Bin Laden e o amesquinhamento de uma nação – Número 6 – 05/2011 – [16-17]

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Osama bin Laden, o líder máximo da Al Qaeda e autor intelectual dos atentados de 11 de setembro, que vitimaram cerca de três mil pessoas, foi assassinado no dia 1º de maio de 2011, numa ação promovida por forças estadunidenses e supervisionada diretamente pelo mandatário máximo dos EUA – o Presidente Barack Obama. Bin Laden foi morto numa casa localizada na cidade de Abbottabad, onde morava havia cinco anos, a cerca de uma hora da capital paquistanesa, Islamabad. Apesar de não ter sido divulgada nenhuma fotografia de Bin Laden, sua identidade teria sido confirmada por exames de DNA. Segundo as Forças Armadas estadunidenses, após a execução, seu corpo foi lavado e envolto em lençol branco, de acordo com os ritos islâmicos. Posteriormente, o corpo foi lançado no Mar da Arábia – o que contraria os ritos islâmicos – para evitar que o túmulo pudesse se tornar em objeto de culto de simpatizantes.

A operação foi o clímax de uma série de operações militares lançadas em represália ao 11 de setembro de 2001; operações que englobaram duas guerras (Afeganistão e Iraque) e que culminaram na morte de mais de 4.000 norte-americanos, além dos gastos calculados em US$ 1,283 trilhão pelo Tesouro dos EUA.  O saldo positivo teria sido a realização de justiça. Conforme disse Barack Obama no dia 2 de maio, “foi feita justiça, “o mundo está mais seguro” e “é um lugar melhor por causa da morte de Osama bin Laden”. No espírito do noticiário triunfalista que se espalhou na mídia estadunidense, Nichloas Kristof, articulista do The New York Times, afirmou que “a mensagem que se deve extrair deste acontecimento é que quem desafia os EUA corre um grave risco, e um ataque terrorista contra os EUA terá consequências”. De fato, as sintomáticas palavras de Kristof mostram como o conceito de justiça vem se avizinhando perigosamente da simples vingança, no melhor espírito dos faroestes, tal como, aliás, o próprio nome da operação – Gerônimo – sugere.

É sabido que Osama bin Laden é o produto renegado da própria política externa estadunidense. Como um golem saído da tradição do misticismo judaico, Bin Laden e a ideologia jihadista – da qual é representante – já estiveram muito associados às atividades norte-americanas no contexto dos capítulos finais da “guerra fria”, ocorridos no Afeganistão, durante a década de 1980. Não há nada de especial na questão. Afinal, todos sabem do envolvimento de Saddam Hussein com os interesses estratégicos norte-americanos quando da guerra Irã-Iraque. Neste faroeste, sem mocinhos nem bandidos, talvez este venha a ser o destino da Líbia. É digno de nota, no entanto, que quase nenhum espaço foi destinado a uma autocrítica nos noticiários norte-americanos.

O problema crucial envolvido neste episódio e em todas as manifestações brutais que o cercaram consiste na natureza mesma da chamada “guerra ao terror”. As investigações que culminaram na localização de Bin Laden foram marcadas pela larga utilização de tortura, incluindo o famoso método do “afogamento”, além de sem-número de ilegalidades que cercaram a operação propriamente dita, culminando na execução sumária do autor intelectual do 11 de setembro de 2001. A série de exceções, urdida na sombra da violência pragmática e justificada pelo direito de autodefesa, coloca em linha de choque os clamores ocidentais de fim das arbitrariedades e de repúdio à violência com os métodos pragmático-militares utilizados para implementá-los. Diante dos recentes acontecimentos, como esforço para avaliarmos a validade da Operação Gerônimo, proponho que carreguemos nas cores para formular uma indagação: por que uma operação militar italiana não poderia invadir o Complexo Penitenciário da Papuda e executar Cesare Battisti?

Ainda que fosse possível justificar cada uma das arbitrariedades e abusos cometidos pelas operações anti-terror patrocinadas pelos EUA, de Abu Ghraib a Guantánamo, das torturas ao escárnio, é impossível ignorar a estrutura geral de crueldade e estupidez que vem se consolidando a ponto de o deputado estadunidense Peter King afirmar: “Obtivemos informações vitais sobre o paradeiro de Obama (sic) através do ‘afogamento’. E, assim, dizer que o afogamento não funciona e jamais deveria ser utilizado, é equivocado (…)”. Como dizia Cazuza, “o mundo está ficando marcial” e disso não é testemunha apenas a fala de Peter King, mas, sobretudo, as comemorações patrióticas realizadas em várias partes dos EUA.

Segundo um levantamento feito pela agência Associated Press, o índice de aprovação de Obama chegou a 60%. Ou seja, Obama não conseguiu aumentar sua popularidade através de nenhuma agenda de esquerda, mas sim graças ao seu protagonismo numa operação militar cercada de ilegalidades e que muito bem poderia ter sido capitaneada por G. W. Bush. Enfim, nada mais parecido com um republicano do que um democrata no poder.

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Bernardo Bianchi

About Bernardo Bianchi

Doutorando em Ciência Política pelo IESP-UERJ.
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