Teoria Política

A Morte é uma Flor: Diane Sbardelotto – Número 169 – 11/2018 – [75-78]

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1. A dúvida dela era sobre como começar. Ainda não pudera verificar. Sabia que como título de livro não fora Celan que pensara em A Morte é uma Flor. Ela pensava nisso atenta à forma como lhe parecia único. O mais belo título jamais pensado teria sido estabelecido eivado de apocrifia. Seriam os poemas que ele não publicou ou julgou que era o caso de não fazê-lo. A morte retirara a liberdade de ter segredos reveláveis. A morte permitiu que desabrochassem sua intimidade. A memória parecia a enganar. Pode ser que A morte é uma Flor fosse o início de um poema por Celan esquecido e pela morte lembrado. Continue Lendo

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Âmbar: Felipe Fernandes – Número 167 – 09/2018 – [68-71]

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Release

Nesta sua individual à Galeria IBEU, Felipe Fernandes apresenta 30 quadros em que desloca a sua pesquisa aos pequenos formatos. São telas diminutas obtidas em saldo de armarinho ou como presentes em que o artista prepara abstratamente cenas que não chegam a acontecer, pelo menos nunca como ação evidente. Ele privilegia um clima alegre como nas colagens de Matisse, mas prevê momentos de boicote ao submundo, completamente, leve e festivo. Para obter tal efeito desenvolve diversas formas de moldura às abstrações. A pintura que desenvolve é fusionada à delicadas pétalas de papel, pedaços de fita crepe e imprevistas camadas de cola conferidoras de brilho à tinta. O drama das quase figuras começa e é interrompido antes de iniciar a narrativa.

Parede

Na ordem das escolhas do Felipe Fernandes, nos pequenos quadros da presente série, percebemos a bonita tensão sugerida por Lukács entre o destino e o tempo. A vida pela magia do destino tende a imergir de tal sorte no tempo que consegue até mesmo suspendê-lo. Donde o tempo passa e não sentimos a sua duração. A parte do tempo, ao seguirmos que está passando, ou nos deixa ocupados com as medições ou angustiados com o término: se cedo demais. A composição de Âmbar, na felicidade que sugere, mesmo em seus momentos sombrios, é claramente atinente ao destino. Mas a ação não se realiza, a cena é preparada, emoldurada até, e lindamente não começa. Nem mesmo os quase personagens se derramam em drama. A recompensa é que a pintura se fusiona à delicadas pétalas de papel, pedaços de fita crepe e imprevistas camadas de cola que trazem brilho. O destino, devora-nos e não sentimos. Se de acontecimento interrompido, deixa revelar a delicadeza dos reparos com que o tempo continua. Continue Lendo

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Os Ajudantes II: Sara Ramo – Número 165 – 07/2018 – [62-64]

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1. Poderia então ser fornecida, num prólogo, a estrutura dos lugares escuros. Nela nunca se é e sempre se está. Isso pode ser melhor entendido nos seguintes termos: um ajudante não é solícito ou perigoso, ele estásolícito ou perigoso. O traje mostra bem o espírito do trânsito entre a solicitude e a periculosidade. Nos lugares escuros é imperioso portar uma fantasia, todos a usam, não importa qual seja, não importa quem seja. Neles se imagina sob intensas variações aquilo que se percebe habitualmente. Em suma, tudo é familiar e tudo é diferente. Continue Lendo

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Os Ajudantes: Sara Ramo – Número 163 – 05/2018 – [52-58]

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Eram seus olhos. Com eles, não via muito longe. E, no entanto, dizia que seus olhos eram os melhores que havia, o fanfarrão.

Robert Walser

[…] o vento soprava tão forte que apagou seus olhos. Ele quis acendê-los de novo, mas não tinha fósforos. Aí, começou a chorar […], porque não tinha mais como encontrar o caminho de casa.  

Robert Walser

§ Este texto, essa crítica, repete-se. Ela se faz um tanto de algumas fugas com relação ao que pode ser incômodo e por isso habita nele. Isso não pode ser compreendido tão somente de forma negativa. Pois tal disposição de ouvir nos permitiu enxergar o que seria mais relevante para um conjunto de dúvidas, bem como, refazer o caminho que expõe certa injustificável inocência de convicções implícitas em certas práticas. Escutar nunca nos deixa cair. Daí que o trânsito do desamparo cruze o da política nem sempre olhando para os dois lados antes de atravessar. Continue Lendo

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Notas sobre o Poema ‘A Verdade’ do Marquês de Sade – Número 162 – 04/2018 – [42-51]

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Se quisermos nos dar conta das nossas ideias sobre a divindade, seremos obrigados a reconhecer que, pela palavra deus, os homens jamais puderam designar senão a causa mais oculta, mais distante e mais desconhecida dos efeitos que eles não viam: eles não fazem uso dessa palavra a não ser quando o funcionamento das causas naturais e conhecidas deixa de ser visível para eles. A partir do momento que o seu espírito não pode mais seguir a cadeia, eles resolvem a dificuldade e terminam as suas investigações chamando de deus a última das causas, ou seja, aquela que está além de todas as causas que eles conhecem. Assim, eles nada mais fazem do que consignar uma denominação vaga a uma causa ignorada, na qual sua preguiça ou os limites de seus conhecimentos os forçam a se deter.

