Junho

Inventário do fragmentado debate sobre reforma política: propostas contrastantes e temor dos efeitos inesperados [1] – Número 115 – 11/2013 – [172-183]

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Hoje, ou nós fazemos uma reforma política e mudamos a lógica da política, ou a política vai virar mais pervertida do que já foi em qualquer outro momento.

Lula, em entrevista concedida a Emir Sader e Pablo Gentili

Desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, não faltaram iniciativas de mudanças nas instituições políticas no Brasil.[2] Em 1992 foi aprovada a antecipação, para 1993, de um plebiscito já previsto sobre qual sistema de governo adotar, mantendo-se o presidencialismo ou passando-se ao parlamentarismo, e mesmo com a possibilidade de se trocar o regime republicano por um monárquico. Mantido o presidencialismo, em 1994 o mandato presidencial foi reduzido cinco de para quatro anos e foram suspensos os efeitos da renúncia dos parlamentares que estivessem submetidos a um processo de cassação. Em 1997 a reeleição consecutiva para o Executivo foi permitida. Todas essas medidas de reforma política se deram por meio de emendas constitucionais. Além disso, foram promulgadas leis regulamentando as eleições, os partidos políticos, os plebiscitos e referendos, a caracterização da compra de voto etc. Continue Lendo

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O que Sobrou de Junho – Número 111 – 09/2013 – [151-158]

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Though nothing will drive them away / We can be Heroes, just for one day.

– David Bowie, Heroes, 1977.

Talvez estejamos a vivenciar o melhor dos tempos, ainda assim o pior dos tempos, uma idade de sabedoria, mas também de insensatez, uma época de crença e de incredulidade, a estação da Luz e também a estação das Trevas, a primavera da Esperança e o inverno do Desespero. Há tudo à nossa frente, mas também o Nada. Seguimos direto para o Paraíso, porém marchamos ininterruptos à direção oposta[i]. A marcha nasceu direcionada às mais altas aspirações, constantes pedidos por subjetivas mudanças Pro Bono. A oportunidade de algo opaco e amorfo, há muito patologicamente desejado, jaz (ou jazia) a nossa frente, mas, por que não a agarramos? Continue Lendo

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O novo logos e a renovação do crédulo espontaneísta – Número 108 – 07/2013 – [125-132]

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Em 27 de fevereiro de 1989, a Venezuela foi abatida pelo mais dramático episódio de protesto de toda sua história: o Caracazo. Embora tenha como estopim um reajuste nos preços dos transportes públicos, em virtude de uma elevação de 100% no valor dos combustíveis, assim como no tocante aos recentes episódios de eclosão popular observados no Brasil, a magnitude do Caracazo deve ser compreendida como produto de uma escalada de indignação, por parte dos cidadãos venezuelanos, e de violência por parte das autoridades. A análise deste processo, portanto, pode ser útil para entendermos o que se passou, no último mês de junho, quando mais de um milhão de brasileiros foram às ruas em diferentes eventos espalhados pelo país, cuja pluralidade de bandeiras e reivindicações, expressam um difuso descontentamento para com a classe política. Continue Lendo

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As mobilizações de junho, o público e seus problemas – Número 107 – 07/2013 – [121-124]

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Em livro publicado no final dos anos 1920, intitulado O Público e seus Problemas, o filósofo pragmatista americano John Dewey destacava o quanto a ideia de público havia se tornado central no mundo contemporâneo por sua conexão direta com o debate democrático. Afinal, em um contexto marcado pelo predomínio da sociedade industrial – chamada por ele de “Grande Sociedade” –, com seus públicos cada vez mais complexos e plurais, as problemáticas da deliberação e da comunicação pública se convertiam em elementos essenciais para pensar a questão democrática, que não podia mais se reduzir única e exclusivamente à dimensão do voto. Continue Lendo

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As Revoltas de Junho como Ocupação: ou quando os fantasmas se divertem – Número 106 – 07/2013 – [119-120]

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para Sara Ramo Affonso

Acredito que as revoltas de Junho devam ser entendidas como uma forma, bem sucedida em alguns sentidos e frustrada em outros, de ocupação.

Há algum tempo o sentido determinado da ‘ocupação’ havia nos fugido. Digo isso em função do movimento que antecede as revoltas de Junho que é aquele da tomada dos prédios de reitorias de algumas universidade brasileiras, em especial as da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal Fluminense. De certa forma, o que começa lá só se conclui agora. Sim, sabíamos do que se tratava, mas não sentíamos bem, logo a cognição restava incompleta. A ocupação é um fenômeno desagradável, basta que pensemos em um país ocupado por um inimigo. Por mais que se ocupe por amor, e a ambivalência é um dos principais problemas da política, transita-se, nela, pela inimizade e pelo conflito. Continue Lendo

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A Notícia Triste – Número 105 – 06/2013 – [112-118]

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Vamos passear na floresta escondida, meu amor
Vamos passear na avenida
Vamos passear nas veredas, no alto meu amor
Há uma cordilheira sob o asfalto

A Estação Primeira da Mangueira passa em ruas largas
Passa por debaixo da Avenida Presidente Vargas
Presidente Vargas, Presidente Vargas, Presidente Vargas

Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil
Vamos passear escondidos
Vamos desfilar pela rua onde Mangueira passou
Vamos por debaixo das ruas

Debaixo das bombas, das bandeiras
Debaixo das botas
Debaixo das rosas, dos jardins
Debaixo da lama
Debaixo da cama

Caetano Veloso, Enquanto Seu Lobo Não Vem, 1968

 Às exatas 12h e 13m do dia 15 de junho de2013, aâncora responsável de um canal fechado, comentando os acontecimentos ao vivo em Brasília, disse: “é uma notícia triste essa manifestação logo no dia de hoje”. O dia era a estreia da Copa das Confederações no estádio Mané Garrincha, na capital federal, entre Brasil e Japão. Basicamente, as centenas de pessoas descontentes no local carregavam cartazes contra, isso mesmo, contra a Copa. O país do futebol parecia não querer futebol na sua terra. Mas essa é a mais simples das explicações. Na verdade, os manifestantes, àquela altura auto-intitulados novos caras pintadas, estavam contra a aplicação de bilhões em eventos esportivos e pela destinação dos recursos em saúde e educação, de acordo com o mesmo noticiário. Continue Lendo

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Passe Livre e Democracia – Número 104 – 06/2013 – [110-111]

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Duas das principais cidades brasileiras – São Paulo e Rio de Janeiro – viram emergir no início do mês de junho passado mobilização crescente em torno do preço das passagens dos transportes públicos urbanos. A polícia de São Paulo, coerente com suas tradições corporativas, reprimiu brutalmente manifestações na capital paulista conduzidas pelo Movimento Passe Livre. Trata-se da polícia que abriga orgulhosamente as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar – a Rota -, uma das mais sombrias instituições do regime de 1964. A corporação conta, ainda, em seu currículo o massacre do Carandiru, além de inúmeros marcadores de violência contra a população pobre. A polícia carioca, sem qualquer dificuldade, mas sem a competência operacional de sua co-irmã, seguiu o exemplo de brutalidade, e dispensou bordoadas e jatos de gás aos “desordeiros”. Conduzidas por governos de cariz conservador, tais coporações, com imensa facilidade e júbilo, sempre que podem, passam ao ato e acabam por fazer o que fazem de melhor. Continue Lendo

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As jornadas de junho e a hora da política – Número 103 – 06/2013 – [106-109]

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Nos últimos 20 anos o bordão “é a economia, estúpido” foi repetido ad infinitum como explicação para as mais diversas formas de decisão e manifestação política. Afora o mau gosto da expressão que insulta o interlocutor, subjaz ao bordão a tese de que a racionalidade humana não faz outra coisa senão calcular as possibilidades de ganho econômico e aquisição material. Assim, se a economia vai bem, tudo vai bem, sociedade e sistema político inclusos. Quando vai mal, tudo vai mal. Muitos políticos, jornalistas e marqueteiros – para não falar dos próprios economistas – acreditaram piamente nesta tese. Em boa medida orientaram-se por ela, fazendo da gestão do crescimento econômico e das variáveis a ele atreladas – o PIB, o emprego, os juros, o câmbio – o objetivo supremo da atividade política. Mesmo a política social sofreu com a colonização das técnicas economicistas, que impuseram o predomínio de intervenções focalizadas sobre políticas universalistas e estruturantes. Continue Lendo

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