Abril

O Cerco de José Saramago: entre a história e a literatura – Número 96 – 04/2013 – [36-46]

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(A Jangada de Pedra, 1986)

Enquanto puxa para si Joana Carda, que se queixa de frio, José Anaiço tenta não adormecer, quer reflectir na sua ideia, se a história é realmente invisível, se os visíveis testemunhos da história lhe conferem visibilidade suficiente, se a visibilidade assim relativa da história não passará de uma mera cobertura, como as roupas que o homem invisível vestia, continuando invisível

(História do Cerco de Lisboa, 1989)

É evidente que acabou de tomar uma decisão, e que má foi ela, com a mão firme segura a esferográfica e acrescenta uma palavra à página, uma palavra que o historiador não escreveu, que em nome da verdade histórica não poderia ter escrito nunca, a palavra Não, agora o que o livro passou a dizer é que os cruzados Não auxiliarão os portugueses a conquistar Lisboa, assim está escrito e portanto passou a ser verdade, ainda que diferente, o que chamamos falso prevaleceu sobre o que chamamos verdadeiro, tomou o seu lugar, alguém teria de vir contar a história nova, e como.

(Caim, 2009)

Quando a criança viesse ao mundo seria para toda a gente filho de noah, e se ao princípio não iriam faltar as mais justificadas suspeitas e murmurações, o tempo, esse grande igualador, se encarregaria de limar umas e outras, sem contar que os futuros historiadores tomariam a seu cuidado eliminar da crónica da cidade qualquer alusão a um certo pisador de barro chamado abel, ou caim, ou como diabo fosse seu nome, dúvida esta que, só por si, já seria considerada razão suficiente para o condenar ao esquecimento, em definitiva quarentena, assim supunham eles, no limbo daqueles sucessos que, para tranqüilidade das dinastias, não é conveniente arejar. Este nosso relato, embora não tendo nada de histórico, demonstra a que ponto estavam equivocados ou eram mal-intencionados os ditos historiadores, caim existiu mesmo, fez um filho à mulher de noah, e agora tem um problema para resolver, […] como já sabemos, a história oficial nem sequer irá dedicar uma linha.

Da introdução

A apresentação deste trabalho é uma provocação. Esta, entretanto, bem intencionada. Todas elas pertencem ao escritor português José Saramago, possivelmente um dos autores mais reconhecidos na literatura contemporânea, e estão contidas em livros que compõem sua obra, separados por um período de tempo aproximado de vinte anos. A distância temporal tem o objetivo de demonstrar o quanto questões relativas à história – em especial a dita científica – fazem parte do universo de preocupações de um romancista, tema que de modo geral não os apela tanto quanto reflexões mais abstratas, como a do próprio tempo. Continue Lendo

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O Deus da Ficção e a Ficção de Deus – Número 95 – 04/2013

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Humanismo e Literatura em Burke e Marx – Número 94 – 04/2013 – [31-35]

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Pode-se dizer que as filosofias políticas de Edmund Burke e Karl Marx, em linhas muito gerais, simbolizam ideias antagônicas – conservação e progresso. A escolha de autores tão distintos, porém, não é mero capricho, serve a um propósito bem definido: realçar, no interior do contraste entre ambos, aquilo que chamarei de “concepção literária da política”. Existem notáveis exemplos de interpretações políticas cujas fontes são poetas e escritores tout court, sendo o inverso também verdadeiro, mas a ideia principal deste ensaio consiste em considerar a possibilidade de as autorias política e literária se apresentarem de forma indissociável. Creio haver, em Burke e Marx, elementos de composição literária na raiz de suas obras políticas. Certa sensibilidade aguda de narrativa, com tons pessoais, impressões e juízos típicos da escrita literária e, mais especificamente, do Romantismo. Preocupações de ordem estética e de manipulação sintática e semântica figuram, em suas obras, não como ornamentos textuais, mas como estruturas textuais. Deterei-me um pouco nas particularidades de cada um, para que essa proposição não soe por demais generalista. Ao final do ensaio, tratarei de expor essas características, comuns ao estilo de ambos os autores, e que papel ela parece representar no panorama mais amplo da filosofia política. Continue Lendo

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O Moinho da Dúvida Sistemática – Número 93 – 04/2013 – [26-30]

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O verdadeiro filósofo, dizem-nos muitas vezes, duvida de tudo que não se possa provar a partir de premissas absolutamente seguras. A filosofia começa com a dúvida, normalmente sobre certas proposições teológicas ou morais que até então ocuparam o posto de crenças; se for perseguida sistematicamente, levará o devoto a duvidar, por sua vez, da existência da consciência, do espaço, das relações, da lógica, do mundo externo, e da mente de outras pessoas, e este ceticismo pretensamente abriria o caminho para o conhecimento verdadeiro.

Mas, no altar da razão pura, agora tão pura de modo a estar vazia, encontramos uma nova doutrina tão fácil de formar quanto outra; podemos provar para a nossa própria satisfação, de acordo com nossas inclinações, a certeza completa do Espírito, ou da Matéria, ou de Categorias Lógicas, Mônadas, Egos, Essências, Impulsos Vitais, ou do Absoluto; entretanto, a prova mais convincente das nossas realidades não irá prevenir uma próxima pessoa de duvidar de todo o produto, efetuando as mesmas acrobacias mentais do ceticismo e da introspecção e da prova, e chegando a resultados diferentes. Todo pensador deve começar do começo não apenas do seu problema específico, mas do terreno inteiro do conhecimento. E, à medida que o conjunto de entidades estranhas aumenta, a empreitada de abertura de caminho torna-se cada vez mais onerosa, pois há mais e mais coisas cujas existências devem ser refutadas. Tudo que é possível de ser posto em dúvida deve sê-lo; e o pesquisador realmente honesto, percebendo que todos os filósofos antes dele foram lançados ao descrédito por muitas pessoas competentes, torna-se cauteloso, por fim, de acreditar em qualquer coisa, pois, não mais está satisfeito com a “autoevidência” de seus pressupostos. Ele refuta suas próprias ideias, e, finalmente, depara-se com a escolha entre manter crenças dogmáticas cegas, ou crença nenhuma – entre o ceticismo e a fé animal. Continue Lendo

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