A Rosa Amarelo-Púrpura – Número 79 – 11/2012 – [305-308]

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“A Primeira e Única

Ela, a cujos poemas eram endereçáveis; ela,cuja importância é notável, que não escreve poemas apesar de servir como significativo poema ao poeta – eu a conheço. Se alguém a lança gracejos, fica atônita. Eu já declamei para ela, mas nada que me satisfizesse. Ela me enxotou; o que fez com que sorrisse, alegremente, como se ela tivesse me dado uma noite com ela, daquelas que causam arrepios no poeta, porque até então era permitido a ele somente imaginar suas pernas. Depois disso, eu jamais amarei novamente. Ela fez de mim uma criança que se maravilha com a terra, é submetida a belas instruções, e reverencia a Deus. Os sapatinhos não são tão charmosos assim. Mas eu amo o jeito como ela brinca com o lencinho. Eu não tenho permissão para vê-la novamente, e ainda assim, estou feliz. Com ela, o meu comportamento era vergonhoso, pois em sua presença eu tremia,apesar de pretender me mostrar seguro de si. Mas terminei tremendo por causa da idiotice do amor, que muito me irritou. Ainda assim, longe dela, eu a acariciei, brinquei com ela, dei cambalhotas como um lunático, um menino bobo. Por quatro anos eu poderia ter sido capaz de esquecê-la, mas tudo voltava de novo. A lembrança dela era encantadora. Eu não fazia ideia do poder que uma garota tinha. Toda a fidelidade, tudo que era bom em mim não era nada páreo às vestes da Primeira e Única. Eu estou animado, como se estivesse diante do início da manhã, apesar de ser meia-noite. Eu escrevo isto, como se estivesse dando para ninguém ler.”      

Robert Walser

Escrito entre 1924-25 na folha de rosto do seu livro “Poemas” (1919) in “Speaking to the Rose: Writings, 1912-1932” p. 33 

“The One and Only

She to whom poems are addressed, who is significant, who writes no poems but is a poem significant to a poet — I know her. If one is fresh with her, she shows only glorious astonishment. I have sung her, but not yet to my satisfaction. She chased me off; at which I laughed, happily, as ifshe’d given me a night with her, such as leaves the poet cold, because he has long since been allowed by his imagination to see her limbs. After that, i’ll never love again. She made of me a child who marvels at the earth, is subjected to beautiful instruction, and reveres God. Her shoes are not especially marvelous. But I do love the towel she toys with. I do not have permission to see her again, and yet, if it really should not be so, I’m happy. With her my behavior was shameful, for in her presence I trembled, and I tried to pretend I was superior to her and found this trembling, this love, foolish, and almost detested it. Yet, far from her, I caress her, play with her, caper like a lunatic, a silly boy. For four years I might be able to forget her, then everything would come over me anew. To know this, enchanting. Till then, I had no idea what power a girl has. All fidelity and whatever else is good in me comes to nothing against the vesture of the One and Only. I’m cheerful, as otherwise only in the early morning; but it is midnight. I write this out, as if giving it to nobody to read”

A Rosa Amarelo-Púrpura

Estava enamorado. Na frente de uma floricultura foi quando se deu conta. Os pés avançavam inevitáveis como se calçassem coração, que de tão tinto o pôs logo entrecortando a emoção no ramo. Havia as brancas, vermelhas, amarelas e azuis, cada uma dotada de um rosto específico. As mais claras sorriam oblongas como se serpenteassem muitas vezes no ar. As vermelhas conseguiam destacar-se diretas e pungentes, como estrelas perenes a bombear uma antiga canção com patetismo.

Definitivamente não parecia estar ali, próximo da empresa funerária e do aterro sanitário dos novos prédios em construção, por onde um murmurinho de passos vagueava pela calçada enlameada de chuva e marrom dos capotes e chapéus, o dia ensimesmando a anoitecer depressa.

Toca os espinhos: todos baixos como a crina de um animal asinino. A fragilidade ressoa tão infensa naquele conjunto de cores e carrosséis que nem juntando todo o luto do asfalto conseguiria redimir o cristalino. Tampouco pareciam encubadas: adormeciam juntas como Branca de Neve na água de um balde, vigiadas por um dono, espécie de carcereiro, gigante mal enfadado, que girava um molho de chaves imaginárias enquanto ocupava o tempo com coisa nenhuma. A voz de noticiário, o travesseiro que tinha.

A forma nobre e principesca de como feneciam o encantava. Havia de escolher a que mais se aproximava com a amada em gesto, atitude e sabor. Abelhinha veio e procurou, a cada batida do amor, o tampão de sua paixão. Encontrou, como se descarrilhasse, a amarelinha aninhada às vermelhas. Ao aproximar o nariz do botão exalou intimidades, fragrâncias nectarínicas que vinham do centro e se ramificavam nas narinas. O amarelo listrado das espigas. Sim, era a própria.

