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Discurso aos Estudantes sobre a Pesquisa em Filosofia – Número 123 – 07/2014 – [54-61]

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Se se trata de discutir pesquisa em filosofia, a pergunta imediatamente nos acode: pesquisa em Filosofia ou pesquisa em História da Filosofia? A pesquisa em História da Filosofia tem sido fortemente desenvolvida entre nós, com profícuos resultados. Um número já impressionante de boas monografias historiográficas foram produzidas por nossos professores e pós-graduados e isso é e deve ser para nós um motivo de orgulho. Estamos fazendo boa História da Filosofia e estamos preparando nossos alunos com seriedade e rigor para serem bons historiadores da Filosofia. Isso não está certamente em questão e creio ser objeto de consenso. Os trabalhos de nossos alunos, os resultados que têm logrado, mesmo durante seu curso de Graduação, o mostram obejamente, e este mesmo encontro, que se está hoje iniciando, é disso a irrefutável prova. Continue Lendo

Thoreau, literatura em movimento – Número 122 – 06/2014 – [50-53]

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Direct your eye right inward, and you’ll find
A thousand regions in your mind
Yet undiscovered. Travel them, and be
Expert in home-cosmography.
Henry David Thoreau – Walden

A história e a literatura dos Estados Unidos têm entre seus elementos constituintes a ideia de movimento; não só como deslocamento, mas também como seu ímpeto em sair de um estado de coisas, potência de fuga diante de qualquer possibilidade fixidez que tolha a liberdade. Identifica-se a experiência do movimento na marcha para o oeste, nas fugas e migrações de negros para regiões mais livres do país, nas febres mineradoras – os americanos sempre vagaram por seu território deliberadamente em busca de melhores condições de vida. Mas também identificamos o movimento nos andarilhos e marginais de William Faulkner, nas migrações de John Steinbeck ou na crônica de viagem de Kerouac. Continue Lendo

Montaigne e o Ensaio – Número 121 – 05/2014 – [44-49]

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The essayist is a combiner, a tireless producer of configurations around a specific object.(…) Configuration is an epistemological arrangement which cannot be achieved through axiomatic deduction, but only through a literary ars combinatoria , in which imagination replaces strict knowledge [1]

Nunca imaginei que escrever sobre Montaigne fosse uma tarefa tão delicada. Certa vez lembro de ter ficado sem entender uma colocação do Borges que situava, na poesia, o verso livre num patamar de elevada complexidade em comparação ao verso clássico, cuja métrica e a rima são regras fundamentais na dança intrínseca da palavra com o sentido. Agora, elaborando este ensaio, entendo-o bem. A liberdade expressa no ensaio, assim como na poesia de verso livre, é um norte mal quisto para aqueles que crêem conhecer determinados conceitos e valores, aos quais um dentro e um fora moldam um ao outro, tal qual o âmbito de amigo e inimigo, no modelo dialético de pensamento. Continue Lendo

Abordagens do Infinito, de M. C. Escher – Número 120 – 04/2014 – [37-43]

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Tradução: Rodrigo Pinto de Brito

O homem é incapaz de imaginar que o tempo poderia, por alguns momentos, parar. Para nós, mesmo se a Terra cessasse de girar sobre seu eixo e de revolver-se em torno do Sol, mesmo que não houvesse mais dias e noites, verões e invernos, o tempo continuaria a fluir eternamente. Continue Lendo

Um outro Gilberto: em torno da modernidade e dos sentimentos por ela despertados – Número 117 – 01/2014 – [02-18]

