Pensamento Brasileiro

Belchior ou o elogio dos comuns – Número 118 – 02/2014 – [19-23]

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Certos comportamentos coletivos são sintomas das tensões entre algumas virtudes e misérias da vida moderna no ocidente. A celeuma em torno do “sumiço” do cantor Belchior é um bom caso para pensarmos sobre essa questão. O lugar que a vida do homem e da mulher comuns ocupa na cultura ocidental é o ponto em discussão. Continue Lendo

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Um outro Gilberto: em torno da modernidade e dos sentimentos por ela despertados – Número 117 – 01/2014 – [02-18]

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No ensaio que segue apresentarei uma análise estrutural de grande parte do pensamento de Gilberto Freyre. Chamo-a desta forma porque minha análise procura argumentar que a trilogia freyriana destina-se à indagação de uma questão persistente talvez em todo o trabalho do sociólogo pernambucano e, busco organizá-la de modo a atribuir o sentido das causas e os possíveis efeitos do fenômeno modernizador na sociologia de Freyre. Na leitura norbertiana que faço de Freyre a modernização consiste num processo de desintegração de elementos culturais originários para o estabelecimento de padrões de comportamento outros. Chamo, influenciada pela leitura do autor pernambucano, de instituições da vida íntima a família, a função social do pai, bem como todas as relações existentes no complexo patriarcal e denomino instituições formais a República, a democracia liberal, o voto. Parto do princípio de que em sua trilogia intitulada Introdução à história da sociedade patriarcal brasileira o autor nos fornece uma imagem do Brasil. Nesta reflexão me interessa resgatar a imagem da sociedade no que tange às suas possibilidades políticas. A premissa da imagem que resgato nessas linhas deriva de artigo publicado em 1987 por Antonio Candido, quando da morte de Gilberto Freyre; nele o célebre crítico literário apresenta a relevância da visão de Brasil trazida pelo sociólogo pernambucano. Casa Grande e Senzala não seria um clássico apenas pelos argumentos que traz à tona para se pensar o país, mas por fornecer uma imagem de cores fortes da experiência nacional brasileira. Freyre foi um sociólogo produtor de sentimentos; discordando-se ou não de seus argumentos, sua interpretação sobre o país provocou sentimentos. E não poderia ser diferente pois sua sociologia se faz orientada por uma tentativa de compreensão de determinados sentimentos, e aqui entendo o termo como o sentido histórico das sensações percebidas no social1. A história das representações intelectuais de nosso país é também uma história dos sentimentos projetados sobre a nação e de uma procura por sentimentos na vida social; um conhecimento que não abre mão de produzir e reproduzir diferentes tipos de carga sentimental. Então, em torno da narrativa sobre a fundação republicana feita em Ordem e Progresso há uma narrativa que visa explicar o sentimento de estranheza despertado pelo episódio político. E uma vez identificado tal sentimento, Gilberto Freyre busca compreender o sentido e as explicações sociais e históricass possíveis para ele. Continue Lendo

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Elogio de uma Tarde Inútil – Número 72 – 09/2012 – [235-243]

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Ao contrário do que se diz por aí, o pessimismo não é atributo de gente que só fica feliz quando as coisas não vão bem. De jeito nenhum. Isso é mentira espalhada pelo adversário. Não é posição que se deva levar a sério, pela simples razão de que, na história das idéias, o otimismo jamais produziu um só pensador interessante. Quem pensa seriamente sobre o mundo não costuma sorrir feito bobo. O otimismo é a razão de biquíni, com um drinque de abacaxi na mão — o quinto —, em pleno gozo de suas férias. Seria bom se a vida fosse um domingo de sol no Taiti. Acontece que não é. Os pessimistas – melhor chamá-los de céticos – sabem disso. Nós, os botafoguenses, também. Continue Lendo

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O Abolicionismo de Joaquim Nabuco – Número 69 – 09/2012 – [216-219]

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Depois que os últimos escravos houverem sido arrancados ao poder sinistro que representa para a raça negra a maldição da cor, será ainda preciso desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a lenta estratificação de trezentos anos de cativeiro, isto é, de despotismo, superstição e ignorância. O processo natural pelo qual a escravidão fossilizou nos seus moldes a exuberante vitalidade do nosso povo durou todo o período do crescimento, e enquanto a nação não tiver consciência de que lhe é indispensável adaptar à liberdade cada um dos aparelhos do seu organismo de que a escravidão se apropriou, a obra desta irá por diante, mesmo quando não haja mais escravos.