Paga o sonho e voa pela porta à fora segurando-a com alento junto ao peito. Segurava ainda que se sentisse segurado, como se ela sobrevoasse por si, ele acompanhando ela, apenas. Ao aterrissar, esconde-a imediatamente sobre o casaco puído com um zelo quase maternal. Passa pela recepção. Nada como a força do hábito para vendar o segredo tão seu. Ela se embarasta pela camisa como se deitasse sobre um lençol quente. Seu presente estava ali, naquele lado do corpo.

Um par de olhos cor de rubi salta a cena. Tinha a boca fina e pele de praia salitrada. A sensação de leveza juvenil a qual nenhum vestido conseguia superar e os sapatinhos lilás, como a presença solar. Ele sabia bem daquele arrepio, só não sabia se negociar. De fato, nunca manejou bem as misteriosas transações afetivas, sabendo proferir só os recortes de jornais, sensações consolantes. Lia bastante a respeito, conhecendo estrofes de poemas amorosos de cor e passagens de filmes onde o afeto se fazia presente, no momento da deflagração, como estímulo para o braço da vontade. Mas por fim, nunca viola a fronteira da proteção. É aí que a coisa estanca e faz galhos antes do tempo. Ele e ela, separados, conversando como pessoas que nunca se tocaram sequer em presença. Mesmo quando isolados a dois na copa durante a lavagem dos talheres e louças usadas no almoço, ela poucas palavras desfraldava, remexendo as franjas do vestido que ele,encostado à parede, observava; as pernas mais ao fundo de eriçadas penugens. Mas ela quiçá o olhava. Era capaz de pedir licença para passar quando finalizava o serviço. Quando ocorria de permanecer alguns segundos a mais tête-à-tête, volvia rápido a cabeça ao sentido original, profunda fugitiva. Imaginou, por vezes, Gabriela, aquele nome tão acortinado, permeando os arredores do escritório, salteando palavras doces no ar e ele retribuindo as bênçãos no pescoço, animado com a chama, à revelia da antiga companheira: a melancolia. Ele agarrando com as mãos aquela cintura quando permanecia na copa, num calor serotoniano da abundância imantada. Mas o que amava exatamente nela? Talvez estivesse vendo demais…ou talvez estivesse morrendo demais. Matutava, neurótico, o desejo ás escondidas. A flor debaixo do casaco puído.

No escritório, rega e apronta o jardim para o desvelo imediato que o faz esquecedor do mundo. Gaguejaria naquele instante se a pergunta mais fácil fosse proferida. O amor vive a comer, como um poeta diz.

Débil, sobretudo débil no que tange ao nó górdio dos acortinados, uma poça que não retrocede mesmo que rache, abra cratera.

A mão da noite se faz presente e a oportunidade antes adiada, se torna imperiosa à partir da estrutura metálica dos ponteiros que cortam e separam como ninguém.

Está em fuga o tempo. Está em fuga e já lhe falta espaço para simetria.

Ele decide por levantar a aba do instante para, depressa, esgueirar-se sobre a mesa dela um papel minúsculo escrito o mais legível possível.

“Seu admirador secreto. 

P., aquele que não consegue ser rosto, sem deixar de ser coração” 

Seu nome J., mas no entanto P. no papel recortado. A corda se esticando sobre o corredor escuro.

Parte em retirada.

Ao amanhecer, chega e encontra o retrato dela na carteira de um amigo. Diz que se amam, mordendo o lábio inferior.

Ele sorri só as dobras da boca, apesar dos olhos caírem. Levanta de leve o chapéu e sai.

Retira a flor da vasilha e a põe dentro do casaco. E a partir de então passa a observar os dois, como osso de uma mesma carne. Faz isso até a despedida, pétala por pétala.

“…sem saber…que o sempre…sempre acaba”, se ouve baixinho.

Mas não havia acabado. Estava decididamente enamorado para qualquer derrisão. A sua satisfação começava logo de manhã cedo ao reencontrar o solo fofo com a sola dos pés. Um salto a mais e isso bastava.

***
Filippi Fernandes

About Filippi Fernandes

Graduado em História na UFRJ, atuo como pesquisador e auxiliar na área de cinema mudo. Algumas cartas na manga para o mestrado, desta vez em Música (musicologia). Participo da curadoria de um cineclube localizado no subúrbio carioca. Escrevo compulsivamente desde os quinze anos, por não conseguir expressar de outra forma o que me vai no fundo e é urgente. Tenho um livro juvenil publicado “Frutos do Destino”, mas nunca computado.

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