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No ensaio que segue apresentarei uma análise estrutural de grande parte do pensamento de Gilberto Freyre. Chamo-a desta forma porque minha análise procura argumentar que a trilogia freyriana destina-se à indagação de uma questão persistente talvez em todo o trabalho do sociólogo pernambucano e, busco organizá-la de modo a atribuir o sentido das causas e os possíveis efeitos do fenômeno modernizador na sociologia de Freyre. Na leitura norbertiana que faço de Freyre a modernização consiste num processo de desintegração de elementos culturais originários para o estabelecimento de padrões de comportamento outros. Chamo, influenciada pela leitura do autor pernambucano, de instituições da vida íntima a família, a função social do pai, bem como todas as relações existentes no complexo patriarcal e denomino instituições formais a República, a democracia liberal, o voto. Parto do princípio de que em sua trilogia intitulada Introdução à história da sociedade patriarcal brasileira o autor nos fornece uma imagem do Brasil. Nesta reflexão me interessa resgatar a imagem da sociedade no que tange às suas possibilidades políticas. A premissa da imagem que resgato nessas linhas deriva de artigo publicado em 1987 por Antonio Candido, quando da morte de Gilberto Freyre; nele o célebre crítico literário apresenta a relevância da visão de Brasil trazida pelo sociólogo pernambucano. Casa Grande e Senzala não seria um clássico apenas pelos argumentos que traz à tona para se pensar o país, mas por fornecer uma imagem de cores fortes da experiência nacional brasileira. Freyre foi um sociólogo produtor de sentimentos; discordando-se ou não de seus argumentos, sua interpretação sobre o país provocou sentimentos. E não poderia ser diferente pois sua sociologia se faz orientada por uma tentativa de compreensão de determinados sentimentos, e aqui entendo o termo como o sentido histórico das sensações percebidas no social1. A história das representações intelectuais de nosso país é também uma história dos sentimentos projetados sobre a nação e de uma procura por sentimentos na vida social; um conhecimento que não abre mão de produzir e reproduzir diferentes tipos de carga sentimental. Então, em torno da narrativa sobre a fundação republicana feita em Ordem e Progresso há uma narrativa que visa explicar o sentimento de estranheza despertado pelo episódio político. E uma vez identificado tal sentimento, Gilberto Freyre busca compreender o sentido e as explicações sociais e históricass possíveis para ele. Continue Lendo

O Prólogo de um Experimento – Número 114 – 10/2013 – [166-171]

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Há uma mistura de sentimentos que parece sempre acompanhar – ao menos a mim – o início da relação com algo a ser lido ou escrito; seja quando sou eu mesmo quem escolhe a ordem das palavras a serem lançadas à percepção de outros ou quando é um livro escrito por outro que tenho em mãos. Ainda que a distinção a ser feita entre estes dois momentos salte aos olhos sem muita dificuldade, não parece ser também muito difícil encontrar semelhanças que tornem plausíveis algumas especulações sobre a sua força. Quando se começa a ler um livro desconhecido, e tudo o que se tem são palavras iniciais postas em ordem de forma arbitrária pelo sujeito cujo nome se pode ler na capa, algo que posso chamar de expectativa de captura paira sobre os sentimentos que se anunciam após cada linha passada. Como quem começa um jogo cujas regras estão ainda a ser explicadas, o começo da leitura é sempre um momento no qual, ao perceber vestígios de movimentos que uma mente outrora fez, o leitor pode perceber as reações que a sua mente faz às linhas que se seguem. Isto por si só bastaria como boa justificativa para qualquer leitura. Continue Lendo

O que Sobrou de Junho – Número 111 – 09/2013 – [151-158]

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Though nothing will drive them away / We can be Heroes, just for one day.

– David Bowie, Heroes, 1977.

Talvez estejamos a vivenciar o melhor dos tempos, ainda assim o pior dos tempos, uma idade de sabedoria, mas também de insensatez, uma época de crença e de incredulidade, a estação da Luz e também a estação das Trevas, a primavera da Esperança e o inverno do Desespero. Há tudo à nossa frente, mas também o Nada. Seguimos direto para o Paraíso, porém marchamos ininterruptos à direção oposta[i]. A marcha nasceu direcionada às mais altas aspirações, constantes pedidos por subjetivas mudanças Pro Bono. A oportunidade de algo opaco e amorfo, há muito patologicamente desejado, jaz (ou jazia) a nossa frente, mas, por que não a agarramos? Continue Lendo

Cesar Kiraly

Professor de Estética e Teoria Política no Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense.