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Um outro Gilberto: em torno da modernidade e dos sentimentos por ela despertados – Número 117 – 01/2014 – [02-18]

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No ensaio que segue apresentarei uma análise estrutural de grande parte do pensamento de Gilberto Freyre. Chamo-a desta forma porque minha análise procura argumentar que a trilogia freyriana destina-se à indagação de uma questão persistente talvez em todo o trabalho do sociólogo pernambucano e, busco organizá-la de modo a atribuir o sentido das causas e os possíveis efeitos do fenômeno modernizador na sociologia de Freyre. Na leitura norbertiana que faço de Freyre a modernização consiste num processo de desintegração de elementos culturais originários para o estabelecimento de padrões de comportamento outros. Chamo, influenciada pela leitura do autor pernambucano, de instituições da vida íntima a família, a função social do pai, bem como todas as relações existentes no complexo patriarcal e denomino instituições formais a República, a democracia liberal, o voto. Parto do princípio de que em sua trilogia intitulada Introdução à história da sociedade patriarcal brasileira o autor nos fornece uma imagem do Brasil. Nesta reflexão me interessa resgatar a imagem da sociedade no que tange às suas possibilidades políticas. A premissa da imagem que resgato nessas linhas deriva de artigo publicado em 1987 por Antonio Candido, quando da morte de Gilberto Freyre; nele o célebre crítico literário apresenta a relevância da visão de Brasil trazida pelo sociólogo pernambucano. Casa Grande e Senzala não seria um clássico apenas pelos argumentos que traz à tona para se pensar o país, mas por fornecer uma imagem de cores fortes da experiência nacional brasileira. Freyre foi um sociólogo produtor de sentimentos; discordando-se ou não de seus argumentos, sua interpretação sobre o país provocou sentimentos. E não poderia ser diferente pois sua sociologia se faz orientada por uma tentativa de compreensão de determinados sentimentos, e aqui entendo o termo como o sentido histórico das sensações percebidas no social1. A história das representações intelectuais de nosso país é também uma história dos sentimentos projetados sobre a nação e de uma procura por sentimentos na vida social; um conhecimento que não abre mão de produzir e reproduzir diferentes tipos de carga sentimental. Então, em torno da narrativa sobre a fundação republicana feita em Ordem e Progresso há uma narrativa que visa explicar o sentimento de estranheza despertado pelo episódio político. E uma vez identificado tal sentimento, Gilberto Freyre busca compreender o sentido e as explicações sociais e históricass possíveis para ele. Continue Lendo

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