Literatura

Nanook – Número 131 – 03/2015 – [19-24]

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O médico e a mãe correm para fora do consultório e no hall de entrada encontram a destruição e o caos.

Mesas e cadeiras arremessadas se partem nas paredes. Os vidros das janelas se estilhaçam em muitos pequenos pedaços. O velho aparelho de televisão explode enquanto cacos de vidro e pedaços de plástico voam por todo lado. Pacientes, parentes e funcionários procuram se esconder em qualquer buraco. Continue Lendo

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Hölderlin e os Modernos – Número 128 – 12/2014 – [93-104]

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Pois em parte alguma ele fica.
Signo algum
o encerra.
Nem sempre
um vaso para contê-lo.

Frederich Hölderlin

A relevância do filósofo e poeta Frederich Hölderlin no final do século XVIII não foi das menores. Em 1794 ele se embrenhava nas discussões filosófico-ontológicas que pululavam durante o famoso seminário de Tübingen, cuja participação contava com Schelling e Hegel, causadas principalmente pelo impacto das três Críticas de Immanuel Kant e filosofia audaciosa de Fichte sobre a liberdade infinita do Eu, ambas vinculadas ao que iria convencionalmente chamar de Idealismo Alemão. Continue Lendo

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Desde o Princípio, o Feminino como Obsessão Temática em José Saramago – Número 116 – 12/2013 – [184-192]

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Eu estou inventando mulheres ou, talvez, outra forma de ser mulher.

José Saramago

1
Há dois instantes singulares na obra de José Saramago em que uma personagem feminina irrompe a malha textual e passa a ocupar o estágio de ponto cardeal no desenvolvimento da narrativa: em Memorial do convento, com Blimunda e em Ensaio sobre a cegueira, com a mulher do médico. Foi nesse último romance que, movido em saber o porquê uma mulher em meio a uma epidemia que vai solapando um a um com uma estranha cegueira não cega, fui à cata de pensar, em primeiro lugar, que as personagens femininas saramaguianas eram dotadas de uma característica que as faziam singulares na sua obra [1]. O contato com outros trabalhos acadêmicos de pequena extensão sobre essa singularidade deu suporte para observar que a constatação já havia perdido seu ineditismo. E é possível mesmo que outros tenham lido melhor sobre esse tema, mas ainda assim, respeitando as particularidades já sondadas pela crítica, me pareceu ainda necessário cumprir um estudo de acurado fôlego que pudesse servir, se não de preenchimento de uma lacuna bibliográfica em torno da obra do Prêmio Nobel da Literatura Portuguesa, de ponto de partida para se pensar outros trajetos de uma trama tão bem urdida por ele – uma trama sobre o feminino. Continue Lendo

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Dogmasmático – Número 112 – 09/2013 – [159-161]

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sketch
Sem título [René Magritte] – 1967.

“O Homem sabe que ele está no tempo por saber de antemão que irá morrer. A morte é a saída do tempo, como se somente á distância o conhecimento fosse possível”.

Georg Picht in Hier und Jetzt, Philosophieren nach Auschwitz und Hiroshima, Tomo I, Stuttgart 1980, p. 14

“Se víssemos bem o que vimos, seria sempre igualmente conhecido; mas o vemos de maneira totalmente diversa do que é. Assim, os verdadeiros filósofos passam a vida a não acreditar no que vêem, e a tentar adivinhar o que não vêem, condição esta, a meu ver, não muito invejável”.

Bernard de Fontenelle in “Diálogos sobre a pluralidade dos mundos”, p. 48

Roçava o indicador nos lábios, de cima a baixo, de um lado para outro, como se aquilo desse algum prazer secreto. A maciez do pomar, para ele, era a mesma quando deslizava sobre as teclas redondas da máquina de escrever ou os botões da camisa. Era uma mania descaracterizada e ausente, na qual nem as extremidades lhe bajulavam o ego. Faltava aquele fazer crer simplificado, aquela aspereza típica da sujeira – não o negrume denso, carregado, mas a sutileza que proporciona deslizamentos, espécie de atrito reduzido entre as partes. Era assim e não de outra forma que se punha a escrever pensamentos, chamuscações de um coração febril de produção por decantação – um modo complexo de uma mesma e única bajulação. Continue Lendo

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João Cabral de Melo Neto. O Lápis, o Esquadro, o Desenho, um Projeto – Número 100 – 05/2013 – [82-85]

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O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.

(João Cabral de Melo Neto, O engenheiro)

1

Três características costumam ser atribuídas à obra de João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano nascido em 1920: a secura, a dobra da palavra e o lirismo contido, esta como um desdobramento daquela primeira. Isso porque o elemento que corta toda sua produção poética não é outro senão a pedra; a pedra em seu estágio pétreo. Citemos dois marcos, Pedra sono (1942), livro de estreia, e A educação pela pedra (1966), como exemplos, em que o substantivo apresenta-se já prenhe de sentidos aos olhos do leitor ainda no título da obra. A pedra é o elemento na construção arquitetônica de João, uma construção devidamente medida, esquadrinhada, na sua secura, na sua dobra, no seu estado condensado. A pedra é a palavra, também seca, dobrada, condensada, um instrumento de corte, a peça ajustada de uma máquina chamada linguagem. Continue Lendo

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