Joaquim Nabuco

O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco, é mais do que uma propaganda contra o abominável regime escravista. É uma obra que fala do futuro ao falar do presente. Além disso, parece ser o primeiro esforço intelectual e político de peso na história de nosso país a apresentar uma teoria de progresso civilizatório nacional baseado antes no elemento humano do que na suficiência de leis abstratas ou de técnicas burocráticas. Nesse sentido, me parece que a noção de Democracia refere-se mais à necessidade de se alargar o alcance da cidadania do que propriamente o de garantir a participação política, ou seja, se fazia mister a precedência da reforma social ante a reforma política. Liberdade humana como fundamento ontológico da liberdade formal. Continue Lendo

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Democratização e questão agrária – Número 53 – 03/2012 – [43-50]

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Em 1943, antes ainda do final da Segunda Guerra, Alexander Gerschenkron escreveu Bread and democracy in Germany, livro que se tornaria um clássico da ciência política. Na obra, o autor passa em revista mais de cinquenta anos da história política e econômica alemã examinando as relações entre o mundo rural e a organização política do país, notadamente o problema da democracia. A tese defendida, apontada já na epígrafe “Latifundia perdidere germanian”, era que a incapacidade do processo de modernização de desmanchar as redes de poder político, econômico e social dos grandes proprietários agrários da Prússia – os junkers – impôs limites severos à democratização do país e facilitou mesmo a sua reversão com o esfacelamento da República de Weimar e a ascensão do nazismo. A partir de uma fina análise da política econômica, Gerschenkron mostra como os junkers constituíram sua hegemonia sobre a política para a agricultura e como resistiram aos ímpetos do reformismo agrário. Refratários ao liberalismo econômico, os junkers fizeram da política e da ocupação do estado instrumentos para a defesa de suas posições na economia, sobretudo mantendo intocada a grande propriedade agrária, que permanecia sendo um centro de poder político e não mero ativo econômico disponível em um mercado capitalista de terras. Continue Lendo

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A Dor e a Delícia de ser Aristoi: Oliveira Vianna, Faoro e a produção da política externa brasileira – Número 51 – 03/2012 – [31-34]

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Justiça seja feita: Francisco de Oliveira Vianna e Raymundo Faoro jamais se debruçaram sobre as questões da política externa brasileira! Ao menos, não que se tenha registro. Quando muito, reconheceram em seus escritos alguns dos componentes daquilo que, hoje, com enormes doses de anacronismo, se chamará de “sistema de política exterior” no Brasil do Oitocentos. A advertência é importante, pois prepara o leitor para uma argumentação que, ademais de sinuosa, poderá conduzir a lugar algum. Continue Lendo

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História e Memória de João Goulart – Número 46 – 12/2011 – [182-186]

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Resenha de João Goulart: Uma Biografia, de Jorge Ferreira.

Após o golpe militar, uma versão dos fatos – e de João Goulart – se consolidou. Estrategicamente, os militares e seus aliados civis passaram a afirmar que tudo antes de 1964 era corrupção, demagogia, caos econômico e subversão da ordem. Mas não só João Goulart foi desqualificado. Concomitantemente, as esquerdas revolucionárias interpretaram o apoio dos trabalhadores e do movimento sindical a Jango como peleguismo, paternalismo ou inconsciência acerca de seus verdadeiros interesses. Assim como a memória política de Jango, as lutas operárias, camponesas e populares também foram varridas da história. Continue Lendo

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A Chave dos Profetas – Número 45 – 12/2011 – [178-181]

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O padre Antônio Vieira é um dos principais pensadores (senão o maior deles) que escreveram em língua portuguesa. Suas obras possuem imensa fortuna crítica. A própria grandeza de seu trabalho, no entanto, talvez contribua para um certo desconhecimento de seus textos por parte do público leitor da “flor do Lácio”. Isso se deve, acredito eu, mais ao volume de sua obra (incontáveis sermões e infinitas cartas) do que à distância temporal que nos separa do jesuíta. Continue Lendo

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As mazelas do Brasil e o autoritarismo instrumental: Semelhanças entre Oliveira Vianna e Maquiavel – Número 38 – 11/2011 – [142-147]

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Texto originalmente apresentado por ocasião da Jornada de Estudantes do Colóquio Internacional Maquiavel Dissimulado: Heterodoxias Político-Culturais no Mundo Luso-Brasileiro

A comparação entre dois fenômenos políticos é tarefa muito complicada. Momentos históricos diferentes o são por serem compostos por inúmeros aspectos também diferentes. Aspectos esses, que tornam impossível a antiga pretensão de conhecimento histórico para modificação correta do futuro. Quase paradoxalmente, esses mesmos aspectos componentes de eventos políticos passados tendem a influenciar as atitudes contemporâneas; que pelo que parece, ainda mantém forte a crença de que é preciso conhecer os erros passados para não cometê-los novamente. Continue Lendo

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