Sobre otários e vigaristas: perseguindo um tema em John Searle e Edgar Allan Poe – Número 85 – 12/2012 – [324-330]
Wang Li faz passar algumas pranchas por baixo da porta de um quarto fechado. Cada prancha traz impresso um caractere da escrita chinesa e, juntas, formam uma pergunta que pode ser assim traduzida: Quem é Charles Dodgson? José, dois arquivos e um manual estão no quarto. Continue Lendo
Uma sala de aula é um lugar luxuoso – Número 83 – 12/2012 – [320-321]
Natalia Makarova foi uma exuberante bailarina russa, que fez carreira no nova-iorquino American Ballet Theatre e no londrino Royal Ballet, durante o exílio iniciado anos 1970. Certa vez, Makarova disse que é na sala de aula que o bailarino tem o prazer verdadeiro. Parece contra-intuitivo, já que o que se supõe é que uma bailarina deveria querer o canhão de luz do espetáculo e as flores de reconhecimento ao seu final. Mas o prazer de Natasha, como era tratada pelos amigos, estava em ver o próprio corpo mudar. Ela conhecia o luxo de ter como profissão a possibilidade de presenciar o processo de tornar-se outra pessoa. Para ela, na sala de aula acontecia alguma coisa solitária, mas preciosa. Continue Lendo
Mind Game – Número 81 – 11/2012 – [310-311]
Houve um tempo em que os cinemas eram em ruas e galerias, os assaltantes não usavam armas automáticas e os policiais os perseguiam de fusca. Não era um tempo propriamente extraordinário, mas foi um tempo. Era o meu tempo. Nele, como dito num filme não muito velho do Tarantino, valorizávamos os diretores. Na verdade, a personagem, uma bela judia francesa, diz: – “grandes diretores”, instada por um militar alemão do porquê não se incomodar de exibir filmes alemães em seu cinema, de rua. Talvez devesse ser traçada a relação entre o surgimento dos grandes diretores e a existência dos cinemas de rua. Continue Lendo
O Estoicismo e suas Máximas: Epicteto – Número 78 – 11/2012 – [282-304]
i-
Em 1345, quando Petrarca descobriu na Biblioteca Capitular de Verona um manuscrito, até então ‘perdido’, de Cícero com as obras ‘Epistulae ad Atticum, ad Quintum fratrem e ad Brutum’, sua euforia foi imensurável, mas ainda assim, apesar das palavras lhe fugirem, o poeta e humanista italiano esforçou-se para expressar a satisfação de ter encontrado tais textos em uma carta dirigida ao próprio Cícero[1]. Continue Lendo
O bolo de Harrington ou existe uma teoria republicana da justiça? – Número 77 – 10/2012 – [277-281]
O problema número cinco da nona Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM), em 1987, parece interessante não apenas àqueles afeitos à doutrina, como gostava de dizer um senhor do século XVII, das linhas e figuras:
Tem-se um bolo em forma de prisma triangular, cuja base está em um plano horizontal. Dois indivíduos vão dividir o bolo de acordo com a seguinte regra: o primeiro escolhe um ponto na base superior do bolo e o segundo corta o bolo por um plano vertical à sua escolha, passando, porém, por um ponto escolhido e seleciona para si um dos pedaços em que dividiu o bolo. Qual deve ser a estratégia para o primeiro e qual deve ser a fração do volume do bolo que ele espera obter? (OBM, 1987, p. 45)
Um problema de geometria plana que não necessita de nada além de Os Elementos de Euclides para ser resolvido, o que está longe de ser uma tarefa fácil. Colando do gabarito, lemos: “o problema reduz-se a determinar qual deve ser a estratégia do primeiro para obter maior fração possível da base superior do bolo” (OBM, 1987, p. 46). Apenas com a solução oficial é possível saber o objetivo de cada indivíduo. Continue Lendo
Elogio de uma Tarde Inútil – Número 72 – 09/2012 – [235-243]
Ao contrário do que se diz por aí, o pessimismo não é atributo de gente que só fica feliz quando as coisas não vão bem. De jeito nenhum. Isso é mentira espalhada pelo adversário. Não é posição que se deva levar a sério, pela simples razão de que, na história das idéias, o otimismo jamais produziu um só pensador interessante. Quem pensa seriamente sobre o mundo não costuma sorrir feito bobo. O otimismo é a razão de biquíni, com um drinque de abacaxi na mão — o quinto —, em pleno gozo de suas férias. Seria bom se a vida fosse um domingo de sol no Taiti. Acontece que não é. Os pessimistas – melhor chamá-los de céticos – sabem disso. Nós, os botafoguenses, também. Continue Lendo