O Caderno – Número 63 – 05/2012 – [151-155]

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Não há objetos mortos, duros, limitados. Tudo se difunde para além dos seus limites, permanece apenas um instante numa determinada forma, para deixá-la na primeira oportunidade. Nos costumes, nos modos de ser dessa realidade manifesta-se um certo princípio – o da pan-mascarada. A realidade reveste-se de certas formas apenas para fingir, para brincar, para se divertir. Alguém é um homem, alguém é uma barata, mas essa forma não atinge o essencial, é apenas um papel assumido por um momento, apenas uma epiderme, que logo será tirada.(…) A vida da substância consiste no gasto de inúmeras máscaras. Essa migração das formas é a essência da vida. (…)

Trechos da carta de Bruno Schulz a St. I. Witkiewicz de 1935. BN, 443

O Caderno

Em meio ao esfarelar das horas alguém revirava a estante. Mãos mergulhavam de cima à baixo traçando um movimento de inércia inconstante como quem retira as pedras de uma ruína há muito esquecida. Lá jaziam páginas e mais páginas da memória humana, letras submersas e destituídas de qualquer função prática; por isso permaneciam estáticas, ressequidas pela ferrugem e pelo mágico anelo das teias. Os dedos logo ficavam pretos de tanta tintura velha. Bastou um sopro para as imagens desembaraçarem seus grilhões, levantando as asas numa simplicidade muito nostálgica. Foi assim que, repentinamente, um caderno azul se materializou cor. O azul forte da capa com um estilo jovial, adquirido por inteiro desejo de sua mãe para as aulas escolares, fez com que nele se agitassem dias remotos quando apoiava o cotovelo na beira da mesa e se debruçava sobre aquela relva de folhas alvas, inoculando-as de letras e garranchos.

O ruído dos anos atravessados pelo roçar da folha sobre o metal espiralado era inestimável aos seus ouvidos. A estrutura das páginas seguia um ritmo específico quando o então copista procurava repetir os sinais sagrados profeciados pelo professor de Português. Sim, era um caderno de português e redação que continha informações imaculadas por um homem de pêlos másculos e bigode engraçado. É fato que não chegara a conhecê-lo pessoalmente e que para muitos sua existência residiu naqueles momentos quando,segurando o bigode com a boca, oscilava a caneta pelas provas e boletins. Usava sempre camisa Polo e uma careca invejosa sobre a cabeça. Às vezes brincava mais do que necessário com algumas meninas, porém isso não empobrecia a didática respeitosa e séria das olheiras esguias, dos braços que às vezes se agitavam como penas fofas.

 

Autorretrato de Bruno Schulz

O indivíduo que segurava o caderno não sabia como aquelas páginas antes tão frescas de estátuas de bronze passaram anos adormecidas como um corpo carbonizado pela chama.

Com alguma paciência era possível testemunhar frases que rebolavam as sombras de seu próprio universo, naquele tempo das peregrinações. A mão que agora estirava a leitura sobre a solitária luminária da cabeceira, impregnando-a de rodelas sujas, não era a mesma mão pois desconhecia aquele itinerário ingênuo de beato sem causa. Fechando os olhos e deslizando o indicador e o polegar pelas feridas emudecidas das folhas, sentia o tempo nas colorações do leito sossegado, cuja fricção violenta possibilitou outrora o sucumbir daquele caderno àquelas inscrições inférteis e sobranceiras. Dificil acreditar como,nas tardes serenas pós-recreio, gostava de deslizar o pulso – ainda cheirando a requeijão – pelo caderno,cheio de energia, até transplantar todo o conteúdo do imenso quadro negro às custas de um enorme cansaço.
Retirada a pele do infante, uma outra transparece,tão viva e enigmática quanto o último dia em que o caderno precisou ser aberto e o professor aparecer em sala de aula. Pequenos exemplos pareciam dilapidar uma tortuosa saga passada pelo homem de bigode, que resistia sob o estandarte de um poema sem jeito.

Quase nunca faltava. Chegava em sala de aula com aqueles braços e mãos cobertas de giz e, levantando o bigode na projeção do nariz imenso, agitava braços como varinhas, ainda que os dentes lhe apodrecessem a aparência e a idade pesasse a face. Trazia um anel de noivado em uma das mãos, isento de esplendor, que fazia questão de exibir às freiras e padres daquele lugar. E como se divertia naquelas ocasiões!

Vivia reclamando por algo às escuras e sabia muito bem esconder suas amarguras no miolo das frases. Na paisagem de seus exemplos, o recheio vinha carregado de obscura melancolia, como nas pinturas de Adolph Menzel, seja nos dias chuvosos em Petrópolis ou no algo que se perdeu. Às vezes ele se soltava e tentava incrementar algo mais bonito, porém repetia-se prenhe de tempestades camufladas; algo que o jovem copista na época nunca se atentara, afogado no contexto e seriedade dos deveres. Certa vez, um pouco mais acordado, avistara no braço esquerdo uma tatuagem querendo sair pela manga da camisa. E um pouco acima, um músculo montanhoso que certa vez vira flexionado para as meninas adoradoras de abacates.

Não havia dúvida de que gostava de sentir-se jovem e revigorado, mas algo entre o ir e o vir costumava minguá-lo de uma maneira bastante estranha.

