O Prólogo de um Experimento – Número 114 – 10/2013 – [166-171]

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Há uma mistura de sentimentos que parece sempre acompanhar – ao menos a mim – o início da relação com algo a ser lido ou escrito; seja quando sou eu mesmo quem escolhe a ordem das palavras a serem lançadas à percepção de outros ou quando é um livro escrito por outro que tenho em mãos. Ainda que a distinção a ser feita entre estes dois momentos salte aos olhos sem muita dificuldade, não parece ser também muito difícil encontrar semelhanças que tornem plausíveis algumas especulações sobre a sua força. Quando se começa a ler um livro desconhecido, e tudo o que se tem são palavras iniciais postas em ordem de forma arbitrária pelo sujeito cujo nome se pode ler na capa, algo que posso chamar de expectativa de captura paira sobre os sentimentos que se anunciam após cada linha passada. Como quem começa um jogo cujas regras estão ainda a ser explicadas, o começo da leitura é sempre um momento no qual, ao perceber vestígios de movimentos que uma mente outrora fez, o leitor pode perceber as reações que a sua mente faz às linhas que se seguem. Isto por si só bastaria como boa justificativa para qualquer leitura.

Hume, a certa altura de seu Tratado, afirma que julgamos quase sempre por comparações. Diante de resquícios de movimentos do entendimento representados pela junção de palavras escolhidas pelo autor – tudo o que tenho ao segurar um livro recém aberto –, resto só, a reavivar aquilo que creio ser por não encontrar lugar outro para o sentido das que leio que não em mim mesmo. Sinto como se fosse possível afirmar que os movimentos cujos resquícios agora tenho em mãos possuem um sentido em si, algo como uma essência, que emanou já há algum tempo; de certa forma aprisionada e de perfeito acesso restrito até mesmo àquele que um dia os sentiu vívidos em seu entendimento. Hesito, talvez por saber que apenas posso crer nisso. Por perceber que os movimentos que tento linearizar agora não possuem lugar outro senão em mim, o julgamento de algo que leio parece quase sempre ser feito por meio de uma comparação com uma leitura de mim mesmo.

Parece que é da crença se fazer enunciado. Afirmar que as essências residem onde acredito, por ter negado a sua existência em todos os outros lugares possíveis é uma tentação à qual poucos resistem. Já afirmar que elas existem por termos sensações provenientes das muitas ideias de qualidade que posso ter de determinada coisa, para Hume, é natural. O ímpeto pela predicação de mundo também parece ser um motivo pelo qual queiramos tanto ler aqueles que são tão bem construídos em obras de filosofia. A expectativa que sinto após ler palavras que se fazem sentimentos agradáveis em meu entendimento é uma de que exista, na próxima linha, uma que supra um silêncio que me aflige. Espero que enunciados filosóficos sejam predicados que sirvam para mim, de forma a estabilizar angústias que me fazem gaguejar – dada a enxurrada de sentimentos ou imagens que não sei ao certo de onde vêm.

Diante de mim, sei que tenho resquícios de movimentos da mente de um Outro. Sei que quando as junções das linhas me sugerem um tom mais descritivo, costumo as respeitar como indícios de importância das imagens que o autor possuía em seu entendimento. Sei que quando as associações que percebo me parecem mais embaralhadas, a elas costumo reagir como se a representação do movimento fosse mais importante do que a suavidade que todo texto anseia ter. Creio, contudo, que são, a princípio, dois, os objetos que posso levar em consideração; as imagens e seus movimentos. Esta é uma dupla que até então me parece indissociável. Minhas imagens e a crença de que as reconheço nas palavras de outro. Os movimentos de pensamento que posso perceber que faço e a crença de que os reconheço nas tentativas de outro. Depois das primeiras impressões alfabetizantes, tudo que me afeta como novo não pode o ser de forma absoluta. Respiro a cada leitura de linha, e julgo ambos os verbos. O respirar que foge do costume anuncia um fenômeno, cuja existência descubro diante constatação da impossibilidade de ler sem julgar.

