História dos Conselhos – Número 20 – 07/2011 – [76-79]

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Por um lapso, uma moça pensa em correr para a própria vida. O que a faz parar? O que faz alguém, ao contrário, correr das próprias idéias? A adaptação pode ser uma primeira resposta. Mas qualquer adaptação requer pelo menos duas coisas: necessidade e treinamento. Passar a vida disfarçada é algo que se impôs sobre a moça mediante muitas dificuldades e demandou muito ensaio, muitos conselhos. Isto não significa, entretanto, que ela não possa saber que a adaptação, embora por vezes tenha sido uma necessidade, não é necessária, mas contingente.

A mulher da representação romanesca se vê inserida, desde o abrupto termo da infância, numa espécie de crise, ou impasse, um teste em que a escolha versa por possibilidades igualmente indesejáveis. De fato, o primeiro contato de qualquer moça com a crise ocorre em ocasião absolutamente privada de escolha: na violência invasiva do olhar do homem sobre o corpo recém mudado da adolescente, imprimindo nela uma mudança ainda não sentida internamente. E, por dar-se sob a forma lasciva – e desrespeitosa, na medida em que a virtude socialmente reconhecida está na inocência -, o olhar de desejo implica o contato com três inaugurações violentas: a moça se depara com o fato de que já não é o que era; sente que esta ruptura se deu apesar de sua vontade, o que indica que aquilo que virá a ser dependerá de fatores que lhe são absolutamente exteriores; e que, a despeito do desconhecido implicado em sua identidade ainda a construir, a humilhação inerente à condição feminina já dá sinais de que será uma das poucas constantes.

A crise, ou impasse, ou a falta da alternativa propriamente dita – caso se compreenda por alternativa algo distinto da oferta de coisas desproporcionalmente ruins – foi abordada por Natalie Heinich, em Estados da Mulher, como o labor do enquadramento entre os momentos de si, em que a moça, ou mulher, deve orquestrar a percepção que tem de si mesma, a representação que faz dos outros e a designação de uma imagem própria refletida a partir dos outros. Desse enquadramento, isto é, de lograr uma coerência mínima entre estes fatores sobre os quais não exerce – mas somente é forçada a tentar exercer – controle, depende a construção de um sentimento de ser mulher capaz de atribuir-lhe uma identidade.

Sem reflexão, o que se conclui a partir de tal quadro é que escapar dos infortúnios que ameaçam a moça ao longo da vida é um imperativo. Bem sucedida, a moça casadoira torna-se a esposa ou, com menos sorte, a segunda esposa. As conseqüências da falta de uma estratégia são gravíssimas: se não souber transitar bem pelo restritíssimo espaço de possibilidades tornar-se-á a amante, a solteirona ou, pior que tudo, a desonrada. Não há espaço para a reflexão. Enquanto pensa em seu destino, perde a possibilidade de fazer dele o menos pior possível. O lugar da moça, da menina e, finalmente, da mulher, é um lugar difícil. É preciso aprender a ocupá-lo.

Em resposta à concepção de hipossuficiência feminina – e com a finalidade de fazer realidade e, depois, tornar permanente a hipossuficiência – é possível afirmar, talvez, que desde sempre hajam existido meios de instrução sobre esse lugar. O que esperar, o que suportar, como se comportar, a forma de cobrir o corpo, a de exibi-lo, tudo isso sempre foi objeto de transmissão. A sabedoria prática da mãe, de uma tia, da irmã mais velha, transmitida pela palavra, ou por um olhar de reprovação; uma orientação do pai, uma reprimenda sua; um primeiro olhar de um primo, do vizinho, de um desconhecido; uma primeira ordem. Só com isso já se põe, já está ingressa a moça no sufoco que é ter nascido menina.

Com o tempo, refinam-se as formas de transmissão. A reflexão de Heinich a este respeito indica o interessante lugar da literatura romanesca produzida em fins do século XVIII, até o início do século XX, no processo de transmissão dos destinos e estratégias disponíveis à menina, à moça e à mulher.

Bons tempos. As recomendações vinham, embora por puro disfarce, envolvidas pela literatura e, portanto, por algum prazer. Além disso, o romance de formação trazia consigo o despertar da moça para a consciência do seu inferno. A adaptação era resignada, sem dúvida, mas restava clara a injustiça.

Roland Barthes elucidava, já em meados do século passado, nas Mitologias, sobre os perigos da literatura jornalística feminina na França. Sua atenção voltou-se, justamente, para as seções de aconselhamento. Para Barthes, porque as mulheres são consideradas o mais disponível dos objetos e a mais frágil das almas (concepções que se alternam elasticamente com as de ser ardilosa e dissimulada), a moça é de uma só vez vestida e doutrinada, sugerem-lhe, ao mesmo tempo, roupas e princípios. Afirmava, então, que a seção de aconselhamento é essencialmente defensiva.