Passava as tardes ora no parapeito estudantil ora encolhido a caminhar pelo pátio, sozinho, com o pensamento debaixo dos braços e um copo de café nas mãos, em passos cada vez mais langorosos e apertados por aqueles sapatos que mais pareciam botas. Quando um padre passava próximo a ele,sorria como quem tivesse engolido um peixe inteiro de uma só vez. Depois sua boca sumia, permanecendo apenas os olhos vazios.

Os dias passavam sob uma mesma afinação de corda até o sinal tocar. Ele ainda permanecia por algum tempo arrumando sua pasta preta e a morder o mindinho. Quando se erguia da cadeira, fechava-se em seu bigode e, com a cabeça baixa, com as golas soçobrantes da camisa Polo, se retirava em silêncio, com o único intuito de estrebuchar seu mal-estar nos corredores vazios, após verificar de lado a outro se alguém o seguia. E alguém estava o seguindo, realmente. Via o quão demorava no banheiro, ensaboando os dedos, passando o papel higiênico umedecido no rosto, endireitando as gravatas das olheiras.

Como educador, deixara depositado algo muito humano naquelas frases pequenas e didáticas,agora espalhadas em não sei quantos cadernos e estantes ao redor do bairro. O professor e o aluno partiram, esconderam-se nas folhagens da vida para nunca mais se verem. Ele provavelmente não sabe, mas alguém ainda o seguia de perto como se nunca tivesse partido completamente.

Inspirado em “O Livro” de Schulz, cujos excertos reproduzimos abaixo

O LIVRO

Costumo chamá-lo simplesmente o Livro, sem qualquer definição ou adjetivo, e, nesta sobriedade e autolimitação, há um suspiro impotente, uma capitulação silenciosa diante da vastidão do transcendente, porque não existe palavra, não existe alusão, que possam reluzir, emitir um perfume, escorrer num frêmito de susto, num pressentimento do que não tem nome, mas cujo primeiro sabor na ponta da língua ultrapassa a capacidade de nosso deslumbramento.

(…)

O Livro (…) Nalgum lugar, no amanhecer da infância, na primeira alvorada da vida resplandecia o horizonte de sua luz amena.

(…)

Inclinado sobre este Livro, de rosto flamejante como o arco-íris, eu ardia em silêncio entre um e outro êxtase. Ao mergulhar na leitura esqueci-me do almoço. A intuição não me enganou:era o Livro verdadeiro, original sagrado, embora numa humilhação e degradação profundas. E quando ao anoitecer, sorrindo prazerosamente, colocava a papelada numa gaveta mais profunda, cobrindo-a, para disfarçar, com outros livros, parecia-me que estava colocando o arco-íris, que sempre se acendia de novo, passando por todas as chamas e púrpuras, e voltava mais uma vez, sem querer acabar.
Quão indiferente fiquei agora aos outros livros!

Porque os livros comuns são como meteoros. Cada um tem o seu único momento, o momento em que ergue, com um grito, o seu vôo, feito fênix, ardendo em todas as suas páginas. Por causa de um momento desses, por esse único instante, depois nós os amamos, embora já não sejam mais do que cinza. E às vezes, à noite, passamos por suas páginas frias, movendo, como um rosário, com um ruído de madeira, suas fórmulas mortas.

Os exegetas do Livro afirmam que todos os livros aspiram ao Livro verdadeiro. Eles vivem apenas uma vida emprestada, que no momento de ascensão retorna à sua antiga origem. Isto significa que o número de livros diminui, enquanto o Livro verdadeiro cresce.

(…)

Então,a época genial existiu ou não? É difícil de responder. Sim e não. Porque há coisas que não podem acontecer totalmente, até o fim. São grandes e magníficas demais para caber num acontecimento. Elas tentam acontecer, elas só verificam se o solo da realidade as aguenta. E logo recuam, com medo de perder a sua integridade na deficiência da realização.

(…)

Aqui ocorre o fenômeno da representação e da existência substitutiva. Um acontecimento pode ser,devido à sua origem e seus próprios meios, pequeno e pobre, no entanto, junto ao olho, pode abrir em seu interior uma perspectiva infinita e radiante, porque o ser superior tenta exprimir-se nele e brilha nele violentamente.

Assim, vamos recolher essas alusões, essas aproximações terrestres, essas estações e etapas dos caminhos de nossa vida como fragmentos de um espelho quebrado. Vamos recolher, pedaço por pedaço,aquilo que é uno e indivisível: a nossa grande época, a época genial da nossa vida.

(…)

Será que podemos arriscar a viagem à época genial?

Passamos o nosso medo ao leitor. Sentimos seu nervosismo. Apesar das aparências de animação, nós também temos peso no coração e estamos cheios de angústia.

Portanto, em nome de Deus – entremos, e vamos embora!

***
Filippi Fernandes

About Filippi Fernandes

Graduado em História na UFRJ, atuo como pesquisador e auxiliar na área de cinema mudo. Algumas cartas na manga para o mestrado, desta vez em Música (musicologia). Participo da curadoria de um cineclube localizado no subúrbio carioca. Escrevo compulsivamente desde os quinze anos, por não conseguir expressar de outra forma o que me vai no fundo e é urgente. Tenho um livro juvenil publicado “Frutos do Destino”, mas nunca computado.

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