Que seria da escrita e leitura se pudéssemos, de fato, compartilhar pensamentos? O sonho de filósofos da evidência estaria realizado se não precisássemos mais de livros para tentar nos entender. Muitos livros de filosofia foram escritos com a pretensão ser o último, e todos sucumbiram diante da não-conquista das mentes no tempo. É interessante perceber que a mesma motivação implícita em cada escrita – de fazer com que os outros compreendam a predicação do autor, tolhida pela impossibilidade de compartilhamento perfeito de ideias – é a mesma que se torna desculpa diante do fracasso de predicações políticas. Gênios mal compreendidos, é o que podem se tornar aqueles que um dia bradaram a descoberta de uma essência última que direciona a existência humana para um fim; que atordoam a mente de senhores barbudos que balançam chocalhos em praças à chamar atenção dos passantes para o cartaz vestido que anuncia que o fim está próximo.

Alucinados, é o que são. Como todos nós, aliás. Não percebem que o princípio que os faz acreditar no fim – o do avistamento de uma verdade última por um compartilhamento espiritual – tem a sua incapacidade denunciada pela própria necessidade deles de usar um cartaz com palavras escritas. Que entendo eu ao ler que o fim está próximo? Muitas coisas são possíveis; todas parecem derivar da constatação de impossibilidade minha de visualizar o mesmo que tal senhor viu. Passam pela mente algumas derivações da vontade, exposta por frases como “que será que esse senhor pensa?” Se a curiosidade for muita, posso chama-lo a conversar; ciente de que as suas tentativas de exposição de ideias, crenças e juízos, será o máximo que poderei ter. A conjunção da percepção de impossibilidade de ver o mesmo com o seu contrário – a de que só posso imaginar que haja algum sentido nas palavras de outro por que creio que as imagens de seu entendimento e as sensações que surgem das suas colisões não são muito diferentes das minhas – afeta-me bastante.

De pronto, após constatar a impossibilidade de adentrar na mente de outro, e crendo que de alguma maneira baseio minhas assertivas por constantes percepções de semelhança, imagino-me na sua posição. E como este já é o sétimo parágrafo de um texto que se alongará um pouco mais, creio já poder – com auxílio da força que possuem os testemunhos – me esforçar para expor os sentimentos que tenho como alguém que escreve. Imagino que ainda que os argumentos que se seguirão possam ser encontrados em rascunhos ou ideias de memória, parece que nunca saberei, com perfeição, qual a forma que eles tomarão uma vez que a empreitada tenha sido apenas iniciada. A escrita parece ser, com a permissão de Wittgenstein, tudo aquilo que posso escrever no bem delimitado momento da escrita. Se chamássemos Hume, ouviríamos algo sobre a necessidade. Algo que afirmasse a impossibilidade de ser e escrever não sendo. Se não sou nada além de um conjunto de percepções, o que não posso escrever é tudo o que possa estar além disso.

A ideia do impensado me faz sentir como quando penso na ideia de infinito.

Ler e escrever parecem, assim, compor uma interessante relação de inversos. Uma vez que quem começa a ler não sabe ao certo quais argumentos irá encontrar, enquanto quem começa a escrever desconhece os movimentos que sua mente fará para tentar expor ideias que já acredita ter em alguma espécie de estágio final. É certo que ambas, leitura e escrita, circunscrevem-se em um ambiente que a filosofia jamais pôde evitar; que aqui chamo de tentativa de compartilhamento. A própria definição de filosofia subjazida na afirmação aristotélica, sempre mencionada nas aulas do professor Renato Lessa – “Se se deve filosofar, deve-se filosofar e, se não se deve filosofar, deve-se filosofar; de todos os modos, portanto, se deve filosofar”9 – traz consigo a necessidade de imbricação da fala com a filosofia, da escrita com a predicação, e da predicação de Outro com o entendimento meu. Ímpeto de predicação e tentativa de compartilhamento. Já são dois os problemas que se enfileiram diante disto que se pretende uma interpretação de resquícios de imagens e movimentos de um escritor que para eles parece ter olhado de uma forma bastante peculiar.

