Maio

O Caderno – Número 63 – 05/2012 – [151-155]

Este Breviário em PDF

Não há objetos mortos, duros, limitados. Tudo se difunde para além dos seus limites, permanece apenas um instante numa determinada forma, para deixá-la na primeira oportunidade. Nos costumes, nos modos de ser dessa realidade manifesta-se um certo princípio – o da pan-mascarada. A realidade reveste-se de certas formas apenas para fingir, para brincar, para se divertir. Alguém é um homem, alguém é uma barata, mas essa forma não atinge o essencial, é apenas um papel assumido por um momento, apenas uma epiderme, que logo será tirada.(…) A vida da substância consiste no gasto de inúmeras máscaras. Essa migração das formas é a essência da vida. (…)

Trechos da carta de Bruno Schulz a St. I. Witkiewicz de 1935. BN, 443

O Caderno

Em meio ao esfarelar das horas alguém revirava a estante. Mãos mergulhavam de cima à baixo traçando um movimento de inércia inconstante como quem retira as pedras de uma ruína há muito esquecida. Lá jaziam páginas e mais páginas da memória humana, letras submersas e destituídas de qualquer função prática; por isso permaneciam estáticas, ressequidas pela ferrugem e pelo mágico anelo das teias. Os dedos logo ficavam pretos de tanta tintura velha. Bastou um sopro para as imagens desembaraçarem seus grilhões, levantando as asas numa simplicidade muito nostálgica. Foi assim que, repentinamente, um caderno azul se materializou cor. O azul forte da capa com um estilo jovial, adquirido por inteiro desejo de sua mãe para as aulas escolares, fez com que nele se agitassem dias remotos quando apoiava o cotovelo na beira da mesa e se debruçava sobre aquela relva de folhas alvas, inoculando-as de letras e garranchos.

Continue Lendo

Tagged

A Mais Absurda das Contradições: (Variações a partir de um tema de Pierre Clastres) – Número 62 – 05/2012 – [142-150]

Este Breviário em PDF

No mundo, há coisas; e dentre as coisas do mundo, havemos, nós. Não menosprezemos estas duas afirmações, pois delas derivam os maiores problemas da existência. Não há problema no mundo sem o Ser, pois tudo o que pode haver não o pode senão para nós. E o “para nós” sempre há de ser um problema anterior aos que podemos achar ter encontrado. A essência das coisas pode existir na realidade, mas o que nos importa sempre serão as instituições que inventamos a partir das várias impressões que delas – das coisas – podemos ter. Continue Lendo

Tagged

Notas sobre a revisão do Código Florestal e a questão agrária – Número 61 – 05/2012 – [130-141]

Este Breviário em PDF

Não se pode compreender a recente e intrincada discussão em torno da revisão do Código Florestal brasileiro sem uma informação, ainda que sucinta, sobre a trajetória do desenvolvimento da agricultura no país.  O ponto chave para a compreensão deste processo histórico é a política empreendida pelo regime militar, que no final dos anos 1960 suprimiu as possibilidades de articulação entre o reformismo agrário e a democratização do país e agiu seletivamente em torno de políticas de capitalização da grande propriedade rural e da ocupação das terras de “fronteira”. Esta verdadeira “empresa política” dos militares possibilitou, por meio de farta oferta de crédito subsidiado, a conversão de boa parte do antigo latifúndio em empresas capitalistas no campo integradas aos circuitos de acumulação agroindustriais. De patinho feio nos projetos de industrialização, a agricultura alcançaria destaque, recebendo novos estímulos durante as crises de balanço de pagamentos nas décadas de 1980 e 1990, com o objetivo de retomar seu “drive exportador”. Decisivo no resultado alcançado foi também o papel desempenhado pela Embrapa, empresa pública de pesquisa voltada à agricultura que desenvolveu o conhecimento e as técnicas necessárias ao cultivo nas regiões do Cerrado, expandindo a “fronteira” agrícola. Continue Lendo

Tagged

Ceticismo e a Possibilidade do Conhecimento, de Barry Stroud – Número 60 – 05/2012 – [123-129]

Este Breviário em PDF

Tradução: Rodrigo Pinto de Brito e Alexandre Arantes Pereira Skvirsky

O ceticismo na filosofia recente e atual representa uma certa ameaça ou desafio em teoria do conhecimento. Qual é esta ameaça? Quão séria ela é? Como, se possível, ela pode ser superada? Quais as consequências se não puder ser superada? Continue Lendo

Tagged

I Colóquio sobre Ceticismo: 10 anos do Laboratório de Estudos Hum(e)anos

Tagged