Barão de Holbach, Sistema da natureza, II, i.

 

Instável, violento e depravado, um criminoso internacional vem, mais uma vez, declarar guerra à dignidade humana e à liberdade. Ele é sustentado por uma vasta rede de fieis prontos para servir seu mestre, determinados por beatice cega, outros por oportunismo egoisticamente megalômano. O cérebro terrorista do qual falo chama-se Deus – ou mais precisamente a ilusão coletiva de ‘deus’ que parece não ter servido senão pelos mais repreensíveis espasmos de violência e destruição. […] ‘Deus’, para dizer as coisas mais simplesmente, é uma doença social transmitida exclusivamente pelos humanos. Como uma sífilis não tratada, a crença em um deus leva à demência e à cegueira. Deus é uma projeção alucinatória da miséria do homem, de seu medo e de seu ódio voltando-se contra ele.

Don LaCoss, 9-11 & The Theology of terror.

Ao final de seu ensaio intitulado “O enigma Sade”, Eliane Robert Moraes é categórica quando afirma que “Sade nos obriga a pensarmos”(2006, p. 143). Seguiremos a pista deixada pela autora nesse trabalho reflexivo que empreenderemos sobre o curto poema filosófico A Verdade do marquês, surgido em 1787[?], estruturado em versos alexandrinos e rima emparelhada. Essa peça foi encontrada entre os documentos de La Mettrie, vindo a ser publicado em 1961, de acordo com o manuscrito inédito de Sade. Contudo, um simples coup d’oeil no texto permite perceber que, tanto pelo estilo como pelo conteúdo, o poema é de autoria do marquês, sendo atribuído à La Mettrie por motivos de prudência. Gilbert Lely menciona que “o simples aspecto do manuscrito, corrigido e rasurado, bastaria para identificá-lo como uma verdadeira obra pessoal” (1989, p. 7). Mostrando o quanto o marquês repudia todo e qualquer “corpo doutrinal seja filosófico, moral, social ou religioso” (LEVER, 1998, p. 7) e contendo as principais características do pensamento de Sade, A Verdade, mais do que uma sátira anti-religiosa, mostra um “conhecimento que alarga, querendo ou não, nossa concepção de humanidade.” (MORAES, 2006, p. 156.) Continue Lendo

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Samba: experiência sensória de desaculturamento – Número 161 – 03/2018 – [24-41]

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Performance apresentada no evento Marginália Filosófica no dia de São Miguel (29 de setembro), dois dias depois do das comemorações de Cosme, Damião e Doum, e retrabalhada no mini-curso apresentado na Semana Livre de Filosofia que teve início na dia 20 de novembro, evento em que homenageamos Zumbi dos Palmares. Ambos os eventos ocorreram na UFS no presente ano (2017). A música mencionada no início dessa epígrafe é um ponto da Umbanda em que se pede com o auxílio de tambores-atabaques que Orixás venham iniciar os trabalhos do terreiro.

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Tambor, tambor, vai buscar quem mora longe tambor. Eu vi Oxossi na mata, vi Ogum no Humaitá, meu pai Xangô lá nas pedreiras, ô Iansã, ô Iemanjá. Tambor, tambor…

Povo baiano, povo africano, força divina vem cá vem cá…

Baianíssimo Gil, faz um favor pra mim, manda descer pra ver, pra ouvir, pra lembrar.

Brasil esquentai vossos pandeiros iluminai os terreiros que nós queremos sambar.

Cada paralelepípedo da velha cidade vai se arrepiar ao lembrar.

Mapa e missão de passista

Faremos nossa experiência sensória do lembrar começando da margem de cima, lá do lugar de Orixá (e já os chamamos!), descendo ao centro e voltando à margem por fora, ou seja, depois passaremos ao morro Favela Óca (oca-loca-louca-loka), Favelóka, Sounds, experimentando o infinitamente sambar, depois o fingir amor com dor, depois volteios ao centro da dor sem amor para, já subindo, findar no voltar a guerrear sem fim do embolar sambar o Tio Sam no Samba Rock.

