Lírica

Nanook – Número 131 – 03/2015 – [19-24]

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O médico e a mãe correm para fora do consultório e no hall de entrada encontram a destruição e o caos.

Mesas e cadeiras arremessadas se partem nas paredes. Os vidros das janelas se estilhaçam em muitos pequenos pedaços. O velho aparelho de televisão explode enquanto cacos de vidro e pedaços de plástico voam por todo lado. Pacientes, parentes e funcionários procuram se esconder em qualquer buraco. Continue Lendo

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A Rosa Amarelo-Púrpura – Número 79 – 11/2012 – [305-308]

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“A Primeira e Única

Ela, a cujos poemas eram endereçáveis; ela,cuja importância é notável, que não escreve poemas apesar de servir como significativo poema ao poeta – eu a conheço. Se alguém a lança gracejos, fica atônita. Eu já declamei para ela, mas nada que me satisfizesse. Ela me enxotou; o que fez com que sorrisse, alegremente, como se ela tivesse me dado uma noite com ela, daquelas que causam arrepios no poeta, porque até então era permitido a ele somente imaginar suas pernas. Depois disso, eu jamais amarei novamente. Ela fez de mim uma criança que se maravilha com a terra, é submetida a belas instruções, e reverencia a Deus. Os sapatinhos não são tão charmosos assim. Mas eu amo o jeito como ela brinca com o lencinho. Eu não tenho permissão para vê-la novamente, e ainda assim, estou feliz. Com ela, o meu comportamento era vergonhoso, pois em sua presença eu tremia,apesar de pretender me mostrar seguro de si. Mas terminei tremendo por causa da idiotice do amor, que muito me irritou. Ainda assim, longe dela, eu a acariciei, brinquei com ela, dei cambalhotas como um lunático, um menino bobo. Por quatro anos eu poderia ter sido capaz de esquecê-la, mas tudo voltava de novo. A lembrança dela era encantadora. Eu não fazia ideia do poder que uma garota tinha. Toda a fidelidade, tudo que era bom em mim não era nada páreo às vestes da Primeira e Única. Eu estou animado, como se estivesse diante do início da manhã, apesar de ser meia-noite. Eu escrevo isto, como se estivesse dando para ninguém ler.” Continue Lendo

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O Caderno – Número 63 – 05/2012 – [151-155]

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Não há objetos mortos, duros, limitados. Tudo se difunde para além dos seus limites, permanece apenas um instante numa determinada forma, para deixá-la na primeira oportunidade. Nos costumes, nos modos de ser dessa realidade manifesta-se um certo princípio – o da pan-mascarada. A realidade reveste-se de certas formas apenas para fingir, para brincar, para se divertir. Alguém é um homem, alguém é uma barata, mas essa forma não atinge o essencial, é apenas um papel assumido por um momento, apenas uma epiderme, que logo será tirada.(…) A vida da substância consiste no gasto de inúmeras máscaras. Essa migração das formas é a essência da vida. (…)

Trechos da carta de Bruno Schulz a St. I. Witkiewicz de 1935. BN, 443

O Caderno

Em meio ao esfarelar das horas alguém revirava a estante. Mãos mergulhavam de cima à baixo traçando um movimento de inércia inconstante como quem retira as pedras de uma ruína há muito esquecida. Lá jaziam páginas e mais páginas da memória humana, letras submersas e destituídas de qualquer função prática; por isso permaneciam estáticas, ressequidas pela ferrugem e pelo mágico anelo das teias. Os dedos logo ficavam pretos de tanta tintura velha. Bastou um sopro para as imagens desembaraçarem seus grilhões, levantando as asas numa simplicidade muito nostálgica. Foi assim que, repentinamente, um caderno azul se materializou cor. O azul forte da capa com um estilo jovial, adquirido por inteiro desejo de sua mãe para as aulas escolares, fez com que nele se agitassem dias remotos quando apoiava o cotovelo na beira da mesa e se debruçava sobre aquela relva de folhas alvas, inoculando-as de letras e garranchos.

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A gruta – Número 55 – 04/2012 – [71-73]

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Querida irmã,

se o seu coração estiver cheio a tal ponto de não conseguir se expressar verbalmente, então escreva! Todos aprendem a escrever a fim de confiar seus pensamentos no papel. Você poderia escrever cartas. Cartas são bons e verdadeiros livros.

Escrever não é inventar algo que nunca tenha ocorrido. Escrever é contar algo sobre a sua vida. Mas não meramente como quem adiciona eventos em sequência. Você deve ter algo a dizer que lance luz sobre um aspecto da vida. A arte da escrita consiste em ordenar impressões, memórias e experiências, em deixar de lado as coisas sem importância, enfatizando as mais importantes. Você sabe o segredo que há entre a minha vida e a sua? Nós fomos apenas uma das muitas crianças de nossos pais. Nós não fomos bem quistos por sermos supérfluos. (…)

Nós colocamos pessoas em hospitais psiquiátricos para não nos preocuparmos com o que temos dentro de nós. Esse é o nosso destino, o destino de quem escreve: expor a alma aos poderes que existem. (…) Sua vida é rica de experiências e só você pode revelá-las. A vida tem três períodos: infância, juventude e as experiências no mundo. Cada um é um livro em si mesmo. Não tente revelar seus problemas aos amigos pois eles somente irão falar sobre eles mesmos. Acredite apenas no papel e na escrita.

Seu amigo,
August”

Carta de Strindberg à Elizabeth em 1882.

A Gruta

“O assobio do trem irrompe no equinócio dos mundos, espalhando um grito estridente, como a de um gato quando pisamos em seu rabo. Desperta a paisagem sossegada nas sombras desconhecidas que algum homem revela, para seu melhor conforto, através de uma lamparina à óleo sustentada por um par de dedos sobranceiros. Ela parece oscilar a lentidão de um tempo primitivo. Continue Lendo

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