A dificuldade de iniciar uma empreitada com regras desconhecidas e movimentos por vir é digna de nota. É certo que leitura e escrita são ações solitárias. A leitura menos, a escrita mais. Quando leio algo, relaciono-me o tempo inteiro com a ideia desse alguém que as tentou escrever. Para compor a imagem de um autor sem face, não tenho opção outra que não a de atribuir a ele características que posso ver em mim, ou que acredito que são dignas de autor. Não sou Eu que transbordo sobre o mundo, mas as ideias de mundo que compõem este algo que creio ser. O imagino como um ser humano, talvez por nunca ter tido notícia de que coisa diferente disso tenha escrito um livro. A criação de imagens de feições humanas, que me possibilitassem o rascunho de silhueta, logo se mostram menores diante do que percebo escrito. Percebo que não importa o assunto por ele escolhido. Diante de mim, tenho rastros de pensamento de algo que julgo ser muito semelhante ao que sou. As silhuetas desenháveis são coisa pouca, posto que diante de um livro eu tenho o maior acesso possível à alma de quem um dia o escreveu. Tenho um exemplo de entendimento funcionando, com o qual posso comparar o meu, seja para afastá-lo do que eu e meus amigos deveremos chamar de normal, ou para enaltecermos como um exemplo de bom funcionamento das capacidades cognitivas deste grupo que nos faz utilizar a primeira pessoa do plural.

Todas estas possibilidades, no momento de solidão, mostram-se dependentes exclusivamente da minha capacidade imaginativa – bem como de uma disposição prévia de imagens por associar. Vejo que não importa muito o que o autor realmente pretendeu transmitir tendo em vista que a satisfação de tal pretensão só poderia ser alcançada se a sensação que acompanha o juízo que afirma ser brilhante – motivadora da escrita – for algo que eu também possa mostrar que creio sentir, enquanto leitor. A mais bela poesia me afeta de forma completamente distinta do que o autor pretendeu se for escrita em mandarim. Mas trazer a hipérbole das diferentes formas de representação, das convenções da comunicação, é uma grosseria desnecessária. Não é preciso ir muito longe para dar força à percepção de que os sentimentos que preenchem as imagens que se espera compartilhar abrigam muitos indícios que afastam a ideia de igualdade absoluta. Basta iniciar uma conversa, tentar expressar qualquer coisa. Da solidão para o estar acompanhado, sinto uma mudança significativa. Se creio que a normalidade do ser é representada por aqueles dos quais me aproximo, a interpretação que eles fazem de um poema pode sim me fazer jogar a minha no ralo.

O leitor parece ser um solitário atordoado pela da presença de algo que ultimamente põe em jogo as suas crenças existenciais. Se se acredita como constituído de aspectos muito semelhantes aos daquele que escrevera o que se lê, o entendimento dos movimentos por ele empreendidos põe em cheque uma relação importantíssima. Posto como premissa o fato de que os problemas ontológicos sobre os quais se debruçam os pensadores dependem da alocação de todos eles em um grupo – de seres pensantes, que seja –, a percepção de um pensamento extrínseco aos modos pelos quais se está acostumado a julgar possível é, por si só, o desafio maior de todo sistema de pensamento com pretensões de definição. Isto quer dizer que diante de uma versão final da constituição dos modos humanos não cabe a possibilidade de não aceitação por aqueles que o leem e comparam com os seus. A opção de fechar o livro pelo incômodo com as agressões ao que creio ser está sempre aí. Em disputas pelo domínio das crenças que tenho, sou sempre Eu o vencedor.  A expressão de tal condição parece ser a sina do cético curandeiro e o fardo do cético curador. As lembranças de momentos de ímpeto de cura de dogmáticos rivalizam com as de calma no tratamento de imagens.

