Racismo como sintoma

Introdução:

É sempre importante reafirmar que raça não existe quanto conceito biológico, sua definição pertence à ordem do discurso numa categórica dos significantes que é dado aos signos, é um discurso que acaba por se instituir nos laços sociais pela inscrição do simbólico.

Para destrincharmos a problemática do racismo e entendermos a violência sofrida pelo negro é necessário antes de tudo saber que o racismo é sintomático, cruel e politicamente sistemático. Sobre o racismo, podemos descrevê-lo como algo que está sempre lá e que constantemente emerge à superfície, podendo ser por vias diretas (sendo que é perfeitamente possível se fazer apresente no plano da deliberação política) e/ou dissimuladamente (expressando-se em outras formas simbólicas, gestuais e discursivas ).

A ideia de hierarquia racial está internalizada em todos nós seres constituídos como sujeito em uma sociedade racialmente desigual. Kabengele Munanga (1990), antropólogo especialista em negritude, em sua publicação Negritude Afro-brasileira: perspectivas e dificuldades, nos mostra que o racismo é internalizado como uma interiorização de um retrato (MUNANGA, 1990) uma espécie de arquétipo parte de um processo histórico de dominação entre brancos e não brancos, pois racismo apesar de está internalizado em nós, em nós não se basta e configura artefatos de legitimação por meios legais que são também legitimados moralmente.

Sintoma, Estado e Racismo

O racismo encontra maneiras bastante variáveis de gozo como meios para legitimar-se. Citando um exemplo de racismo recalcado temos o comum discurso paternalista muito presente nas crenças cristãs, onde há uma dimensão imaginária de que o branco ocupa uma posição de salvador do negro de uma forma geral: de sua religião, africanidade, música, identidade, hábitos culturais e linguísticos. Uma postura não muito diferente dos jesuítas na época do Brasil colônia, julgam-se como portadores da verdade, da moral e dos bons costumes e portanto comprometidos com a salvação dos que linguisticamente são diferentes.

Este tipo de gozo assume formas de fetiche em uma fantasia predadora qual o outro, quem o racista idealiza que seja, é imaginado como um estranho demoníaco: algo misterioso que se mostra diferente, causa horror e logo deve ser remodelado pelos padrões do cristianismo ou então destruído. As questões raciais trazem consigo um imaginário além do corpo que, no decorrer da relação histórica entre negros e brancos, faz parte de uma dimensão estrutural.

O sentido dado é responsável pela construção identitária, e todo esse processo pertence ao campo simbólico produtor de violência contra o negro. Durante o processo de construção identitária são atribuídos sentidos diferentes aos negros e brancos, sendo que ao corpo do negro o significante dado o torna mais passível de sofrer violência. Nestes casos, a violência simbólica corresponde à relação dominante e dominado, que o negro é sempre colocado em uma posição de inferioridade.

É um assunto bastante complexo multifacetado, mas que ao mesmo tempo poderíamos rapidamente explicá-lo como uma crueldade que se expressa de uma maneira sempre bastante linear: sempre do campo imaginário para o campo simbólico. Falamos de um discurso popularizado que exige uma posição de subalternidade, exige que o negro corresponda ao lugar de subordinado que lhe foi atribuído, uma narrativa recalcada que utiliza o corpo negro como escopo.


Com o passar do tempo, o discurso científico se populariza através de uma esteriotipação negativa do negro, e acabou se transformando numa pressão psicológica. Daí, a familiarização do negro com o retrato negativo contra ele forjado; a interiorização desse retrato, levando-o finalmente a uma alienação total. Uma vez atingida essa fase, ao negro se apresentava uma alternativa: elimi nar a diferença~ assemelhar-se ao branco, trocando a pele física, cultural e intelectualmente. Esta troca da pele devia resultar na integração social do negro no mundo dominado pelo branco. Infelizmente, o negro já alienado e culturalmente desestruturado não foi integrado no mundo dos brancos apesar de seus esforços de assimilar este último. Esta recusa de integração que se traduz na manutenção da desigualdade por parte do dominador branco , provoca a revolta do negro e, finalmente, a ruptura com o sistema escravocrata e colonial. O negro se dá conta de que a sua salvação não está na busca da assimilação do branco, mas sim na retomada de si, isto é, na sua afirmação cultural. moral, física e intelectual, na crença de que ele é sujeito de uma história e de uma civilização que lhe foram negadas e que precisava recuperar. A essa retomada, a essa afirmação dos valores da civilização do mundo negro deu-se o nome de “negritude”
(MUNANGA, 1990).

A psicanalista Isildinha Nogueira (1998) faz a ressalva de que ao branco é atribuído lugar de parâmetro de humanidade, sua cultura representa a “cultura certa”, moral, intelecto, civilidade e arte, que no inconsciente é agregado pelo campo de significação neurótica eurocêntrica que coloca o negro em posição objetal. No campo simbólico, a construção da autoimagem do negro é tomada por um ideal de brancura, encontramos nela ódio e a negação, tanto o ódio voltado para si mesmo (no caso, ódio à própria imagem por não corresponder ao ideal) quanto o ódio direcionado para o outro.

Assim sendo, o racismo além de estar em nós é institucionalizado. Pelos privilégios, o branco, não é destituído de sua humanidade independente das possíveis atrocidades que possa vir a cometer criminalmente. Acontece que a violência tem essência rizomática e o Estado não a controla. O Estado tenta tornar o imprevisível previsível seguindo uma lógica racista recalcada como se o crime antecedesse o criminoso. O jogo de crueldade política está imerso em um jogo de interesse estrutural que tenta buscar algum grau de estabilidade no imprevisível.

“Para ser racista, coloca-se como postulado fundamental a crença na existência de “raças” hierarquizadas dentro da espécie humana. De outro modo, no pensamento de uma racista existem raças superiores e raças inferiores” (MUNANGA,1990). O poder do Estado tem um intrínseco problemáticas raciais que tem o poder de fazer viver ou deixar morrer, e traz com consigo marginalizados. Podemos citar os presídios como exemplo de dispositivo político de crueldade que é desfuncionalmente proposital para punir e deixar os marginalizados a própria sorte.

O poder não é somente repressor, o poder estimula consequências sobre os corpos e configura discursos. O Estado, através da política imergida nesta narrativa, desenvolve aparatos racialmente estigmatizados. O racismo é intrínseco a estas medidas políticas de gerência da vida. É importante deixar claro que os problemas estruturais descritos não são pacificadores, é apenas instrumento de exercício do poder político.

Os dispositivos do Estado são uma rede de elementos heterogêneos quais partem do recalque, atravessam o discurso e se transforma em prática. São questões imateriais com efeitos no real meio às representações simbólicas. Os discursos de segurança são engendrados em um discurso racista partem do racismo institucionalizado. A institucionalização do racismo permite o Estado não somente humilhar e sujeitar, mas também fazer morrer.

O poder não é possuído. O poder não é propriedade de uma classe social e nem de ninguém. O poder não é uma propriedade, o poder é um exercício demonstrado na linguagem, seja essa linguagem oral, escrita pelas leis ou imagética. Parte do jogo político pode manipular a violência, porém o que diferencia a violência da política é que a política tende a estabilidade e a violência é por via de regra imprevisível.

O Estado não tem somente um lado repressivo, também faz estimular os sentimentos morais, o Estado reflete por seus mecanismos legais o sintoma. O problema é que geralmente não procura-se o sintoma, mas sim a causa. Entretanto, o criminoso existe porque o crime existe, ambas coisas não são independentes. Quando assumimos o contrário, quando assumimos que o crime antecede o criminoso, utilizamos teores biológicos para justificá-los.

Não há poderes que façam justiça, acreditar nesta possibilidade é acreditar na ideia mistificada do que o poder realmente é. Leis estão sempre a serviço de alguma estratégia política, o poder judiciário é um aparato estratégico que serve a outrem, nunca coloca-se imparcialmente. Não são dados naturais, são dados construídos e aplicados que se legitimam pelo exercício do poder. Quando o Estado incorpora o racismo atenta ao biotipo, cultura, religião, ao corpo e a vida dos racialmente estigmatizados.

Considerações finais sobre as dinâmicas da crueldade na política

Para nos proteger negamos a violência, mesmo que esta proteção seja apenas imaginária, costumamos negar a violência, rechaçamos a violência enquanto violência, mas não acabamos com ela, apenas delimitamos. Enquanto dispositivo delimitador, a tentativa é tornar o imprevisível previsível dentro de uma lógica racialmente problemática. A nossa segurança, ou pelo menos a sensação dela, é tramitada em uma série de dispositivos de crueldade que fazem morrer aqueles socialmente marginalizados.

A crueldade é uma violência mais específica, que tem por definição a previsibilidade. O ocultamento da crueldade não significa que não aconteça. Inclusive, é uma regra da crueldade ser implícita, as justificativas às escondem, as maquiam para serem moralmente aceitáveis. A previsibilidade se mostra promissora de uma promessa palatavelmente doce, não que a imprevisibilidade em algum grau não possa ser prazerosa, mas quando queremos construir uma percepção de mundo e através disso um traçado linear de que tudo está sob controle a imprevisibilidade não é bem-vinda por ter gosto amargo.

A partir desses artefatos é que a crueldade política se constitui: pela construção de inimigos, pelos sintomas que originam a causa. É delirante, porém em uma lógica recalcada racista é por vezes moralmente justificável e, quando assentimos esse tipo de poder através desta moral, damos aos dispositivos todo o poder que ele precisa. Estes mecanismos refletem problemáticas raciais históricas que o Brasil não superou. No Brasil, uma das maneiras sintomáticas do racismo se mostrar é pelo do discurso e pela crença em que legitimar assassinatos de determinados grupos específicos trata-se de uma questão de segurança pública.

É um erro acreditar que este tipo de crueldade aplicada pacifica, elas apenas dominam quem as crê pelo discurso, quer dizer, quem acredita que essas medidas existem por um fundamento natural de que determinados grupos seriam mais propícios a determinadas ações do que outros, sentem seu delírio justificado quando este modelo de crueldade é imposto. Assim, em uma linguagem foucaultina, é necessário compreender o corpo como palco no jogo das dominações. O corpo exprime linguagem, desejo e gozo. O corpo sofre, e a dominação se fixa assim: pelo fetiche de possuir um poder sobre o outro, fetiche de dominar, condicionar regras para legislar a vida de outrem e também fazer padecer os indesejados.

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Yasmim Salles

Referências

LACAN, J. O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Seminário livro II. Ed. Zahar, RJ. 1978.

MUNANGA, Kabengele. As ambiguidades do racismo à brasileira. Ed. Negritude Em Cena, p. 33- 43.

______________. Negritude afro-brasileira: perspectivas e dificuldades. Depto de Antropologia USP, p.109 -117. Ano de publicação: 1990.

______________. Negritude usos e sentidos. São Paulo, 1986.

______________. Estratégias Políticas de combate à discriminação racial. São Paulo, Ed. USP, 1996

NIETZSCHE, F. Genealogia da moral. Tradutor Paulo César de Souza; Editora: Companhia de Bolso; 2009.

NOGUEIRA, Isildinha.A significação do corpo negro. Tese de doutorado, USP. 1998.

About Tamires Alves

Doutora em Ciência Política pela UFF.
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