Ceticismo

IV Colóquio sobre Ceticismo

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Notas sobre o Poema ‘A Verdade’ do Marquês de Sade – Número 162 – 04/2018 – [42-51]

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Se quisermos nos dar conta das nossas ideias sobre a divindade, seremos obrigados a reconhecer que, pela palavra deus, os homens jamais puderam designar senão a causa mais oculta, mais distante e mais desconhecida dos efeitos que eles não viam: eles não fazem uso dessa palavra a não ser quando o funcionamento das causas naturais e conhecidas deixa de ser visível para eles. A partir do momento que o seu espírito não pode mais seguir a cadeia, eles resolvem a dificuldade e terminam as suas investigações chamando de deus a última das causas, ou seja, aquela que está além de todas as causas que eles conhecem. Assim, eles nada mais fazem do que consignar uma denominação vaga a uma causa ignorada, na qual sua preguiça ou os limites de seus conhecimentos os forçam a se deter.

Barão de Holbach, Sistema da natureza, II, i.

Instável, violento e depravado, um criminoso internacional vem, mais uma vez, declarar guerra à dignidade humana e à liberdade. Ele é sustentado por uma vasta rede de fieis prontos para servir seu mestre, determinados por beatice cega, outros por oportunismo egoisticamente megalômano. O cérebro terrorista do qual falo chama-se Deus – ou mais precisamente a ilusão coletiva de ‘deus’ que parece não ter servido senão pelos mais repreensíveis espasmos de violência e destruição. […] ‘Deus’, para dizer as coisas mais simplesmente, é uma doença social transmitida exclusivamente pelos humanos. Como uma sífilis não tratada, a crença em um deus leva à demência e à cegueira. Deus é uma projeção alucinatória da miséria do homem, de seu medo e de seu ódio voltando-se contra ele.

Don LaCoss, 9-11 & The Theology of terror.

Ao final de seu ensaio intitulado “O enigma Sade”, Eliane Robert Moraes é categórica quando afirma que “Sade nos obriga a pensarmos”(2006, p. 143). Seguiremos a pista deixada pela autora nesse trabalho reflexivo que empreenderemos sobre o curto poema filosófico A Verdade do marquês, surgido em 1787[?], estruturado em versos alexandrinos e rima emparelhada. Essa peça foi encontrada entre os documentos de La Mettrie, vindo a ser publicado em 1961, de acordo com o manuscrito inédito de Sade. Contudo, um simples coup d’oeil no texto permite perceber que, tanto pelo estilo como pelo conteúdo, o poema é de autoria do marquês, sendo atribuído à La Mettrie por motivos de prudência. Gilbert Lely menciona que “o simples aspecto do manuscrito, corrigido e rasurado, bastaria para identificá-lo como uma verdadeira obra pessoal” (1989, p. 7). Mostrando o quanto o marquês repudia todo e qualquer “corpo doutrinal seja filosófico, moral, social ou religioso” (LEVER, 1998, p. 7) e contendo as principais características do pensamento de Sade, A Verdade, mais do que uma sátira anti-religiosa, mostra um “conhecimento que alarga, querendo ou não, nossa concepção de humanidade.” (MORAES, 2006, p. 156.) Continue Lendo

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daartepoética – Número 160 – 02/2018 – [12-23]

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Tous les arts sont poésies.
(Racine)

No dia vinte e cinco de agosto de 2017, o professor Rodrigo Brito me convidou para o evento “Marginália Filosófica”, então a acontecer na Universidade Federal de Sergipe. Um evento, disse ele a mim, que se pretende itinerante. Aceitei – sabendo que eu não podia escrever um texto convencional para o evento “Marginália Filosófica”. Eu só poderia escrever um texto marginal:

A poética está incompleta. A Poética de Aristóteles está incompleta. Ou seja: a Poética aristotélica está, para sempre, descomprometida – com a completude; descompromissada com o compromisso de ser completa; desobrigada de dizer tudo. Continue Lendo

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A Relatividade Essencial – Número 159 – 01/2018 – [02-11]

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A noção do relativo é essencial a céticos e relativistas. No que concerne à sképsis pirrônica, Sexto Empírico o demonstra nas Hipotiposes Pirrônicas em pelo menos dois lugares: no oitavo “modo” de Enesidemo e na exposição dos cinco modos de Agripa. No oitavo modo Sexto diz ter estabelecido a relatividade de todas as coisas, o que ele toma como condição para poder concluir que somos incapazes de afirmar qual é a natureza ou a essência delas, isto é, o que cada uma é independentemente dos seres que procuram conhecê-las. Nós só estamos, nessa medida, autorizados a discorrer sobre o aparecer delas, o que explicita seu relacionar-se a nós, sua relatividade. Ou como Sexto prefere apresentar essa consideração, nos Modos de Agripa, tanto coisas sensíveis quanto objetos de pensamento são relativos àqueles que têm as impressões ou que desenvolvem alguma atividade intelectual a seu respeito. Continue Lendo

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The Philosophy by the Foot of the Letter – Número 157 – 11/2017 – [116-118]

