Crítica de Arte

Passagens Atlânticas de Leandra Lambert – Número 150 – 06/2017 – [62-63]

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incapaz de não se expressar em pedra
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso

João Cabral de Melo Neto in: _ A Educação pela Pedra

1. Esta exposição foi pensada para ser vista imersa em textura sonora. Entre cortes de composição musical e mais os rumores confusos da vida comum. A questão é a da continuidade nem sempre harmônica entre o som e a imagem. Daí Lambert montar usando ruídos como pequenos átomos a grudarem nas imagens e nos objetos como o faz a luminescência. Por isso deve o contemplador se colocar em tal passividade, atendente aos grânulos de som a pousarem sobre o arco de fotografias e objetos que se desenha diante dos olhos. Continue Lendo

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A Insistência Abstrata, nas coisas – Número 148 – 05/2017 – [55-57]

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1. A escrita sobre arte é epistolar. Ela se inicia com o ímpeto de descrever uma obra de arte para quem dela não pode ter experiência direta. É a narrativa sobre a coisa para quem dela está longe. Se no começo a vontade era a de dar proximidade para quem estava fisicamente distante. Ora, rapidamente se percebeu que a questão era a de aproximar de forma singular aquele que da obra podia estar próximo ou afastado. Apesar desse ajustamento, algo nunca foi alterado, a descrição da obra deveria se dar com atenção desmesurada, de tal forma a impor à linguagem práticas desconhecidas, assemelhada ao modo como um surdo observa os movimentos labiais ou um cego percebe a extensão de um ambiente. Continue Lendo

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Manoel de Barros ou nas Mínimas Expressões está Toda Poesia – Número 142 – 01/2017 – [02-14]

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Os versos de “No meio do caminho”, poema de Carlos Drummond de Andrade que apareceu publicado primeiro numa edição da Revista de Antropofagia e dois anos depois, em 1930, foi incluído no volume Alguma poesia, inaugura – se não, renova – o tema da expressão mínima e vulgar como objeto original e propiciador do poético, efeito sempre condicionado a elementos de natureza sublime que outros poetas desde sempre tiveram ou designaram como ato epifânico, devaneio, sonho, resultado da inspiração, produto de um exercício tecnicamente elaborado. Evidentemente que a afirmativa sobre o poema do poeta mineiro não esquece os feitos de outros poetas. Dez anos antes, Manuel Bandeira já havia abalado a condição quase-sagrada da poesia com os também muito conhecidos versos de “Os sapos” – este é só um exemplo. Continue Lendo

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Sra. Dalloway: um breve ensaio – Número 134 – 06/2015 – [48-56]

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Introdução

Caso fossemos inserir as obras de Virginia Woolf em uma corrente literária, qual poderia ser? Seria possível classificarmos em algum lugar comum os modelos de Woolf, estes que chegam a extrapolar as dimensões de um mero romance?

Certa vez, Ernest Heminway escreveu em um de seus livros:

Todos os bons livros se parecem como se eles fossem mais reais do que se tivessem acontecido de verdade.[1]

Decerto, as obras literárias de Virgínia Woolf, em especial a obra a ser examinada (Sra. Dalloway), figuram na categoria “bons livros”. Não há como negar isto na precisão como ela desnuda seus personagens, digo, como eles se auto-desnudam por meio dela. Deste modo, Woolf tem o papel apenas de agenciar os monólogos interiores de cada um, polarizando qualidades e vícios com um poder de observação aguda tão evidente como se os pensamentos desvelassem por si suas próprias características. Continue Lendo

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Birdman ou as Dinâmicas da Aceitação – Número 130 – 02/2015 – [13-18]

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Não é fácil aceitar uma piada. Uma piada, para ter que ser aceita, precisa fazer doer. Se não dói é porque não convocou, então a sua presença é indiferente. Há o piadista inofensivo, cujas graças não costumam passar pela aceitação de ninguém. Este opera por intervenções, aclara um sentido, força um trocadilho, e, como todos, tudo o que ele quer é ser aceito. Mas qual a diferença entre este e aquele, cuja piada é difícil de aceitar? Ora, este que quer apenas ser aceito, pouco se importa com a piada, tudo o que ele quer, bem, é ser aceito; se fosse uma negociação, mediante o recebimento da aceitação que deseja, ele prontamente largaria a piada. O outro não, e este é que é o problema, posto querer ser aceito com a piada. Ele quer ser aceito, a piada é parte de quem ele é, e, numa negociação, não sairá vivo, se tiver que largá-la. Continue Lendo

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Abordagens do Infinito, de M. C. Escher – Número 120 – 04/2014 – [37-43]

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Tradução: Rodrigo Pinto de Brito

O homem é incapaz de imaginar que o tempo poderia, por alguns momentos, parar. Para nós, mesmo se a Terra cessasse de girar sobre seu eixo e de revolver-se em torno do Sol, mesmo que não houvesse mais dias e noites, verões e invernos, o tempo continuaria a fluir eternamente. Continue Lendo

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