Claro, vivemos a opção de falar sobre o outro lado do mar, sobre o que nem francês entende de tão sem sentido se vem de cá, ou sobre o também sem sentido que nem brasileiro entende de tão esquecido, ficamos com o segundo, decisão louca falar até dos vida loka do Brasil que, a la Thaide e Dj Hum, pode ser um retalhar-colecionar-costurar-colar-balançar-brincalhar-sambar-lembrar, um falar mesmo de tempo ruim de quem se assume marinheiro só, de só marinheiro só no balanço loco do navio de cá, que balança no mar-terreiro-céu de cá, cá onde algo somos, onde fazemos missão. Chama Orixá! Convidemos Rosa Maria! Grita aí os Dimas! Queremos ver e ouvir Anastácia dar sua risada! Vamos espectrar! Continue Lendo

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daartepoética – Número 160 – 02/2018 – [12-23]

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Tous les arts sont poésies.
(Racine)

No dia vinte e cinco de agosto de 2017, o professor Rodrigo Brito me convidou para o evento “Marginália Filosófica”, então a acontecer na Universidade Federal de Sergipe. Um evento, disse ele a mim, que se pretende itinerante. Aceitei – sabendo que eu não podia escrever um texto convencional para o evento “Marginália Filosófica”. Eu só poderia escrever um texto marginal:

A poética está incompleta. A Poética de Aristóteles está incompleta. Ou seja: a Poética aristotélica está, para sempre, descomprometida – com a completude; descompromissada com o compromisso de ser completa; desobrigada de dizer tudo. Continue Lendo

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A Relatividade Essencial – Número 159 – 01/2018 – [02-11]

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A noção do relativo é essencial a céticos e relativistas. No que concerne à sképsis pirrônica, Sexto Empírico o demonstra nas Hipotiposes Pirrônicas em pelo menos dois lugares: no oitavo “modo” de Enesidemo e na exposição dos cinco modos de Agripa. No oitavo modo Sexto diz ter estabelecido a relatividade de todas as coisas, o que ele toma como condição para poder concluir que somos incapazes de afirmar qual é a natureza ou a essência delas, isto é, o que cada uma é independentemente dos seres que procuram conhecê-las. Nós só estamos, nessa medida, autorizados a discorrer sobre o aparecer delas, o que explicita seu relacionar-se a nós, sua relatividade. Ou como Sexto prefere apresentar essa consideração, nos Modos de Agripa, tanto coisas sensíveis quanto objetos de pensamento são relativos àqueles que têm as impressões ou que desenvolvem alguma atividade intelectual a seu respeito. Continue Lendo

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No Tempo Dividido, 1954 [ Novíssimos, 2016 ] – Número 153 – 07/2017 – [76-82]

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[ Catálogo ]

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Nesta nova edição do Salão de Artes Visuais Novíssimos da Galeria IBEU, o curador Cesar Kiraly se vale dos 13 livros da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen para dispor as obras dos 12 artistas escolhidos. As obras são percebidas como internas à melancolia do tempo circunscrito, aquela dentro da qual o tempo pode ser percebido passando. Para isso, cada artista recebe uma obra da autora, com seu respectivo ano. Por exemplo: Amanda Copstein / O Nome das Coisas, 1977 ou Vera Bernardes / Mar Novo, 1958. A intenção é permitir que a bruma do livro envolva o trabalho ao mesmo tempo em que esse se mostre coerente com os nomes implicados na fabricação poética. O décimo terceiro livro, O Nome das Coisas, 1954 foi escolhido como aquele que conduz a lógica dos encontros entre livros e artistas e nomeia a coletiva.

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No Tempo Dividido, 1954

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas. [ p. 278. ]

Não se pode expulsar o acidente. Não completamente. Daí os ânimos diversos para lidar com ele. Não se pode estabilizar o ânimo. Isso nos leva à oscilação diante do acaso. A vida, de modo intermitente, põe-nos a negar ou aceitar. Por que não se pode controlar a chance? A resposta remete ao tempo. O tempo, porque aparentemente não volta, impõe-nos o imprevisto. Pelo simples fato de se mover e não revelar os detalhes da variação, o tempo nos surpreende. As surpresas, principalmente pelo estado do ânimo, são de intensidades diferentes. O resultado mais explícito é que sob a passagem do tempo as coisas mudam de lugar. Nada é idêntico ao instante anterior. A sensação de estabilidade é obtida pela reposição dos objetos no lugar em que estavam. Porque não se pode reverter o acidente, o futuro não pode ser igual ao presente ou ao passado. Continue Lendo

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