Mais do que isso, Barthes identificou que, na seção de aconselhamento, as revistas de estilo emancipado (como Elle, Marie Claire e Vogue) misturam táticas de restrição e expansão, já que afirmar a mulher, nos termos do aconselhamento é, de uma só vez, liberta-la e fixa-la. Por este motivo, na maioria das publicações deste tipo, o aconselhamento é uma técnica de imobilização.

Barthes identificava com clarividência que, em resposta à profissionalização das mulheres, a conselheira também precisou adaptar-se. Sua função passou a incluir a ajuda na escolha da profissão. Mas, enquanto aparenta admitir liberalmente o fato da profissionalização, mina-o de moral. A moral aparente é que a moça pode trabalhar. Mas deve escolher convenientemente a profissão. Isto porque o dogma – e este, por definição, não muda – é que nenhuma profissão lhe conviria, já que o seu estatuto natural é “parasitar o homem”. De sorte que “o aconselhamento começa por permitir-lhe tudo aquilo que acabará por lhe recusar”.

Este zig zag dissimulado se dá, segundo o autor, através de uma operação pela qual o trabalho da mulher é imaginado nas formas mais irreais, a partir do que chama de profissões-miragens. Para a mulher, o trabalho não é apresentado como um objetivo, mas como um sonho, algo que “faz mais sentido mesmo abandonar”. Sem deixar de ser apresentado como possibilidade, afinal, a conselheira é tão moderna quanto a leitora que paga para lê-la. Mas o introduzirá inserido em conselhos que permitirão a mulher delirar sobre a sua igualmente irreal liberdade. A liberdade proporcionada pelo conselho é a permissão para fingir levar a sério um sonho e para abandoná-lo sem trair a emancipação.

Assim, embora sejam advogadas profissões em que o dom – em sentido rebaixado, de facilidade que deve ser trabalhada – se liga ao trabalho aduzido de formas virtuosas, como coragem, paciência e tudo mais que faz do trabalho uma ascese, um teste do caráter, nada disso será suficiente para a mulher trabalhar. Para ser estrela, escritora, top model, a moça deve ter sorte, algo que lhe escapa completamente ao controle e, no limite, um pistolão, naturalmente, masculino. As belas carreiras – professora, enfermeira etc. – também são apresentadas de forma pouco atrativa, como dependentes da vocação, o que pode perfeitamente ser compreendido pela pergunta “vale mesmo a pena?”. Por todas estas, o princípio da orientação profissional da seção de aconselhamento é “fiquem onde estão”.

Portanto, o tempo que refina as formas de transmissão é o mesmo que estraga tudo. O moderno instrumento de adaptação é infinitamente inferior ao romance de formação. O que se temé um jornalismo “feminino” que vai diretamente ao ponto. As desventuras de uma jovem e a forma como supera os impasses e faz escolhas pobres (fracas, no vocabulário mobilizado por Heinich) são substituídas pela paupérrima forma “modo de usar”, agravada por uma aparente franqueza acerca do objeto – o que conferiria à forma uma igualmente aparente força libertadora. “Não se deixem usar, usem!” ou algo que o valha. Uma maneira tola de aceitar a premissa e de fazer a mulher aderir a tudo que a vitimiza.

Em quase nada, nem mesmo em moda, as revistas femininas contemporâneas se diferenciam das que despertaram o interesse de Barthes. A Vogue francesa de fevereiro deste ano apenas aduz a imobilidade de uma dose a mais de angústia. Já não se pode recusar a moderna possibilidade do trabalho sem trair a emancipação. Por este motivo, a Vogue está repleta da afirmação da profissão como algo de que não se pode abrir mão, mas o faz espalhando o pânico das conseqüências de solteirice pertinentes à atenção demasiada à carreira.

Entretanto, não faltam leitoras dispostas a pagar uma pequena fortuna por seus ensinamentos. Apesar das figuras serem, por oposição a todas as outras formas de publicação escrita, o que vale nessa literatura.

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Paula Campos Pimenta Velloso

About Paula Campos Pimenta Velloso

Bacharelada em direito pelo Ibmec-RJ (2007), pós-graduada em Sociologia Política e Cultura pela PUC-Rio (2009) e mestre em Ciência Política pelo IESP-UERJ (2010). Atualmente, é doutoranda em Ciências Sociais pela PUC-RIO e professora substituta de Teoria do Direito do departamento de Direito Público da UFF.
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