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Desde o Princípio, o Feminino como Obsessão Temática em José Saramago – Número 116 – 12/2013 – [184-192]

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Eu estou inventando mulheres ou, talvez, outra forma de ser mulher.

José Saramago

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Há dois instantes singulares na obra de José Saramago em que uma personagem feminina irrompe a malha textual e passa a ocupar o estágio de ponto cardeal no desenvolvimento da narrativa: em Memorial do convento, com Blimunda e em Ensaio sobre a cegueira, com a mulher do médico. Foi nesse último romance que, movido em saber o porquê uma mulher em meio a uma epidemia que vai solapando um a um com uma estranha cegueira não cega, fui à cata de pensar, em primeiro lugar, que as personagens femininas saramaguianas eram dotadas de uma característica que as faziam singulares na sua obra [1]. O contato com outros trabalhos acadêmicos de pequena extensão sobre essa singularidade deu suporte para observar que a constatação já havia perdido seu ineditismo. E é possível mesmo que outros tenham lido melhor sobre esse tema, mas ainda assim, respeitando as particularidades já sondadas pela crítica, me pareceu ainda necessário cumprir um estudo de acurado fôlego que pudesse servir, se não de preenchimento de uma lacuna bibliográfica em torno da obra do Prêmio Nobel da Literatura Portuguesa, de ponto de partida para se pensar outros trajetos de uma trama tão bem urdida por ele – uma trama sobre o feminino. Continue Lendo

Inventário do fragmentado debate sobre reforma política: propostas contrastantes e temor dos efeitos inesperados [1] – Número 115 – 11/2013 – [172-183]

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Hoje, ou nós fazemos uma reforma política e mudamos a lógica da política, ou a política vai virar mais pervertida do que já foi em qualquer outro momento.

Lula, em entrevista concedida a Emir Sader e Pablo Gentili

Desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, não faltaram iniciativas de mudanças nas instituições políticas no Brasil.[2] Em 1992 foi aprovada a antecipação, para 1993, de um plebiscito já previsto sobre qual sistema de governo adotar, mantendo-se o presidencialismo ou passando-se ao parlamentarismo, e mesmo com a possibilidade de se trocar o regime republicano por um monárquico. Mantido o presidencialismo, em 1994 o mandato presidencial foi reduzido cinco de para quatro anos e foram suspensos os efeitos da renúncia dos parlamentares que estivessem submetidos a um processo de cassação. Em 1997 a reeleição consecutiva para o Executivo foi permitida. Todas essas medidas de reforma política se deram por meio de emendas constitucionais. Além disso, foram promulgadas leis regulamentando as eleições, os partidos políticos, os plebiscitos e referendos, a caracterização da compra de voto etc. Continue Lendo

O Prólogo de um Experimento – Número 114 – 10/2013 – [166-171]

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Há uma mistura de sentimentos que parece sempre acompanhar – ao menos a mim – o início da relação com algo a ser lido ou escrito; seja quando sou eu mesmo quem escolhe a ordem das palavras a serem lançadas à percepção de outros ou quando é um livro escrito por outro que tenho em mãos. Ainda que a distinção a ser feita entre estes dois momentos salte aos olhos sem muita dificuldade, não parece ser também muito difícil encontrar semelhanças que tornem plausíveis algumas especulações sobre a sua força. Quando se começa a ler um livro desconhecido, e tudo o que se tem são palavras iniciais postas em ordem de forma arbitrária pelo sujeito cujo nome se pode ler na capa, algo que posso chamar de expectativa de captura paira sobre os sentimentos que se anunciam após cada linha passada. Como quem começa um jogo cujas regras estão ainda a ser explicadas, o começo da leitura é sempre um momento no qual, ao perceber vestígios de movimentos que uma mente outrora fez, o leitor pode perceber as reações que a sua mente faz às linhas que se seguem. Isto por si só bastaria como boa justificativa para qualquer leitura. Continue Lendo

Partidos apartidários ou de mentirinha? – Número 113 – 10/2013 – [162-165]

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Desde quando profetizado o fim da história e com ela da ideologia, em sentido marxista ou não do termo, as democracias contemporâneas esbarram em dificuldades para encontrar caminhos que deságuem em efetivos partidos políticos. Da ambivalência nas percepções marxistas de partidos, do escopo que vai de Lênin a Gramsci, o debate sobre vanguarda, ou caciquismo, e partido de massas, ou oportunismo eleitoral, recai, quase sempre, na difamada ideia de que o número total de partidos formais importa. Mesmo que se concorde com a assertiva, o fato é que não existe fórmula pronta para o que seja ou com quais funções cumpram os partidos. Continue Lendo

Dogmasmático – Número 112 – 09/2013 – [159-161]

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Sem título [René Magritte] – 1967.

“O Homem sabe que ele está no tempo por saber de antemão que irá morrer. A morte é a saída do tempo, como se somente á distância o conhecimento fosse possível”.

Georg Picht in Hier und Jetzt, Philosophieren nach Auschwitz und Hiroshima, Tomo I, Stuttgart 1980, p. 14

“Se víssemos bem o que vimos, seria sempre igualmente conhecido; mas o vemos de maneira totalmente diversa do que é. Assim, os verdadeiros filósofos passam a vida a não acreditar no que vêem, e a tentar adivinhar o que não vêem, condição esta, a meu ver, não muito invejável”.

Bernard de Fontenelle in “Diálogos sobre a pluralidade dos mundos”, p. 48

Roçava o indicador nos lábios, de cima a baixo, de um lado para outro, como se aquilo desse algum prazer secreto. A maciez do pomar, para ele, era a mesma quando deslizava sobre as teclas redondas da máquina de escrever ou os botões da camisa. Era uma mania descaracterizada e ausente, na qual nem as extremidades lhe bajulavam o ego. Faltava aquele fazer crer simplificado, aquela aspereza típica da sujeira – não o negrume denso, carregado, mas a sutileza que proporciona deslizamentos, espécie de atrito reduzido entre as partes. Era assim e não de outra forma que se punha a escrever pensamentos, chamuscações de um coração febril de produção por decantação – um modo complexo de uma mesma e única bajulação. Continue Lendo

O que Sobrou de Junho – Número 111 – 09/2013 – [151-158]

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Though nothing will drive them away / We can be Heroes, just for one day.

– David Bowie, Heroes, 1977.

Talvez estejamos a vivenciar o melhor dos tempos, ainda assim o pior dos tempos, uma idade de sabedoria, mas também de insensatez, uma época de crença e de incredulidade, a estação da Luz e também a estação das Trevas, a primavera da Esperança e o inverno do Desespero. Há tudo à nossa frente, mas também o Nada. Seguimos direto para o Paraíso, porém marchamos ininterruptos à direção oposta[i]. A marcha nasceu direcionada às mais altas aspirações, constantes pedidos por subjetivas mudanças Pro Bono. A oportunidade de algo opaco e amorfo, há muito patologicamente desejado, jaz (ou jazia) a nossa frente, mas, por que não a agarramos? Continue Lendo

PEC 33: poderes e deveres – Número 110 – 08/2013 – [143-150]

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A proposta do presente trabalho é apresentar alguns pontos para reflexão a respeito do conflito político entre os Poderes Judiciário e Legislativo, a partir da aprovação, em abril de 2013, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n. 33/2011, que, em linhas gerais, propõe  debater os limites das súmulas vinculantes e  submeter a deliberação popular, eventuais divergências existentes entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF), nos casos de declaração de inconstitucionalidade de emendas constitucionais. Continue Lendo

Cesar Kiraly

Professor de Estética e Teoria Política no Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense.