(Volume 8) Metafísicas do Olho: Variações I

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Neste artigo procederemos a três movimentos, de algo que pode ser literariamente descrito como Variações: (1) narrativa sobre a arqueologia na obra de Michel Foucault. Porque aquilo que desejamos dizer adiante demanda certa ambientação que apenas uma forte filosofia dos discursos, dos arquivos e dos fragmentos é capaz de produzir, (2) corporificação do discurso com a metáfora do olho (a possível opacidade de um olho sem fundo, ou sem intimidade) e (3) a estruturação da idéia de opacidade da dor do outro. Desejamos mostrar que existe uma explícita complementaridade entre a identificação da fragmentação dos discursos, a identificação do esvaziamento dos olhos e a identificação da opacidade diante da dor do outro. Aproximaremos essas três identificações filosóficas com um imperativo moral cético: é na identificação da fragmentação dos discursos que percebemos e nos desviamos da opacidade do fundo do olho e opacidade da dor do outro. Porque se a opacidade da dor do outro é algo que se impõe pela necessidade, ela bem se diferencia da prática ativa de tornar a dor do outro uma dor opaca. Pela identificação da fragmentação dos discursos não só reconhecemos a opacidade, como instauramos, outrossim, outros regimes nos quais a opacidade possa se tornar sinônimo de intimidade expressiva, e não de abandono moral. No segundo movimento apresentaremos variações sobre um conto de Hoffmann e no terceiro movimento: variações sobre Regarding the Pain of Others de Susan Sontag. Um dos primeiros ensaios sistemáticos sobre uma teoria social da imagem fotográfica. Os fortes vínculos entre a arqueologia filosófica de Foucault e nosso interesse neste conto fantástico de Hoffman e nas análises de Sontag sobre a fotografia aparecerão na narrativa, e decorrem da estrutura das Variações.

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Cesar Kiraly

Professor de Estética e Teoria Política no Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense.