nunca nos deixa cair. Daí que o trânsito do desamparo cruze o da política nem sempre olhando para os dois lados antes de atravessar. Continue Lendo

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Notas sobre o Poema ‘A Verdade’ do Marquês de Sade – Número 162 – 04/2018 – [42-51]

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Se quisermos nos dar conta das nossas ideias sobre a divindade, seremos obrigados a reconhecer que, pela palavra deus, os homens jamais puderam designar senão a causa mais oculta, mais distante e mais desconhecida dos efeitos que eles não viam: eles não fazem uso dessa palavra a não ser quando o funcionamento das causas naturais e conhecidas deixa de ser visível para eles. A partir do momento que o seu espírito não pode mais seguir a cadeia, eles resolvem a dificuldade e terminam as suas investigações chamando de deus a última das causas, ou seja, aquela que está além de todas as causas que eles conhecem. Assim, eles nada mais fazem do que consignar uma denominação vaga a uma causa ignorada, na qual sua preguiça ou os limites de seus conhecimentos os forçam a se deter.

Barão de Holbach, Sistema da natureza, II, i.

 

Instável, violento e depravado, um criminoso internacional vem, mais uma vez, declarar guerra à dignidade humana e à liberdade. Ele é sustentado por uma vasta rede de fieis prontos para servir seu mestre, determinados por beatice cega, outros por oportunismo egoisticamente megalômano. O cérebro terrorista do qual falo chama-se Deus – ou mais precisamente a ilusão coletiva de ‘deus’ que parece não ter servido senão pelos mais repreensíveis espasmos de violência e destruição. […] ‘Deus’, para dizer as coisas mais simplesmente, é uma doença social transmitida exclusivamente pelos humanos. Como uma sífilis não tratada, a crença em um deus leva à demência e à cegueira. Deus é uma projeção alucinatória da miséria do homem, de seu medo e de seu ódio voltando-se contra ele.

Don LaCoss, 9-11 & The Theology of terror.

Ao final de seu ensaio intitulado “O enigma Sade”, Eliane Robert Moraes é categórica quando afirma que “Sade nos obriga a pensarmos”(2006, p. 143). Seguiremos a pista deixada pela autora nesse trabalho reflexivo que empreenderemos sobre o curto poema filosófico A Verdade do marquês, surgido em 1787[?], estruturado em versos alexandrinos e rima emparelhada. Essa peça foi encontrada entre os documentos de La Mettrie, vindo a ser publicado em 1961, de acordo com o manuscrito inédito de Sade. Contudo, um simples coup d’oeil no texto permite perceber que, tanto pelo estilo como pelo conteúdo, o poema é de autoria do marquês, sendo atribuído à La Mettrie por motivos de prudência. Gilbert Lely menciona que “o simples aspecto do manuscrito, corrigido e rasurado, bastaria para identificá-lo como uma verdadeira obra pessoal” (1989, p. 7). Mostrando o quanto o marquês repudia todo e qualquer “corpo doutrinal seja filosófico, moral, social ou religioso” (LEVER, 1998, p. 7) e contendo as principais características do pensamento de Sade, A Verdade, mais do que uma sátira anti-religiosa, mostra um “conhecimento que alarga, querendo ou não, nossa concepção de humanidade.” (MORAES, 2006, p. 156.) Continue Lendo

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Samba: experiência sensória de desaculturamento – Número 161 – 03/2018 – [24-41]

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Performance apresentada no evento Marginália Filosófica no dia de São Miguel (29 de setembro), dois dias depois do das comemorações de Cosme, Damião e Doum, e retrabalhada no mini-curso apresentado na Semana Livre de Filosofia que teve início na dia 20 de novembro, evento em que homenageamos Zumbi dos Palmares. Ambos os eventos ocorreram na UFS no presente ano (2017). A música mencionada no início dessa epígrafe é um ponto da Umbanda em que se pede com o auxílio de tambores-atabaques que Orixás venham iniciar os trabalhos do terreiro.

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Tambor, tambor, vai buscar quem mora longe tambor. Eu vi Oxossi na mata, vi Ogum no Humaitá, meu pai Xangô lá nas pedreiras, ô Iansã, ô Iemanjá. Tambor, tambor…

Povo baiano, povo africano, força divina vem cá vem cá…

Baianíssimo Gil, faz um favor pra mim, manda descer pra ver, pra ouvir, pra lembrar.

Brasil esquentai vossos pandeiros iluminai os terreiros que nós queremos sambar.

Cada paralelepípedo da velha cidade vai se arrepiar ao lembrar.

Mapa e missão de passista

Faremos nossa experiência sensória do lembrar começando da margem de cima, lá do lugar de Orixá (e já os chamamos!), descendo ao centro e voltando à margem por fora, ou seja, depois passaremos ao morro Favela Óca (oca-loca-louca-loka), Favelóka, Sounds, experimentando o infinitamente sambar, depois o fingir amor com dor, depois volteios ao centro da dor sem amor para, já subindo, findar no voltar a guerrear sem fim do embolar sambar o Tio Sam no Samba Rock.

Claro, vivemos a opção de falar sobre o outro lado do mar, sobre o que nem francês entende de tão sem sentido se vem de cá, ou sobre o também sem sentido que nem brasileiro entende de tão esquecido, ficamos com o segundo, decisão louca falar até dos vida loka do Brasil que, a la Thaide e Dj Hum, pode ser um retalhar-colecionar-costurar-colar-balançar-brincalhar-sambar-lembrar, um falar mesmo de tempo ruim de quem se assume marinheiro só, de só marinheiro só no balanço loco do navio de cá, que balança no mar-terreiro-céu de cá, cá onde algo somos, onde fazemos missão. Chama Orixá! Convidemos Rosa Maria! Grita aí os Dimas! Queremos ver e ouvir Anastácia dar sua risada! Vamos espectrar! Continue Lendo

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daartepoética – Número 160 – 02/2018 – [12-23]

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Tous les arts sont poésies.
(Racine)

No dia vinte e cinco de agosto de 2017, o professor Rodrigo Brito me convidou para o evento “Marginália Filosófica”, então a acontecer na Universidade Federal de Sergipe. Um evento, disse ele a mim, que se pretende itinerante. Aceitei – sabendo que eu não podia escrever um texto convencional para o evento “Marginália Filosófica”. Eu só poderia escrever um texto marginal:

A poética está incompleta. A Poética de Aristóteles está incompleta. Ou seja: a Poética aristotélica está, para sempre, descomprometida – com a completude; descompromissada com o compromisso de ser completa; desobrigada de dizer tudo. Continue Lendo

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