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Todos podemos pegar as traduções de Millôr Fernandes em The Cow Went To The Swamp e enxergar-lhes o efeito cômico: são ao pé da letra do português para o inglês. No entanto, a julgar por algumas notas e introduções de tradutores acadêmicos lusófonos, a comicidade se só se dá em mão única, e o português tem de aceitar as construções mais artificiais e menos inteligíveis em nome da literalidade. Veja-se que, no Tratado da natureza humana, a frase “Tudo o que é produzido sem causa é produzido por nada” (p. 109) tem uma nota de rodapé aonde lemos que “a frase gramaticalmente correta em português seria ‘Tudo o que é produzido sem causa não é produzido por nada’, mas isso deixaria sem sentido o raciocínio de Hume.” Ora, a ninguém que conheça português pareceria sem sentido o raciocínio de Hume por haver uma dupla negação com sentido de negação. Podemos dizer que não tem nenhum sentido a explicação da tradutora, e ninguém há de depreender dessa nossa dupla negativa que a afirmação tenha algum sentido. Mas o mais preocupante é a noção de que não se pode ser gramatical e filosoficamente correto em português. Como se nossa flor do Lácio fosse tão estranha à philosophia prima e à scientia causarum quanto o chinês ou o basco. Continue Lendo

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Sobre Cabalismo e Filosofia ou Entre Atenas e Jerusalém: Lisboa, Amsterdã, Florença, Recife… – Número 156 – 10/2017 – [104-115]

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Baseado na transcrição da palestra “Introdução ao pensamento de Abraham Cohen de Herrera”, proferida no II SinaCripto, realizado na UFS entre 19 e 21/06/2017.

Y aunque nace tu alegría
viendo a tantos perecer,
sia a muchos lo hiciste ver,
también has de ver tu día.

Si nuestro pecado obliga
a sufrir tanto rigor,
considera que el Señor,
si dissimula, castiga.

Si parece que se olvida
de castigar su enemigo,
es sólo porque el castigo
há de ser más que em la vida.

Si tu arrogancia te alaba
del mal de tantos, advierte,
que así comienza tu muerte
y al outro em ella se acaba.

(João Pinto Delgado, A la salida de Lisboa, circa 1620).

a nau aportará um dia neste cais
vazio sempre mas jamais de passageiros
todos à espera desse algum por tudo incerto
tanto a partida qual também toda chegada
seja amsterdã quem sabe hamburgo ou mesmo o bósforo

ainda recife pode ser constantinopla
onde seremos por demais talvez em rhodes
faremos lá a nossa língua e outras folhagens

(Moacir Amâncio, Matula, 2017, p.23).

Eu queria começar pedindo desculpas porque o título da minha conferência de hoje não diz o que vou fazer aqui. Eu não sabia muito bem o que ia fazer aqui. Só descobri hoje de manhã. E o título é um pouco vago, na verdade, mas o que eu vou fazer aqui é ainda mais vago do que o título.

Pra vocês entenderem um pouco de como a coisa funciona, a pesquisa. Como vocês puderam ouvir aqui na apresentação, o meu trabalho inicial é todo em torno do ceticismo antigo, notadamente a modalidade pirrônica, cujo principal representante é esse autor, Sexto Empírico, que é um médico do séc. II/III d.C. Escreveu uma vasta obra que sobreviveu, e ter sobrevivido é uma exceção para as obras da época. Escreveu em grego e uma das missões de quem trabalha com esse autor – assim eu vejo – é traduzir os textos dele. É o que venho fazendo desde 2011. A relevância disso é que não há textos desse autor traduzidos para o português, apesar de ele ser um dos filósofos mais influentes, cuja leitura é fundacional para aquilo que a gente chama em filosofia de “crise Moderna”, ou Filosofia Moderna, porque os principais autores Modernos que questionavam a tradição Medieval e tentavam estruturar uma nova forma de saber leram Sexto Empírico. Continue Lendo

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III Colóquio sobre Ceticismo

para se inscrever, basta confirmar em: https://www.facebook.com/events/1783226138601125/ ou mandar email com o nome completo para ckiraly@id.uff.br

cartaz_iii_coloquio_ceticismo

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Sexto Empírico e Saussure: um diálogo (de mudos?) entre o cético e o linguista – Número 133 – 05/2015 – [39-47]

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É muito cômico assistir aos gracejos sucessivos dos linguistas sobre o ponto de vista de A ou de B, porque esses gracejos parecem supor a posse de uma verdade, e é justamente a absoluta ausência de uma verdade fundamental que caracteriza, até hoje, o linguista.

(Saussure, 2002, p.104).

Sabe-se que, dentre as obras de Sexto Empírico (séc. II d.C.), nossa melhor fonte do ceticismo pirrônico, apenas três sobreviveram: as Hipotiposes pirrônicas (PH), Contra os dogmáticos e Contra os professores – sendo que essas duas últimas foram posteriormente reunidas sob o mesmo título de Adversus Mathematicos (M). Sabe-se, também, que, em Adversus Mathematicos, Sexto Empírico, pode-se dizer, executa seu exercício cético de ir contra não apenas as três partes da filosofia (ou seja, ele vai Contra os Lógicos, Contra os físicos e Contra os éticos), como, também, dispara seu arsenal cético na direção dos professores das artes liberais, aquelas que eram exercidas pelos cidadãos gregos, homens livres. Assim, Sexto Empírico vai contra os gramáticos, os retóricos, os geômetras, os aritméticos, os astrônomos e os músicos. Continue Lendo

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(Volume 10) O suicídio como forma de ação política e social no ceticismo de Montaigne e Hume

Neste artigo, abordamos o tema da morte explorando as dimensões política e social do suicídio nas filosofias céticas de Michel de Montaigne e David Hume. Não pretendemos identificar os condicionantes naturais, sociais e psicológicos do suicídio, mas investigar a centralidade da morte na definição dos limites da soberania, bem como examinar o sentido cético do suicídio como ato de resistência política.

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