A Insistência Abstrata, nas coisas – Número 148 – 05/2017 – [55-57]

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1. A escrita sobre arte é epistolar. Ela se inicia com o ímpeto de descrever uma obra de arte para quem dela não pode ter experiência direta. É a narrativa sobre a coisa para quem dela está longe. Se no começo a vontade era a de dar proximidade para quem estava fisicamente distante. Ora, rapidamente se percebeu que a questão era a de aproximar de forma singular aquele que da obra podia estar próximo ou afastado. Apesar desse ajustamento, algo nunca foi alterado, a descrição da obra deveria se dar com atenção desmesurada, de tal forma a impor à linguagem práticas desconhecidas, assemelhada ao modo como um surdo observa os movimentos labiais ou um cego percebe a extensão de um ambiente. Continue Lendo

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‘Não há Inocentes’: conjuntura latino-americana e a volta dos que não foram – Número 147 – 05/2017 – [48-54]

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“Não há inocentes. Apenas diferentes graus de responsabilidade”, raciocina Lisbeth Salander, protagonista de A menina que brincava com fogo, de Stieg Larsson. Na saga, o protagonista Mikael Blomkvist é um jornalista dedicado a investigar uma série de escândalos de corrupção envolvendo autoridades respeitáveis de seu país: a Suécia. Sim, parece que  escândalos desse gênero acontecem mesmo onde o Estado Social de Direito atingiu seu esplendor. Conforme vai acompanhando as investigações de Blomkvist, o leitor é levado a concluir que a diferença entre inocentes e culpados, pode ser colocada em uma escala, na qual os extremos importam menos do que as gradações. Continue Lendo

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O Fim da Era das Democracias na América – Número 146 – 04/2017 – [32-47]

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Situações políticas dramáticas nos impõem custos emocionais e sociais, todavia, não que isto seja um consolo, também oferecem oportunidades para que a ciência política e outras áreas humanas repensem e calibrem seus modelos e parâmetros analíticos. O fim da era das democracias na América Latina propicia uma reflexão sobre as classificações dos regimes, a categorização ou não como democracia, e sobre como se classificar aquilo que não é democrático. A análise de conjuntura da sucessão de golpes e degradação da democracia no continente será feita aqui de modo a discutir, também, o método, os critérios e os conceitos, com o intuito de colaborar para que a ciência política lide com esta conjuntura de modo mais rigoroso. Continue Lendo

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A Insistência do Confinamento Racial na Academia Brasileira: um breve ensaio sobre a universidade no contexto pós-ações afirmativas – Número 145 – 04/2017 – [27-31]

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Logo nas primeiras cenas do fundamental documentário I Am Not Your Negro (2017), dirigido por Raoul Peck, vemos o entrevistador Dick Cavett perguntar a James Baldwin se o negro norte americano ainda não está satisfeito diante de todas as supostas conquistas advindas das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos. Em um tom que transparece genuína surpresa e curiosidade, Cavett indaga: “Por que os negros… Por que eles não estão otimistas? (…) Eles então melhorando tanto, quero dizer, há prefeitos negros, há negros em todos os esportes, há negros na política” (tradução livre). Continue Lendo

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Despindo as Fantasias da ‘terra que a todos seduz’ – Número 144 – 03/2017 – [23-26]

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Rio de Janeiro é um clichê global poderoso que está em xeque. A cidade rebelou-se contra seu retrato. (…) O Rio atravessa um momento doloroso e fecundo de perigo e reinvenção. A estação de fúrias e tempestades não anula o mar, o sol, o esplendor da Mata Atlântica e a dança infinita, mas estilhaça ilusões e incinera a pachorra pusilânime dos cartões postais (Soares, 2015, p.1).

Com este trecho Luiz Eduardo Soares inicia seu capítulo introdutório de “Rio: Histórias de Vida e de Morte”, publicado pela Companhia das Letras em 2015. Através de uma linguagem direta o autor nos cativa a adentrar com particular interesse nos nove contos por ele ofertados, nos quais mescla sua trajetória de vida pessoal com a política brasileira, principalmente a fluminense. Compõe, entre os relatos, um olhar ora de espectador, ora de ator político dos acontecimentos. Esta construção harmônica atrai o leitor e o faz de imediato simpatizar com a interpretação do mundo cotidiano de Luiz Eduardo, revelado pela ótica tanto do ex-secretário nacional de segurança, quanto pelos olhos deste ainda guri, advindo de família conservadora nos aterradores anos 1960. Continue Lendo

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Transição presidencial ou transgressão institucional? A crise valorativa e o nexo entre elites políticas e empresariais brasileiras – Número 143 – 02/2017 – [15-22]

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A ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder, em 2003, se deu em um contexto regional assinalado pela emergência de uma nova correlação de forças, marcada pela falência do formato anterior que se caracterizava pela aquiescência às teses neoliberais. Essa transição, portanto, diz respeito não apenas à ascensão de uma nova elite política, mas, sobretudo, à representação prioritária dos interesses de uma parcela da população, as classes populares, em detrimento de outra, as elites econômicas. Em outros termos, da prioridade da justiça social sobre a rentabilidade dos investimentos. Continue Lendo

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Manoel de Barros ou nas Mínimas Expressões está Toda Poesia – Número 142 – 01/2017 – [02-14]

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Os versos de “No meio do caminho”, poema de Carlos Drummond de Andrade que apareceu publicado primeiro numa edição da Revista de Antropofagia e dois anos depois, em 1930, foi incluído no volume Alguma poesia, inaugura – se não, renova – o tema da expressão mínima e vulgar como objeto original e propiciador do poético, efeito sempre condicionado a elementos de natureza sublime que outros poetas desde sempre tiveram ou designaram como ato epifânico, devaneio, sonho, resultado da inspiração, produto de um exercício tecnicamente elaborado. Evidentemente que a afirmativa sobre o poema do poeta mineiro não esquece os feitos de outros poetas. Dez anos antes, Manuel Bandeira já havia abalado a condição quase-sagrada da poesia com os também muito conhecidos versos de “Os sapos” – este é só um exemplo. Continue Lendo

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III Colóquio sobre Ceticismo

para se inscrever, basta confirmar em: https://www.facebook.com/events/1783226138601125/ ou mandar email com o nome completo para ckiraly@id.uff.br

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Democracia e Justiça: sobre pedaladas e pedalinhos – Número 141 – 12/2015 – [105-114]

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Para Patrick Burglin, in memoriam

Importantes interpretações da origem e conformação do pensamento político ocidental identificam em Platão dois marcos fundamentais que diferenciavam sua posição diante do universo político que o rodeava. Com ele, a invenção da filosofia política se punha contrária à polis e, como seu sustentáculo, desenvolvia um conceito sistemático de justiça. A crítica a um sistema pautado na atividade e não na razão coloca a existência da política em xeque na medida em que o governante, e o critério para se governar, é aquele que sabe, tal qual o médico sabe como cuidar da doença. Assim, desse ponto de vista, a teoria da justiça é a primeira e até hoje mais robusta formulação contrária à política enquanto atividade humana, inventada por humanos para os humanos como convívio sustentado no diálogo e no conflito não violento. A boa ordem, a ordem justa por excelência, só é capaz de se impor em uma cidade quando governada por uma aristocracia treinada, justamente o que falta ao governo democrático (ARENDT, 1998; WOLIN, 2004). Continue Lendo

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