Que dizer, então, dos aspectos da solidão daquele que escreve? Mais ainda, como pode, diante disso, alguém escrever uma versão final da constituição dos modos humanos sem se dar conta de que está sozinho? Conversas, anotações, leituras anteriores, debates acalorados, dicas preciosas, todo tipo de companhia é sempre anterior ao momento da escrita. O que há de vívido na solidão vem das impressões, do sentir, agradável ou não, das imagens de memória e imaginação forjadas ou trazidas ao entendimento presente pelo hábito. Que fazer, diante disto, sabendo que se está só, para satisfazer a vontade de escrita de um Tratado sobre esse grupo no qual se acredita reconhecer? Sinto que seja necessário que não me soe como desimportante a afirmação humeana sobre os perigos de imaginações solitárias com pretensões predicativas – e como este não é um ensaio de todo artístico, tentar escapar de movimentos que me atingem como necessários seria puro non-sense – um non-sense válido, cabe ressaltar, mas ainda um non-sense. Descartada a figuração de uma situação na qual todos os pertencentes ao grupo se reunissem em prol de delimitações mais precisas dos seus modos, imagino uma distinção pueril de duas formas de tratar da querela. Há aqueles que apostaram na capacidade de encontrar as essências humanas olhando para dentro de si, inflando a experiência solitária; e aqueles que, céticos quanto as definições últimas das essências humanas, inflam o momento no qual observam, especulam e constroem apontamentos ensaísticos. No meio das duas, a conjugar a experiência com a observação, está David Hume.

Entre ler e escrever, experimentar e observar, o livro de Hume não faz grandes distinções. A grandeza da experiência, com o ceticismo trazido pela força da necessidade, traz consigo as agruras da proximidade com o “mais do mesmo” – de ambos os lados. As imagens são importantes, mas imaginações solitárias são perigosas. A observação é prudente, mas sozinha não inaugura a Ciência da Natureza Humana. O método experimental é a observação das imagens em ação. O julgamento, sincero ou não, de todos os leitores, com o auxílio de Gutemberg, era tudo o que precisava o autor escocês para reunir todas as criaturas humanas para um debate sobre a sua constituição; seus juízos, que acima de toda e qualquer verdade, deveriam ser o melhor ensinamento sobre cada si mesmo.

Embora não possa contar com declarações de motivações com tal teor feitas pelo Sr. David Hume, é esta a interpretação que surge após os afetos que suas imagens e movimentos me possibilitaram. Experiência, observação, e a inauguração de um processo investigativo infindável; que marcha diretamente para o centro das questões sem nunca deixar de perceber que a “prova” necessária para as afirmações sobre o leitor está na consideração dos rebatimentos delas neles. Diante da premissa do Tratado como experimento, o que se segue não pode ser fruto de pretensão maior que o de uma tentativa de descrição de restos de rebatimentos posteriores ao meu contato com a obra prima humeana. Eu, uma criatura humana, a especular sobre afirmações feitas sobre a minha constituição. Mais um livro, mais um experimento possível.

Aos olhos de leitores que esperam uma interpretação absolutamente fiel ao livro, eis, portanto, uma do Tratado da Natureza Humana fadada – talvez como ele mesmo – ao fracasso. Talvez certa de que o fracasso seja um inevitável redobrado, prova da constituição limitada do meu intelecto – do intelecto de uma criatura humana.

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Hugo Arruda

About Hugo Macedo Arruda

Formado em História pela Universidade Federal Fluminense, atualmente é mestrando em Ciência Política da mesma instituição. Interessa-se pelas possibilidades estéticas da filosofia política e atualmente dedica-se ao pensamento de David Hume.
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