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Os Ajudantes: Sara Ramo – Número 163 – 05/2018 – [52-58]

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Eram seus olhos. Com eles, não via muito longe. E, no entanto, dizia que seus olhos eram os melhores que havia, o fanfarrão.

Robert Walser

[…] o vento soprava tão forte que apagou seus olhos. Ele quis acendê-los de novo, mas não tinha fósforos. Aí, começou a chorar […], porque não tinha mais como encontrar o caminho de casa.  

Robert Walser

§ Este texto, essa crítica, repete-se. Ela se faz um tanto de algumas fugas com relação ao que pode ser incômodo e por isso habita nele. Isso não pode ser compreendido tão somente de forma negativa. Pois tal disposição de ouvir nos permitiu enxergar o que seria mais relevante para um conjunto de dúvidas, bem como, refazer o caminho que expõe certa injustificável inocência de convicções implícitas em certas práticas. Escutar nunca nos deixa cair. Daí que o trânsito do desamparo cruze o da política nem sempre olhando para os dois lados antes de atravessar. Continue Lendo

Notas sobre o Poema ‘A Verdade’ do Marquês de Sade – Número 162 – 04/2018 – [42-51]

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Se quisermos nos dar conta das nossas ideias sobre a divindade, seremos obrigados a reconhecer que, pela palavra deus, os homens jamais puderam designar senão a causa mais oculta, mais distante e mais desconhecida dos efeitos que eles não viam: eles não fazem uso dessa palavra a não ser quando o funcionamento das causas naturais e conhecidas deixa de ser visível para eles. A partir do momento que o seu espírito não pode mais seguir a cadeia, eles resolvem a dificuldade e terminam as suas investigações chamando de deus a última das causas, ou seja, aquela que está além de todas as causas que eles conhecem. Assim, eles nada mais fazem do que consignar uma denominação vaga a uma causa ignorada, na qual sua preguiça ou os limites de seus conhecimentos os forçam a se deter.

Barão de Holbach, Sistema da natureza, II, i.

 

Instável, violento e depravado, um criminoso internacional vem, mais uma vez, declarar guerra à dignidade humana e à liberdade. Ele é sustentado por uma vasta rede de fieis prontos para servir seu mestre, determinados por beatice cega, outros por oportunismo egoisticamente megalômano. O cérebro terrorista do qual falo chama-se Deus – ou mais precisamente a ilusão coletiva de ‘deus’ que parece não ter servido senão pelos mais repreensíveis espasmos de violência e destruição. […] ‘Deus’, para dizer as coisas mais simplesmente, é uma doença social transmitida exclusivamente pelos humanos. Como uma sífilis não tratada, a crença em um deus leva à demência e à cegueira. Deus é uma projeção alucinatória da miséria do homem, de seu medo e de seu ódio voltando-se contra ele.

Don LaCoss, 9-11 & The Theology of terror.

Ao final de seu ensaio intitulado “O enigma Sade”, Eliane Robert Moraes é categórica quando afirma que “Sade nos obriga a pensarmos”(2006, p. 143). Seguiremos a pista deixada pela autora nesse trabalho reflexivo que empreenderemos sobre o curto poema filosófico A Verdade do marquês, surgido em 1787[?], estruturado em versos alexandrinos e rima emparelhada. Essa peça foi encontrada entre os documentos de La Mettrie, vindo a ser publicado em 1961, de acordo com o manuscrito inédito de Sade. Contudo, um simples coup d’oeil no texto permite perceber que, tanto pelo estilo como pelo conteúdo, o poema é de autoria do marquês, sendo atribuído à La Mettrie por motivos de prudência. Gilbert Lely menciona que “o simples aspecto do manuscrito, corrigido e rasurado, bastaria para identificá-lo como uma verdadeira obra pessoal” (1989, p. 7). Mostrando o quanto o marquês repudia todo e qualquer “corpo doutrinal seja filosófico, moral, social ou religioso” (LEVER, 1998, p. 7) e contendo as principais características do pensamento de Sade, A Verdade, mais do que uma sátira anti-religiosa, mostra um “conhecimento que alarga, querendo ou não, nossa concepção de humanidade.” (MORAES, 2006, p. 156.) Continue Lendo

Samba: experiência sensória de desaculturamento – Número 161 – 03/2018 – [24-41]

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Performance apresentada no evento Marginália Filosófica no dia de São Miguel (29 de setembro), dois dias depois do das comemorações de Cosme, Damião e Doum, e retrabalhada no mini-curso apresentado na Semana Livre de Filosofia que teve início na dia 20 de novembro, evento em que homenageamos Zumbi dos Palmares. Ambos os eventos ocorreram na UFS no presente ano (2017). A música mencionada no início dessa epígrafe é um ponto da Umbanda em que se pede com o auxílio de tambores-atabaques que Orixás venham iniciar os trabalhos do terreiro.

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Tambor, tambor, vai buscar quem mora longe tambor. Eu vi Oxossi na mata, vi Ogum no Humaitá, meu pai Xangô lá nas pedreiras, ô Iansã, ô Iemanjá. Tambor, tambor…

Povo baiano, povo africano, força divina vem cá vem cá…

Baianíssimo Gil, faz um favor pra mim, manda descer pra ver, pra ouvir, pra lembrar.

Brasil esquentai vossos pandeiros iluminai os terreiros que nós queremos sambar.

Cada paralelepípedo da velha cidade vai se arrepiar ao lembrar.

Mapa e missão de passista

Faremos nossa experiência sensória do lembrar começando da margem de cima, lá do lugar de Orixá (e já os chamamos!), descendo ao centro e voltando à margem por fora, ou seja, depois passaremos ao morro Favela Óca (oca-loca-louca-loka), Favelóka, Sounds, experimentando o infinitamente sambar, depois o fingir amor com dor, depois volteios ao centro da dor sem amor para, já subindo, findar no voltar a guerrear sem fim do embolar sambar o Tio Sam no Samba Rock.

Claro, vivemos a opção de falar sobre o outro lado do mar, sobre o que nem francês entende de tão sem sentido se vem de cá, ou sobre o também sem sentido que nem brasileiro entende de tão esquecido, ficamos com o segundo, decisão louca falar até dos vida loka do Brasil que, a la Thaide e Dj Hum, pode ser um retalhar-colecionar-costurar-colar-balançar-brincalhar-sambar-lembrar, um falar mesmo de tempo ruim de quem se assume marinheiro só, de só marinheiro só no balanço loco do navio de cá, que balança no mar-terreiro-céu de cá, cá onde algo somos, onde fazemos missão. Chama Orixá! Convidemos Rosa Maria! Grita aí os Dimas! Queremos ver e ouvir Anastácia dar sua risada! Vamos espectrar! Continue Lendo

daartepoética – Número 160 – 02/2018 – [12-23]

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Tous les arts sont poésies.
(Racine)

No dia vinte e cinco de agosto de 2017, o professor Rodrigo Brito me convidou para o evento “Marginália Filosófica”, então a acontecer na Universidade Federal de Sergipe. Um evento, disse ele a mim, que se pretende itinerante. Aceitei – sabendo que eu não podia escrever um texto convencional para o evento “Marginália Filosófica”. Eu só poderia escrever um texto marginal:

A poética está incompleta. A Poética de Aristóteles está incompleta. Ou seja: a Poética aristotélica está, para sempre, descomprometida – com a completude; descompromissada com o compromisso de ser completa; desobrigada de dizer tudo. Continue Lendo

A Relatividade Essencial – Número 159 – 01/2018 – [02-11]

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A noção do relativo é essencial a céticos e relativistas. No que concerne à sképsis pirrônica, Sexto Empírico o demonstra nas Hipotiposes Pirrônicas em pelo menos dois lugares: no oitavo “modo” de Enesidemo e na exposição dos cinco modos de Agripa. No oitavo modo Sexto diz ter estabelecido a relatividade de todas as coisas, o que ele toma como condição para poder concluir que somos incapazes de afirmar qual é a natureza ou a essência delas, isto é, o que cada uma é independentemente dos seres que procuram conhecê-las. Nós só estamos, nessa medida, autorizados a discorrer sobre o aparecer delas, o que explicita seu relacionar-se a nós, sua relatividade. Ou como Sexto prefere apresentar essa consideração, nos Modos de Agripa, tanto coisas sensíveis quanto objetos de pensamento são relativos àqueles que têm as impressões ou que desenvolvem alguma atividade intelectual a seu respeito. Continue Lendo

Cesar Kiraly

Professor de Estética e Teoria Política no Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense.